"Se chorei ou se sorri, o importante é que em Poções eu vivi"

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Diretas do Pavilhão


·         Não se podia rezar na Igrejinha. Estava fechada durante boa parte do tempo.

·         Alguém estava feliz da vida, cantando a música Carinhoso, de Pixinguinha, depois de reatar um namoro de quarenta anos atrás.

·         Ricardo Benedictis mandou recado para Paulo Espinheira: A Festa pode ter mudado, mas os amigos continuam os mesmos. Não faltem!!!

·         Registro aqui a ausência de inúmeros amigos, sem contar que os que estavam presentes sumiram na sexta à noite e no sábado.

·         A nova geração se fez presente, lembrando Badinho e Gislene Lago. Estavam na Festa Cristiane e Patrícia, suas filhas. De quebra, conseguiram rebocar Jerry Lago para a praça.

·         Coitados de Irundy e Noélia. Os discípulos não os deixam em paz por um instante.

·         Mais uma vez foi sentida a falta da exposição de fotografias antigas de Zé Onildo.

·         Só quem estava defronte da Igreja viu a cena. O Padre Estevam deu um puxão de orelhas nos políticos presentes à Chegada da Bandeira, cobrando as promessas. Naquela hora, todos deram um sorriso de canto de boca e ficaram com cara de paisagem.

·        A Calcinha Preta tirou o povo da Praça na tarde de sábado. Era para ser uma paz, mas os controladores de mesas de som fizeram a festa com os volumes altíssimos de bandas locais. Ninguém conseguia conversar nos bares quase vazios. Não foi a tarde da Calcinha Branca da paz.

·         Os vendedores de queijo coalho circulavam livremente na praça lotada com o calor dos fogareiros nas pernas das pessoas.

·         Edson Jacaré insistia em saber a sequencia de ordem da “reza” de Tico Rezador, no ano de 2010: Rominho, Edson, Pepone e Lourinho (as fotos comprovam Lourinho pagando R$ 2,00 a Tico).

·        Os Sangiovanni´s comemoraram 60 anos de presença na Festa, já que Seu Chico chegou no Brasil em 1952. A frase da camisa “60 anos de Festa do Divino” gerou polêmica porquê a Festa original fez 133 anos. Para alguns que apareceram depois de anos, eu brincava e dizia que a polêmica era um detalhe simples de se resolver: “60 anos (sem) Festa do Divino”.

·         Teve quem se lembrasse da cerveja Malt 90. Era uma cerveja alternativa da Brahma. Um dia, alguém foi encontrado revelando a sua preferência sexual ao lado de três garrafas já bebidas da Malt 90. A culpa foi da cerveja, que fazia o cidadão ter comportamentos diferentes, claro! A cerveja foi banida de Poções.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

As obras primas de Homero

Enquanto se discute o sagrado e o profano, seu Homero continua ganhando espaço na Festa com a beleza dos dois eventos:  Chegada da Bandeira e do Mastro (eu prefiro chamar Chegada da Bandeira do que das Bandeiras – entendo que a Bandeira do Divino (estandarte) era trazida originalmente com outras bandeiras em torno e assim era a forma de ser chamada no passado).
Pesquisando velhas fotos, encontrei-o montado em um cavalo durante uma das Chegadas da Bandeira dos anos 60. Sem tanto destaque, ele está logo atrás de Claudionor – o Mituca, que era o antigo organizador.
A tradição cresceu e a mistura de cores e fé tomaram conta do povo. A emoção toma conta do coração do velho Homero. Montado ao seu lado, na porta da igreja, observei o seu profundo silêncio. Seus olhos brilhavam com a certeza de ter feito a sua tarefa muito bem. Era só concentração e inquietação enquanto não fosse chamado para entregar o estandarte oficial do Divino Espírito Santo ao Padre Estevam. A gente percebe que aquele momento é o auge da cavalgada na expressão de Homero.

No Mastro, na noite de sábado, sentei-me junto a ele num banco de madeira e me disse: “Eu nunca vi uma Chegada da Bandeira tão bonita e organizada como essa”. Não estava jogando confetes. Eu entendi perfeitamente que se tratava da ordem, da velocidade do desfile, do posicionamento dos cavaleiros, das pessoas ao longo do percurso, ingredientes básicos para a beleza do colorido das bandeiras.

Nós, os cavaleiros do Divino, cavaleiros de Seu Homero, seguimos as suas orientações à risca.

Naquela noite, o velho senhor estava afinadíssimo com a história que sempre conta sobre a formação religiosa da nossa cidade. Começou a contar mais cedo. Teve um lance interessante antes da fala dele. Um radialista se aproximou e pediu para que ele falasse com exclusividade para a transmissão da missa. Ele respondeu: “Fique atento na história e depois você mesmo conta – eu vou falar muitos detalhes”. E assim fez.

Do outro lado, ligados na fala de seu Homero estavam Jorge de Ucha e Neto de Maneca. Sabem cronometrar exatamente o tempo do discurso com os fatos, principalmente quando fala das moedas de prata que foram trazidas para Salvador e, derretidas, transformadas em uma imagem de pomba.

