quinta-feira, 11 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
Uma Poções violenta
Minha
mãe e meu pai tinham uma mania de trancar as portas da casa em Poções. Diziam
que a cidade estava cheia de ladrões e um deles poderia entrar. Tinham razão e
eu achava que era exagero ou coisa de gente velha.
Abro
os sites de Poções e leio, em menos de meia hora, a relação de notícias que
apavora pela quantidade e pelos níveis dos fatos, sem contar os acidentes nas
estradas vizinhas:
- Índio homicida é preso pela polícia;
- Polícia prende homem envolvido com tráfico de
entorpecentes;
- Posto de gasolina é assaltado pela terceira
vez;
- Polícia recupera carro roubado;
- Homem atropelado por ônibus escolar;
- Homem morre em troca de tiros;
- Homens são presos após roubarem moto;
- Cortaram Turino na bala;
- Mais um homicídio em Poções;
- Homem é preso após esfaquear a sobrinha.
A
antiga delegacia do Beco dos Artistas não caberia tantas ocorrências. O Tenente
Celino, nosso grande delegado do passado, teria que ter um reforço extra, pois
não daria conta sozinho de assumir tantos problemas.
A
nossa antiga cadeia não comportaria tanta gente. Os policiais da época não
poderiam dormir tranquilos diante dessas ocorrências. O guarda Erotildes não
poderia cochilar no frio da praça. Imagine, então, se a luz fosse desligada a
meia noite?
Assassinato
em Poções era coisa de um ou dois, por ano, e olhe lá. Não é mais a cidade pequena que estávamos acostumados a ver e viver em paz. A
violência toma números assustadores, bem que não seja um privilégio da nossa cidade.
Cada vez mais me assusta a futilidade das ocorrências. Falta educação doméstica
e políticas de incentivo à juventude e combate efetivo às drogas. Falta
a família. Falta o estado agir mais.
Que tenhamos sucesso com a nova delegada…
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sexta-feira, 5 de abril de 2013
Campeões da Fonte Nova
Passei
a morar em Salvador no ano de 1972, na época em que o futebol baiano brilhava
muito mais que esses babas de hoje.
Recentemente,
reencontrei jogadores daquela época. Elizeu Godoy, um deles, craque de bola do
time do Bahia. Elegante meio campista que havia jogado no Santos
e no Anderlecht, da Bélgica. Hoje, comentarista da Rádio Metrópole e absoluto no
seu programa de domingo. Sempre que me encontro com ele cobro para que dê uma
força para o Poções voltar ao campeonato.
André
Catimba também é outra sumidade do futebol baiano, que jogou no Vitória entre
1972 e 1975 e depois foi jogar no Grêmio. Até cheguei a bater uns babas no
Canela junto com ele, quando ainda não existia o prédio da IBM na Rua Araújo
Pinho, onde morava. Trabalha com meu amigo Marcelo Garrido e sempre o encontro
na Technico, empresa onde trabalho.
Voltando
do desfile do Dois de Julho, parei no bar de Tirson, no Forte de São Pedro, e não
perdi a chance de fazer uma fotografia e reforçar a admiração pelo craque que foi. Grande ponta direita do Bahia
nos anos 70.
Espero que a nova Fonte Nova seja o motivo maior para que o futebol baiano se espelhe nesses craques do passado e resgate as tardes/noites espetaculares, proporcionadas pela competência e profissionalismo dos meus amigos acima, autênticos representantes do futebol baiano.
Fonte
Nova sempre lotada e grandes BaVis. Nomes de jogadores que até hoje são
respeitados pelos torcedores de Bahia e Vitória, mesmo tendo jogado nos times rivais.
Se o torcedor do Vasco respeita Zico e o flamenguista respeita Dinamite, aqui
eu respeito nomes como Osni, Roberto Rebouças, Beijoca, Onça, Baiaco, Mário
Sérgio e tantos outros que brilharam no futebol baiano, não importando a origem
e nem onde fizeram sucesso. Ganhamos todos nós com o futebol que eles jogaram na
Fonte Nova.
| O meio campista Elizeu Godoy |
| O centro avante André Catimba |
| O ponta direita Tirson |
Espero que a nova Fonte Nova seja o motivo maior para que o futebol baiano se espelhe nesses craques do passado e resgate as tardes/noites espetaculares, proporcionadas pela competência e profissionalismo dos meus amigos acima, autênticos representantes do futebol baiano.