O discurso é interrompido pela emoção. Capaz de lembrar e citar os nomes de quem o ajuda, sua voz embota e dá vez ao choro, demonstrando a dedicação, a dificuldade para organizar e conduzir as tarefas que lhes foram confiadas e transformadas nessas duas obras primas, quando conta com a ajuda principal da sua família e das famílias que moram na Lapinha.

Certos estamos nós quando carregamos o Mastro nas costas e gritamos:

VIVA O DIVINO ESPÍRITO SANTO!!!     VIVA SEU HOMERO!!!

Também no Youtube

Passo a postar pequenos filmes no www.youtube.com. Quando acessar, basta procurar por MULTISANGIOVANNI ou no link Lulu Sangiovanni


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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Museu do IECEM - O bom Museu de Poções

Deixei para visitar o Museu do Iecem no sábado, lá pras 18 horas.

Aquele lugar traz uma recordação inestimável da Poções antiga, moderna e quase atual pela diversidade de fatos e coisas juntadas ao longo da sua existência e nas versões anuais ao lado da Igrejinha.

Comecei a ver a exposição logo pelo lado direito, na tentativa de dar uma volta completa, encerrando pela assinatura no livro de presença na recepção. Passei por uma área específica destinada à Festa do Divino e vi que estava sendo exibido um vídeo da própria Festa nos anos 80. No mesmo momento em que via os cartazes de Festas anteriores, a minha imagem era exibida naquela parte do filme. As imagens eram familiares pois todas elas foram feitas por mim e pelo meu irmão Pepone numa antiga filmadora JVC, moderníssima para a época, gravadas naqueles cartuchos de fitas VHS.
 Pepone reproduziu o documentário com as imagens da Festa e outras íntimas com as nossas famílias em DVD. Gentilmente ele emprestou o filme, fizeram cópias sem a sua autorização e venderam nas bancas de DVD´s piratas na feira de Poções. Não tiveram piedade…

O lado positivo da história, é que as imagens em tão pouco tempo se transformaram em um histórico riquíssimo que mostra o modelo antigo da Festa do Divino e estão no lugar certo, naquele Museu. Então, como exemplo, não podemos perder o hábito de fotografar e filmar as nossas tradições, pois é assim que se registra a memória.

Mas, se existe o acaso nessa história, certamente a pomba do Divino deu uma mãozinha para tamanha coincidência.

Ao IECEM, mais uma vez, os meus parabéns!!!

domingo, 19 de junho de 2011

Eu sou Vicente...

Na mesma noite de quinta-feira, ainda na barraca de Zé Califórnia, o ponto de início da Festa, encontrei-me com Lourinho e Edson Jacaré.

Ficamos um tempo relembrando de histórias passadas, quando Pepone resolveu ir dormir. Fui fechar a conta com Norbertinho para reabrir outra com os novos amigos.Norberto é o garçom mais antigo da cidade. O mais amigo e conhecedor de pessoas e histórias, principalmente dos frequentadores da Festa, antigos e novos. É daqueles que você não precisa conferir a conta – nem mais, nem menos.

Mas, eu recebi a conta em uma notinha personalizada e vi os nomes de “Vicente e Pepone”.Perguntei para ele quem era Vicente. Respondeu: - Você é Vicente. Eu falei: -Eu sou Lulu!. Ele teima: - Não, você é Vicente!. E isso durou até o dia seguinte, quando ainda teimava a troca.

Para aqueles que não sabem, Vicente era o primo que todos nós chamávamos de Vicentão, um dos maiores frequentadores e admiradores da Festa, além de divulgá-la nos jornais da Capital.

Norbertinho não explicou porque trocou o nome. De qualquer forma, Lulu ou Vicente, não
importa. Serviu para lembrar que Vicentão estava presente na Festa.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Como uma onda

“Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas como o mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo”
(Nelson Mota)


Na quinta-feira à noite, fiquei sentado no Zé Califórnia com Pepone e Zilma. Olhava para a Praça do Divino e apreciava o vai-e-vem das pessoas. Pouco a pouco, desfilavam na frente daquele barracão as mesmas figuras que frequentavam as Festas passadas.



Os cabelos brancos e as jaquetas de cores neutras pintavam o cenário de outros tempos. Misturavam o passado com o presente, mas com o mesmo entusiasmo do começo de mais uma Festa. Todos esperam o ano todo por aquele momento, por aquela semana.



Observava o movimento e lembrava o tempo em que filmávamos a Festa entrevistando as pessoas na praça. As perguntas sempre eram as mesmas: “Você acha que a Festa mudou em relação ao passado?” “O movimento aumentou ou diminui?” “Ela está mais animada?”. As respostas sempre vinham com justificativas nas crises econômicas, nos planos dos governos, na chuva, no frio e na falta da filarmônica. Eram quase unânimes e afirmavam que a mudança havia acontecido.



A Festa é a onda da letra da música acima. Dela, não adianta fugir. A Festa não será como foi um dia, mas sempre será nossa!!!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Jurubeba combosta



Está chegando a Festa do Divino Espírito Santo, o dia da "chegada da Bandeira".O coração começa a bater quando vem na mente um mundo de lembranças: o velho pavilhão, a quermesse com as casinhas numeradas e os preás, a pesca de garrafas com argolas na barraca de Mituca. A roda gigante, a víspora do velho Cícero Pia, a pipoca com manteiga. Os amendoins de Febrônio, o parque com a arca de Noé e o alto-falante tocando “Colcha de retalhos”, a gloriosa filarmônica do mestre “tio Nadinho” Fagundes e a barraca de Pulu, coitado, pegando fogo.


Estou lembrando dos meus amigos, das barracas dos estudantes, dos botequins, de carregar o mastro. Vou encontrar a minha gente na porta de casa depois da chegada da Bandeira. Eu vou me emocionar sobre o cavalo, desfilando ao lado de Seu Homero.


Mas, continuarei a guardar a emoção de ter relembrado, com meu pai, o leilão que entrou para a história da festa - o leilão da Jurubeba combosta!


As ofertas para o leilão eram simples e humildemente entregues à comissão. Entre as galinhas – algumas assadas, outras vivas debaixo da mesa - e os carneiros amarrados ao “pé da cajarana”, havia bebidas quentes como cinzano, licor, cachaça e a jurubeba composta Leão do Norte.


Naquela noite, Seu João, o leiloeiro, não pôde ir ao pavilhão por problemas de saúde e tiveram de arranjar outra pessoa. Trouxeram um leiloeiro que não tinha o traquejo de “cantar” como Seu João fazia. Depois de algum tempo, o leilão passou a ficar sem graça e ninguém queria arrematar nem mesmo galinha assada. Aí, entrou em cena Seu Chico, meu pai.


Com aquele ar brincalhão e ingênuo, apenas com a intenção de ajudar o substituto do leiloeiro descansar a garganta, pois era no grito, literalmente.


Meu pai apanhou uma garrafa de bebida, leu o rótulo e bradou no carregado sotaque italiano: – Una garrafa de jurubeba combosta. Qui dá mass? Essa seria a frase da noite para acordar o povo às mesas.


Beber jurubeba combosta naquele frio virou um charme. Sucesso absoluto e não sobrou garrafa para ser leiloada. Em minutos, foram mais de dez a preços altos e que somaram uma boa quantia para a igreja, nos tempos em que o sagrado e o profano andavam de mãos dadas.


Hoje, com a jurubeba, sem a tradição, sem o leilão, sem Seu João e sem pavilhão – questionamos o nosso passado e a nossa identidade.


Boa Festa a todos e que o Divino Paráclito, consolador, nos abençoe, nos perdoe e aceite as lindas rosas tão preciosas do nosso amor, como bem canta Chicão Schittini.



sábado, 28 de maio de 2011

O fim do mundo

No escuro de Poções, conseguíamos enxergar muito bem a constelação do Cruzeiro do Sul, as constelações Ursa Maior e Ursa Menor - as estrelas enfileiradas. Virava e mexia, uma estrela cadente. Quando a lua brilhava, dava pra ver São Jorge dominando o dragão. Virou música – Lua de São Jorge ( http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/43876/ ).

Certa vez , acordei às três da manhã para ver um cometa – não foi o Kohoutek e nem o Halley, mas tinha a cauda brilhante como aquela dos presépios de Natal. A imagem era vista sobre o casarão dos Schettinis.

Lembro do anúncio de um grande eclipse que aconteceria na Terra. A escuridão tomaria conta e ficaríamos assim durante um bom tempo. Alguns, interpretavam como um acontecimento normal. Outros, interpretavam como o fim do mundo.

Confesso que o exagero me fez ficar do lado daqueles que acreditavam no fim do mundo . Nessa época, eu era coroinha e, sem dúvida, centenas de pessoas levavam fósforos e velas depois da missa para o Padre Honorato benzer . Significava que o sol não brilharia por muito tempo e a escuridão dominaria. Deu medo.

O padre, ao benzer, manifestava a sua crença e reforçava o pensamento do povo. No final, a frustração: a sombra não atingiu Poções.

Ao longo dos anos, a luz produzida pelas velas bentas serviu para aumentar a fé no Divino Espírito Santo, Santa Rita, Santo Antônio, São José e tantos outros adorados.


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sábado, 21 de maio de 2011

Cola de Farinha

Resolvi tirar três tardes de férias e emendar com o final de semana. Fazer o que em tão pouco tempo? Lógico, consertar coisas quebradas de casa, arrumar outras e jogar fora a papelada sem serventia, costume em toda passagem de ano. Fiquei com os braços doendo de tanto aparafusar uma velha bancada na cozinha. Jurei comprar uma aparafusadeira elétrica.

Imprimi algumas fotos e fui trocar as antigas existentes em uma pequena porta-retrato. Eram apenas seis fotos tamanhos 3x4 a 5x7 e uma circular. Precisei de um pouco de cola e não encontrei o tubo. Minha mulher perguntou: - Você esqueceu como é que se faz cola?

Claro que não,
respondi – com farinha de trigo! Fui fazer a cola e errei a receita. Fiz cola suficiente para colar umas 300 fotos. Enquanto mexia a mistura de farinha com água, me lembrei das capas de provas, das figuras de passar e das rosas recortadas dos papéis de enrolar presentes. A cola ficou grossa, mas colou.