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Continua tudo igual...
No
dia seguinte à conquista do bi-campeonato do Bahia de 1988, o jornal A TARDE,
coluna Espaço do Leitor, publicou uma carta escrita por mim, falando dos problemas
da Estação Rodoviária de Salvador. Falava da falta de carrinhos, dos
carregadores, da fila de taxi, inclusive a charge do jornal mostrava alguém com
um papel na mão dizendo “respirou, pagou”.
Na
quarta feira santa, fui à Estação Rodoviária buscar meu cunhado que estava
chegando de Guanambi. Pelo que ele me contou, os problemas da empresa Novo
Horizonte continuavam os mesmos. Na rodoviária, pude perceber a falta de
carrinhos e os carregadores jogando soltos. A fila de taxi era a mesma e o estacionamento
sempre caótico e caro.
Pelo
que pude ver e associar à data de 1988, posso afirmar que os hábitos da rodoviária
não mudaram (e não mudará) bem como o Bahia, que não será campeão tão cedo.
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quarta-feira, 3 de abril de 2013
Poçoense Adilson Santos faz exposição em Salvador
A CAIXA Cultural Salvador lança a exposição "O Tempo e eu" - 47 anos de pintura, do renomado artista poçoense Adilson Santos.
Acontecerá no dia 07 de maio, podendo ser visitada até o dia 14 de julho de 2013.
Vale a pena conferir os belos trabalhos do artista conterrâneo.
Acontecerá no dia 07 de maio, podendo ser visitada até o dia 14 de julho de 2013.
Vale a pena conferir os belos trabalhos do artista conterrâneo.
domingo, 31 de março de 2013
Acervo fotográfico Nilza Batista Fagundes
Publicado por www.adelsonmeira.com.br
POÇÕES: DINHO OLIVEIRA REABRE ACERVO FOTOGRÁFICO NILZA BATISTA FAGUNDES
A Prefeitura Municipal de Poções, através da
Coordenadoria de Cultura, reabriu recentemente, o Acervo Fotográfico Nilza
Batista Fagundes, projeto idealizado pelo empresário José Onildo e organizado
pelo coordenador de cultura Dinho Oliveira. “O objetivo do acervo é
desenvolver a preservação e divulgação da memória histórica, política, social e
cultural do município. O local constitui de acervos documentais, bibliográficos
e fotográficos relativos a Poções e o seu povo”, disse o coordenador de
cultura, Dinho Oliveira, durante contato com a reportagem da ASCOM.
O Acervo
Nilza Batista Fagundes fica localizado na Rua da Itália, s/n, centro de Poções.
Faça uma visita e valorize a história da Terra do Divino.
Nota do blog
Parabéns por tão grande e valiosa iniciativa. Parabéns a José Onildo pela perseverança do projeto e a Dinho pelo reconhecimento e priorização do importante acervo.
Poções agradece.
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quinta-feira, 28 de março de 2013
O verde do Opala do Pino
Quando
os meus filhos eram crianças e a gente viajava para Poções, eu fazia a
brincadeira de contar animais que apareciam nos dois lados da pista. Isso os distraia
e a viagem parecia ser mais rápida. Como cada lado tinha um dono, eu escolhia a
frente como sendo o meu. Até dava pra contar uns animais na pista, soltos –
cada animal era um ponto.
Mas, eu escolhia encontrar algo mais
interessante que os animais – um Opala verde.
Se
cruzasse um na pista eu tava feito – fazia muitos pontos. Possibilidade de
encontrar um, apenas próximo a cidade de Santo Estevão, onde a população de
Opalas fora-de-linha dominava. Mas, porque o Opala verde?
O que
fazia toda a diferença e tornava especial era a história de Pino. O Opala verde
foi uma troca de um fusca, que Pino tinha comprado de Gervásio Moura, o de
placa VS-0048. Falta, agora, explicar quem é Pino – ele é o meu primo Giuseppe Sola,
o filho de Giovanni Sola, irmão de Bruno Sola, e contar a história do verde do
Opala.