Coitado, o leitor mais novo deve está pensando: Capa de provas? Isso mesmo, capa de prova com areia brilhante. Isso é lá assunto de coluna de site?

Essa lembrança é de 1967. Todo final de ano, as professoras pediam para que os alunos levassem as capas de cartolina para que fossem colocadas as provas finais dentro delas. Na loja dos Sarno, vendiam-se as benditas capas. E vendiam muito bem. Não posso precisar a quantidade, mas dava um trabalho enorme para fazer. Era uma atividade prazerosa. Elas eram fabricadas lá em casa.

Precisávamos apenas de cartolinas de diversas cores, figuras de passar (só se achava em Vitória da Conquista ou Salvador), papel de presente para recortar as figuras, cola e areia brilhante. Esse era o material básico. Vez ou outra se usava tinta guacher.

As cartolinas eram dobradas ao meio e ficavam no tamanho que hoje chamamos de A4. A figura de passar era um material interessante e não é comum nos dias de hoje – chama-se “de passar”, pois quando colocada na água a fina película se soltava e deslizávamos sobre a cartolina. As figuras recortadas eram coladas com a cola de farinha de trigo.

O charme vinha no final, quando se colocava cola branca em torno das figuras e jogava a areia brilhante. Quando recebíamos uma encomenda, o nome da pessoa também era destacado com a areia brilhante. Naturalmente, se enfeitava com o repasse da tinta guache para melhorar a apresentação. A mesma coisa era feita com os nomes das matérias. Para completar, fazíamos os furos com um furador de papel e aplicávamos uma fita com o bonito laço.

Essa lembrança mostra como se dava importância à atividade escolar de outrora. Receber as provas em capas com a nota final gravada era uma festa. Marcava-se data para a solenidade de encerramento.

Até o cara que “tomava pau” se sentia menos culpado e levava as capas. Eu sempre passei “arrastado”, mas trazia as minhas com as mensagens de fim de ano do professor.

Invés, agora, no dia do último Natal, o filho de uma amiga comemorou quando soube, por telefone, que não faria segunda época. Estava fora do “pé-quebrado”, como dizia a minha mãe.




(Texto escrito em 2008)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vamos lá Poções!!!

Ontem, eu estava na Feiraguai, bem no meio das lojas, em Feira de Santana. Numa pequena televisão, era apresentado um programa de esportes e anunciava a próxima partida do Poções contra o Itabuna, sábado que vem, pela segunda divisão do campeonato baiano.


Uma pessoa assistia ao programa e comentou: Esse timinho do Poções só anda na lanterna, num aprumou mais, ô coisa feia…


Olhei disfarçadamente e me deu vontade de dá um tabefe no cara. Como é que pode falar desse jeito? Pensei.


Mesmo tendo razão, ele apanharia sem saber por que. Eu, sem razão, poderia apanhar sabendo por que. A raiva passou.


Mas, ainda resta uma esperança de classificação – VAMOS LÁ POÇÕES!!!

(O Poções perdeu por 2 x 0 no final da tarde deste sábado, 21/05)

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terça-feira, 10 de maio de 2011

Os Pássaros - The Birds

Por Carlos Rizério Filho









A minha mãe, Célia Rizério


Início de primavera em Poções. As andorinhas trissavam no azul escuro do céu de setembro. Com zelo e carinho, a mãe preparou os cinco filhos e os levou, pelas mãos, à tão esperada matinê de domingo no Cine Santo Antônio. D Célia havia olhado o título, e concluíra que seria um bom filme de aventuras, ideal para embarcar suas crianças em mais uma tarde cinemágica. Ao começar a fita, um ar de preocupação começa a rondar a mãe, o que ainda não era sentido pelas crianças, não iniciadas, nem tão vulneráveis como os adultos, ao clima provocado pelo mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Personagens surgem e se encontram em Bodega Bay, pequena cidade do litoral da Califórnia, lugar onde se desenrola a trama. À medida que o filme avança, um silêncio se apossa do cinema. A mãe pensa em sair, mas observa todo o envolvimento dos filhos e dos outros jovens com a história. Resolve ficar e mergulha, como todos ali, na magia da sétima arte. As cenas se sucedem num ritmo cadenciado, o lugar é misterioso, quase surreal. Sem motivo aparente, as aves começam a atacar a cidade em bandos cada vez mais numerosos, e depois recuam, e surgem novamente, ameaçadoras, determinadas a abater todos os que ali se encontram. Provocam pânico geral, dúvidas, fogo num posto de gasolina, atacam crianças numa escola, matam uma professora, um fazendeiro e finalmente, o clímax. Uma casa de madeira a beira mar, onde um grupo de pessoas, aterrorizadas, esperam o ataque final das aves, que avançam aos milhares, fazendo um barulho infernal, com bicos afiados como lâminas, a baterem nas paredes, telhados, portas e janelas. Na madrugada, uma trégua, silêncio. Rod Taylor, que faz o protagonista, abre a porta, bem devagar, e se depara com uma cena macabra: as primeiras e dramáticas luzes da alvorada revelam milhares de gaivotas e corvos, pousados em volta da casa, a ocuparem todos os espaços. Sai, em pequenos passos, cuidadosamente, até a garagem. Entra no carro, liga o rádio, ouve as notícias, volta e encoraja a todos a saírem e entrarem no veículo. Liga o automóvel e sai, em movimento reduzido, por entre milhões de aves, para então, tomar a estrada litorânea e sumir, deixando para trás a cidade entregue aos pássaros. Fim. A maioria sai do cinema em silêncio. D Célia e os filhos, Carlinhos, Gina, Teca, Tinho e Nando, descem o Beco dos Artistas, atravessam a Praça Deocleciano Teixeira, passam pelo posto de gasolina de Miguel Labanca, percebem que não há ninguém, e seguem em direção à praça Góes Calmon. Ao chegarem à praça, onde moravam, tomam a direção da residência. A cidade estava calma, metafísica, era uma tarde diferente. Entram em casa, incólumes. Lá fora, pardais volteiam e pousam nos fios de tensão.