Essa
história, no original, é de Gilmar Magalhães, o Gilmar de Maneca. Como eu já
disse antes, o maior conhecedor das histórias de Giovanni.
Meu
tio era muito “bairrista” com relação ao fusca do filho Pino. Elogiava o carro
porque foi desenvolvido para a guerra, não precisava de água e resistente,
motor atrás…
Eis
que chega o dia de trocar o fusca pelo Opala 4 portas que pertencia ao Sr. Almir
Protásio, sogro de Pino. Eu já havia viajado de carona uma vez para Poções com
o Sr. Almir. Chamava a atenção quando ultrapassávamos outro veículo. Realmente,
o Opala era muito bonito, mas era um verde cana atraente.
![]() |
| Opala verde (foto: site Mercado Livre) |
- Mas, seu Giovanni, o senhor falava tão bem
do fusca, perguntou Gilmar.
- Olha meu caro, aquele lá era um “cazzo de
una casseta” (uma merda de caixa). Se bate de frente com um caminhão morre todo
mundo. Agora, o Opala, se bater, demora de chegar no motorista, tem um motor quase
do tamanho do fusca, na frente. Isso é que é um carro.
- É seu Giovanni, tá certo! E o senhor gostou
da cor?
- Olha meu caro Gilmar, o verde da tua calça
é bonito, mas o verde do carro do Pino é muito mais bonito!
Esse
era tio Giovanni, meu padrinho de crisma.
Boa
Páscoa a todos.
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quarta-feira, 27 de março de 2013
Joaquim, seu fim vai ser morrer!!!
Os
mais antigos conhecem bem a frase e o autor.
O
nosso Padre Honorato andava perambulando pelas ruas de Poções caçando uma boca
livre ou fazendo os seus comentários “políticos” e nem sempre “bem religiosos”.
Ele tratava as pessoas por Joaquim e, quando era mulher, por Joaquina.
Cultivava
as unhas das mãos compridas e na hora de falar com as pessoas dava uns
beliscões e dizia: - Joaquim, seu fim vai ser morrer!!!
Certa
feita, Michele, meu irmão, levou um colega da faculdade de Física para passear
em Poções. O colega se chamava Joaquim Mendes, que depois se tornou reitor da
Uneb, aqui em Salvador. ´
Os
dois passavam na praça principal e avistaram Honorato. Michele quis impressionar
o amigo e falou com Joaquim: - Vou te apresentar o padre. Ele é surdo, mas tem
a capacidade de adivinhar o nome das pessoas – ele não erra! O encontro se deu
no passeio perto da Farmácia Santana, de Fábio.
-
Padre, esse é um amigo meu de Salvador! Falou alto para que o padre escutasse.
Depois
de uns beliscões, o padre soltou aquela voz grave e de sílabas arrastadas, em
meio a um sorriso, falou:
- Oh,
Joaquimmmm seu fim vai ser morrer!!!
Por
uns bons momentos, nosso amigo Joaquim quis saber a técnica do velho padre.
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domingo, 24 de março de 2013
Baú de Pepponi - 1
Pepponi (meu irmão) resolveu abrir o baú da
história de Poções. Me mandou algumas fotos e pego carona nelas para contar lembranças.
Parte deles morou em uma casa que
foi logo chamada de “república”, próximo ao Posto de Puericultura.
Muda-se a imagem da cidade quando
ela se desenvolve, claro! Mas, ela não muda simplesmente, sem um motivo. Quando
o Banco do Brasil abriu as suas portas (era na ligação das praças Raimundo
Pereira Magalhães e a Praça Fernando Costa, a do Coreto), Poções passou por
algumas reformas econômicas, comerciais e sociais, penso eu.
Imagine, naquela época, a
abertura de uma segunda agência bancária – havia a agência do Banco da Bahia, somente. Significava, portanto, desenvolvimento para
Poções e região O comércio com
outras possibilidades de desenvolvimento, de geração de empregos. O prédio foi
todo reformado, mobiliado e aberto ao público numa grande expectativa.