09/05/2011 (dia das mães)

Carlos Rizério, Filho e sobrevivente

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dois grandes goleiros

Durante a Agrishow, aqui em Ribeirão Preto, tive a oportunidade de encontrar o goleiro Marcos, do Palmeiras e Seleção Brasileira, no stand da Case, empresa que patrocina o time paulista.



Marcos fez história e eu fiz o meu papel de grande goleiro nos babas da Magalhães Neto.


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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Museu de Poções na Festa do Divino

MUSEU DE POÇÕES – 4ª EDIÇÃO-2011


(publicado no blog do Iecem)

O IECEM propõe a cada ano resgatar com educadores e educandos o verdadeiro sentido da festa cultural do município de Poções- BA em suas várias manifestações: religiosas, históricas e populares, valorizando o verdadeiro significado das diversidades culturais que fazem a História deste lugar com uma meta para o futuro: envolver a comunidade na organização do acervo histórico da cidade.


Em 2011 o acervo contará com objetos variados e acrescentaremos os seguintes eixos temáticos:



5ª série/6º ano : Mitos,lendas,Esportes,Cinema, Clubes, Cultura sob a orientação das professoras: Suzy,Riane e Eliene;


6ª série/7º ano: Família, objetos das famílias, sob orientação das professoras Flávia e Zeny;


7ª série/8º ano: Cantinho nordestino, sob a orientação de Mércia, Roberta, Selma e Sandro;


8ª série/9º ano : Pontes, praças, bairros,escolas, orientados por Camila,Manuela e Mezac;


1º ano do E. Médio : Feira,Comércio,Alfaiates,barbeiros,retratistas, sapateiros,etc, sob a


orientação de Rogério e Cleide Jane;


2º ano : Festas tradicionais: Divino, São João,Reisado, Carnaval,etc, sob a orientação de Daniela, Michelle e Neyara;


3º ano : Periferia da cidade, sob orientação de Chico, Cristina e Tatiana.

QUE DIA ? De 08 a 12 de junho durante os festejos do Divino
LOCAL ? Salão Paroquial Padre Valmir Neves ao lado da Igrejinha
HORÁRIO? DAS 14 às 22 hs.
ORGANIZAÇÃO: EQUIPE IECEM

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cine Tela em Transe

Atendendo o convite do meu amigo Fábio Agra, publicarei histórias sobre os cinemas de Poções no blog do Cine Tela em Transe. O projeto dessa turma jovem e ligada na cultura da nossa cidade, visa manter o costume das pessoas irem ao cinema.


É um excelente projeto e deve ter o apoio de todos nós. Lembro que as histórias serão publicadas exclusivamente no blog abaixo.


Endereço do blog: www.cinetelaemtranse.blogspot.com


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domingo, 3 de abril de 2011

O Comendador Corinto Sarno



Corinto Sarno, nascido em 1899, em Mormanno, na Itália, veio para Poções – Bahia, Brasil, com 28 anos de idade, chamado pelo irmão Vicente e atraído pelas histórias contadas por Tio Chico Sarno (irmão do vovô Fedele - patriarca da família) que viveu na nossa região em 1890.



Retornou à Itália e conheceu aquela que se tornaria a sua esposa, a minha tia Anina, irmã do meu pai Amedeo (Francisco) Sangiovanni. Casou-se depois de um pequeno tempo de namoro e voltou ao Brasil.


Esse fato é marcante. O casamento dos meus tios mudou o destino da nossa família. Minha tia chamou meu pai e ele veio morar no Brasil. Teve a oportunidade de dizer não, mas seguiu em frente. Arrumou os baús e se mudou para Poções com minha mãe e meus irmãos. Decisão corajosa, pautada na confiança que adquirira no cunhado, apenas com as cartas que recebia da irmã.



Também mudou a vida dos que ficaram na Itália. Miminna, irmã de Francisco e Annina, aos 100 anos de idade, ainda brada com Cristóvão Colombo por ter descoberto a América e roubado os seus irmãos. Na verdade, foi seu Corinto quem descobriu.



Essa mudança do destino me deixa orgulhoso por nascer e viver em Poções. Me deu, também, a chance de ter duas pátrias. Obtive a cidadania italiana oficial.



Ele foi daqueles em que se enquadrou no ditado: “atrás de um grande homem, tem sempre uma grande mulher”. Assim, os dois, marido e mulher, se tornaram os grandes personagens da nossa família.



Corinto, ao longo da sua vida, foi um dos maiores empreendedores que Poções já viu. Um extraordinário líder. Ser humano de coração boníssimo. Exemplo que ficou na mente daqueles que conviveram e que desfrutaram dos seus conselhos e das inúmeras qualidades como simplicidade, virtude, seriedade, honestidade e do respeito pelo outro. Gestos que desencadeavam uma reciprocidade natural.



Era comum encontrá-lo às 7 da manhã, já de paletó e gravata, andando pelas ruas da cidade. Havia feito a inspeção das obras do hospital, passado pela Igreja e fiscalizado outras obras de particulares, sempre dando uma opinião segura e econômica. A essa hora, já estava com o paletó dobrado no braço, deixando ver a marca registrada – o seu suspensório.



No fundo da Casa Sarno, havia um escritório todo montado onde recebia as pessoas para tratar de assuntos comerciais, pessoais, etc.


Era de pouca conversa e eu ficava admirando a paciência na sua rotina de anotar todos os detalhes nos livros comerciais. Na verdade, muita gente não confiava no banco e guardava o dinheiro no cofre de seu Corinto. Ele não emprestava dinheiro, se alguém precisava de alguma quantia, tratava como se fosse um adiantamento e administrava como uma conta corrente.



Na sua casa, havia uma cadeira de balanço e eu era um dos poucos autorizados a sentar nela. Tinha o direito de mexer na sintonia para ouvir a rádio Mundial, de Alziro Zarur, e depois voltar para os 1220 khz da rádio Globo, no ponto para ele ouvir, antes das sete, o “Repórter Esso” e na seqüência “A Voz do Brasil". De palito na boca, alternava entre um cochilo e a notícia até as oito da noite, quando era chegada a hora da “passeggiata” (passeio) com minha tia.



O trabalho de Corinto era em silêncio. Não havia a necessidade de espalhar ou divulgar o feito com o objetivo de engrandecer. Quando menos se esperava, a obra já estava sendo iniciada, a providência já estava tomada.



Certo dia, em 1965, vi uma multidão subindo a rua da Itália e à frente estava o meu tio, parentes, o padre e as autoridades seguidas pelo povo. Era próximo do meio dia. Sai em disparada para ver o que acontecia. Soube que ele recebera da Santa Sé o título de Comendador. Acredito que tenha sido um dos maiores títulos de reconhecimento que alguém já recebeu em Poções.



Pedro Sarno, o filho mais velho, relata no seu livro “Foi tudo tão de repente...” o comentário feito pelo meu tio sobre a comenda: “Para mim não precisava, o que posso fazer cumpro como um dever”.



Assim foi feito. Fez a igreja, recuperou o hospital, trouxe desenvolvimento para a cidade, deixou marcas, virou Comendador. Em um dos bairros da cidade, meio escondida, tem a rua Corinto Sarno, certamente como ele gostaria que fosse, sem muita aparência, sem muita propaganda.



Ele e tia Anina deixaram para nós as pérolas, seus filhos: Tereza, Pedro, Aurora, Ada, Noêmia, Zé Fidélis e Eduardo, todos de coração poçõense.



Texto publicado em italiano no site: http://www.faronotizie.it/pdf/2009/2009_11/Il%20commendatore.pdf

sábado, 2 de abril de 2011

O Purgatório

Está no ar O Purgatório ilpurgatorio.wordpress.com, um blog de colunas curtas diárias. Sete convidados escreverão, um a cada dia da semana, textos de temática livre e estilo livre.


A equipe de escribas, todos jornalistas, é formada por:


- Ricardo Viel, às segundas-feiras. Segue de perto a música, a prosa e a poesia latinoamericanas. Escreve contos. Escreve também sobre Esportes e faz traduções de Espanhol. Dono de um senso de humor que não cessa e de um chute potente com a perna canhota. Mora em São Paulo, está atualmente no R7 e já passou pela redação da Folha de S.Paulo.


- Pablo Solano, às terças. Conhecedor da política nacional, busca entender a História para interpretar o presente; política latinoamericana também é com ele. Atento às injustiças nas relações de trabalho no país, tema frequente de suas reportagens. Mora em São Paulo mas é orgulhosamente de Santos, trabalha na S2 e também já passou pela redação da Folha.


- Vítor Carmezim, às quartas. Escritor de poesia e de contos. Dono de uma sensibilidade e de uma risada imensas, é capaz de enxergar humanidade onde a humanidade escasseia. Atualmente é assessor de comunicação do TRE em Queimadas, na Bahia. Já passou pela redação de A Tarde.


- Camilla Costa, às quintas. A cabeça de Camilla é um arquivo vastíssimo de informações detalhadas sobre tudo. Arquivo que ela vasculha e domina com seu coração, uma jóia. Trabalha na BBC Brasil e faz também matérias de destaque para grandes revistas. Já passou pelas redações de Folha, A Tarde e Veja. Orgulho-mor de Feira de Santana (Bahia).


- Tatiana Mendonça, às sextas. Jornalista de verdade, devora literatura de todo tipo com voraz delicadeza. A existência de Clarice Lispector a sensibiliza como a poucos. Filtra e fotossintetiza o mundo que vê e por fim nos entrega as excelentes reportagens que escreve para a revista Muito, de A Tarde.


- Vítor Rocha, aos sábados. Repórter dos bons. Homem que não precisa parar para refletir, porque reflete enquanto age. Atualmente vive em Madri, onde trabalha no diário Marca. Antes, cobria política no jornal A Tarde, onde produzia reportagens de destaque nacional. Cobriu as duas últimas Copas in loco e dirigiu documentário sobre política na Bolívia, em 2007.


- Ricardo Sangiovanni, aos domingos. Atualmente conclui mestrado em Literatura e Artes na Inglaterra, Itália e Portugal. Anota contos e cultiva modesto interesse por filosofia. Já passou pelas redações da Folha e de A Tarde. Dirigiu junto com Rocha o documentário na Bolívia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Palladino do Sudoeste

Reencontrei em Itabuna, semana passada, o meu amigo Lindolfo José de Brito Palladino - Zé Palladino.

Deixou Poções depois de algumas decepções na política. Mas, também deixou obras quando foi vice-prefeito, entre elas, o Terminal Rodoviário. A placa de inauguração está afixada logo na entrada. Foi para Itabuna e recomeçou a vida trabalhando com os seus tratores.

Antes, pintou frases nos muros da nossa cidade para externar as suas idéias e sentimentos: “Acredito no futuro da minha terra” e “Amanhã, mesmo que uns não queiram, será de outros que esperam ver o dia raiar”, parafraseando o artista Guilherme Arantes.

Apesar de não ser vidente, encerrou a sua carreira política com as frases acima. Isso é coisa do passado, assunto encerrado, como ele disse. “Tenho que agradecer o que consegui com o fruto do meu trabalho. A casa caiu no meu ombro quando meu pai morreu”.


Nos encontramos uma vez em Itabuna. Jantamos em um restaurante de rodízio de Sushi com várias cervejas, pois as histórias eram longas e muitas. Vestido com uma camisa do Vasco ainda ensaiou algumas gozações mas não foi longe.

Relembramos uma Poções belíssima. A medida que contávamos as histórias, os personagens iam saindo. Lembrou de Duza Bombeiro e a história de tirar um torrado (tirar o torrado era uma brincadeira que se fazia com as crianças do sexo masculino). Duza, enquanto abastecia um carro, não percebeu que a criança era uma menina e foi tirar o torrado. Rolou o maior pau porque o pai da mesma entendeu que Duza era um pedófilo.

Falamos de Chico Pescocin, um mecânico reapertador de carros. Era famoso e todos tinham a preferência por ele – vivia entre os postos de Miguel Labanca e o de Vicente Palladino/Pasquale Palladino. Lembramos de Licinho (Wilson Fernandes Moreira) e me perguntou se eu sabia o que ele fazia nos finais de ano: “Se vestia de Papai Noel e ia entregar presentes lá em casa e em outras casas também”. As histórias, naquele dia, só terminaram quando nos despedimos na Sorveteria Danúbio Azul, ali na Cinquentenário, depois de tomarmos umas bolas de sorvetes.


Dia seguinte, o café foi servido na sua casa, mas depois de vermos uma obra de terraplenagem. Reuniu na sua casa alguns amigos empresários do nosso ramo. Tive o prazer de conhecer Alice e Ana, suas filhas, duas pequenas princesas. Orgulhoso, ele disse que os olhos de Ana eram azuis, fruto da mesma genética de Seu Lindolfo, o avô materno.


Depois do almoço chegou Pipinho, seu filho mais velho, com uma caixa de isopor cheia de fotografias de Poções. Fomos vendo uma por uma e relembrando as histórias. Os olhos de Zé brilharam quando viu uma foto ao lado do pai Giuseppe Palladino na camionete de Arnóbio da Cachaça, estacionada no Posto de Miguel Labanca. O pai vestia um impecável blazer e bigode aparado. 


Eu tinha hora marcada para voltar e não pude reviver as histórias que cada foto mostrava.

Foi muito boa essa convivência rápida. Serviu para lembrar que os amigos são aqueles que nós carregamos na lembrança e que precisamos de uma pequena presença para perpetuarmos o nosso passado. Eles esperam por nós.


Obrigado a Zé, Pipinho e as doces princesas Alice e Ana pelas presenças. .

terça-feira, 22 de março de 2011

Em Poções, 19 horas...

A cidade cresceu bastante. Mesmo assim, a comparação do movimento da praça com os anos passados é exatamente igual – tem horas que não se vê “viva alma” transitando a pé. Excluem-se as motocicletas, que consigo enxergar pelo menos cinco delas transitando por vez.

Tem tardes de domingo que a praça toma ares de cidade fantasma. Eu costumo dizer que todos fugiram porque explodiram uma bomba atômica. Isso é sinal de cidade pacata, pensam os outros. Fidélis do Arroz, mais radical, já dizia: Cidade que tem alto-falantes e quebra-molas não serve mais para morar. Também, não é assim – se acostuma.

Sentado na balaustrada de casa, fugindo das muriçocas que infestam a cidade às 18 horas, vejo que o movimento é o mesmo de sempre. O sobe e desce das pessoas com o pão na mão, o movimento começando na academia de Rosita Palladino, as lojas fechando as portas e alguém ainda abastecendo no posto de Miguel. Vez ou outra passa um amigo e cumprimenta com um toque de buzina, mas não dá para reconhecer porque a película é muito escura e respondo com um aceno de mão.

No mais, ainda quando existia o bar de Alex, dava para tomar uma e trocar meia hora de prosa com Paulin de Doca. No carnaval, Paulin disse que já havia jogado no bicho e apostado nas duas vacas (00 99), que é o número da placa do meu carro e garante que, quando ganhar, vai me dar uma vaca, pelo menos. Agora, ele faz dupla com Juzinho Nápoli. Conhecem e contam muitas das histórias da Rua da Itália, confirmadas por Ito Pezão.

O "zumbido" dos motores das motocicletas é constante e parece que circulam dentro de casa (por mais que não queiramos, o silêncio de Conquista é mais paradisíaco para dormir que em Poções. Lá não tem muriçoca e nem motocicletas circulando o tempo todo).

No vazio do passado, o rádio trazia muito mais sensação e companhia. Sentado na varanda, eu observava o mesmo movimento e os cavalos eram as motocicletas. Mesmo à noite, tinha vezes que passava um bêbado montado e parecia que ia despencar da sela. O cavalo sabia o caminho de casa.

Ouvia as paradas de sucessos, comum em qualquer estação de rádio. As músicas eram outras que não cabem nos potentes sons dos carros de hoje. “Férias na Índia” e “A Namorada Que Sonhei”, de Nilton César, eram as mais tocadas, preferidas e pedidas por cartas. Na radiola de Paulin de Doca, a gente quase furava o disco, como se dizia quando tocava uma música sem parar. A radiolinha acolchoada, com a tampa em duas partes, mista de pilha e luz, vendida na Insinuante, era o sucesso. E o sucesso? todos nós sabíamos a letra:

“Receba as flores que te dou. Em cada flor um beijo meu, são flores lindas que te dou, rosas vermelhas com amor, amor que por você nasceu...”

Naquele tempo, vendo o sobe e desce das pessoas, sintonizava meu radinho Semp, portátil, e ouvia a Ave Maria, as paradas e as resenhas esportivas. Rolava o dial da direita para esquerda com o ponteiro guiado por um cordão, até a hora em que as estações anunciavam A Voz do Brasil ao som de “O Guarani”, de Carlos Gomes:

“Em Brasília, dezenove horas...”

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terça-feira, 15 de março de 2011

O Sílvio Santos de Poções (Altamirando Alves)

Tenho certeza que Poções sempre foi repleta de historiadores e contadores de casos. Se não escrevem, pelo menos soltam as histórias. São tantas que em um simples final de semana a gente escuta e repassa o filme da vida na memória.

Dessa vez, fiquei o Carnaval inteiro refugiado em Morrinhos, reabastecendo as baterias com a bonita vista da barragem que se tem no alto da varanda da Fazenda Madeira.

Passou por lá um cidadão que tem mais nome de mulher que de homem – Altamirando, que é conhecido como Valter Gabriela, ou simplesmente Gabriela ou Jeans Gabriela. O freguês é quem escolhe e tem até quem o chame de Seu Gabriela. Eu tenho certeza que após tanta história, poderia ser chamado de "Sílvio Santos poçõense". As conversas foram longas e cada vez que eu abria a boca para contar uma história, ele contava duas e dizia: “Anote essa daí para seu blog”.
Gabriela é uma referência no comércio de Poções. Foi ganhar a vida em São Paulo e após juntar as economias, gastou tudo com a morte da mãe. Retomou o trabalho e correu atrás de novas possibilidades de levantar o seu comércio.

Me contou que uma vez chegou para o seu ex-patrão e disse que queria trocar um fusca por centenas de calças jeans. Trouxe tudo e veio vender na nossa cidade. Com pouco tempo, estava lá para comprar outro lote maior ainda, dessa vez com crédito.

Passeou por diversos pontos comerciais até receber o convite de Valtesson, o Gordo da Farmácia, para se associarem e comprarem o prédio onde hoje funciona a sua loja. Sem um real no bolso, confiando no amigo, partiram para Vitória da Conquista para tratarem do assunto. Convenceu a vendedora que deveria pagar o valor integral somente alguns meses depois do acerto, sem necessidade de parcelamento. O amigo disse: "Toma logo a minha parte e o resto é com você". Trabalhou duro e antes do prazo já havia liquidado a compra.

É certo que ele não trabalhou tanto assim sozinho. Dona Rosangela sempre foi o seu braço direito e carregou o negócio junto com ele, transformando na beleza de loja que é a Jeans Gabriela, na praça principal de Poções.

É um admirador de caminhadas e me convidou para andar na minha próxima ida a Poções. Eu já aceitei - não para perder a barriga, mas para ouvir as suas histórias.




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