Aí, vem um momento que alguém vai
comentar e acertar o instante cronológico porque meu “HD” interno de memória
não dá pra tanto. As fotos ajudam, mas não ajudam o acesso aos neurônios, um
tanto destruído.
Se eu disser que Amaro Elon foi o
primeiro gerente, não posso confirmar. Tenho certeza que Fred era filho
dele - não confirmo se Alice era a filha ou a esposa. Eu sei que Fernando Sarno
vai me dizer. Fernando Marçal, remanescente dessa época, também vai estar
antenado no blog e me confirmar ou corrigir as informações a seguir. Quem me
ajudar na construção dessa história vai contribuir bastante. Inclusive, mande
datas e nomes completos.
Poções não tinha pessoal formado
para trabalhar no Banco ainda. Era necessário trazer de fora, transferidos de
outras agências. Os da casa eram Catão, o irmão Fulgêncio (Lô), Fernando Sarno,
Conceição filha do Sr. Aderbal, dúvidas quanto a Jorge Boneco, irmão de
Lourinho, filho de Lourival.
Lembro bem de algumas pessoas que foram para Poções: Gervásio Moura, Mirandinha, Toninho Gaso, Ivan Menechini, Fernando
Marçal, Paulinho, Piolho (um gaso alto) e Leonardo. Alguns do interior do
Espírito Santo, mais precisamente de Mimoso do Sul, no extremo sul daquele
estado, onde as influências com o Rio de Janeiro são maiores. Lá em casa, o macarrão era certo no domingo.
![]() |
| Ivan Menechini, Mirandinha, Lulu e Rosilma (então namorada de Peponni) durante almoço dominical |
Gervásio morava na casa que é de Dahil, mas a família era de Jequié – irmão de Heloína, casada com Fernando
Sarno (filho de Luis Sarno). Tinha um fusca branco de placa VS-0048, que usava
para viajar fazendo as inspeções rurais, depois vendido a Pinuccio filho de Giovanni Sola (Gilmar Magalhães conta a história do fusca do meu Pino – outra hora, eu
escrevo). Foi Gervásio quem me deu a notícia que havia passado no vestibular da
Escola Técnica, aqui em Salvador, pois escutou nos 740 AM da Rádio Sociedade.
Mirandinha e Toninho Gaso eram
bons de bola. Reforçaram o Atlético e o Bahia de Poções. Mirandinha casou com
uma moça de Poções.
Paulinho, Ivan e Fernando eram os
mais chegados lá em casa, fruto de uma amizade com Pepone. Leonardo tocava
piano e fazia shows especiais nas poucas casas que haviam pianos. O Piolho que eu falo eu não lembro o nome dele.
Andava rodando a varanda lá de casa querendo namorar a minha irmã.
Então, quando falo que Poções
teve as suas reformas com essa turma, a mais importante foi a social e cultural.
Pessoas de boa índole e que permanecem ligadas de alguma forma, principalmente
pelos casamentos e filhos gerados, advindos dessa boa convivência.
![]() |
| Brincadeira entre Ivan Menechini, Fernando Marçal e Pepponi na "república" |
Uma figura gente boa dessa turma
se chamava Ribamar, de baixa estatura. Tinha a função de caixa e o apelido de
Castelo Branco (presidente da república). Meio fechado, ele não participava das
farras da galera. Um dia, depois de um bom tempo trabalhando junto com um
colega, foi sondado: - Castelo, você tem trocado aí? Ele respondeu: - Nunca te dei
intimidade para você me chamar de Castelo, meu nome é Ribamar!
Fico no aguardo dos detalhes. Pepponi já fez a parte dele.
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sexta-feira, 22 de março de 2013
Fotos inéditas - Festa no Clube Social de Planalto
Pepone manda essa foto com uma turma da pesada. Ficava todo mundo tomando uma, esperando o "jazz" tocar e partir para o ataque. Eram os caçadores de festas.
Quem se habilita a dizer os nomes deles? Vou ajudar: o terceiro da direita para a esquerda é Jorge de Duca (quanto cabelo, ein Bufão!!!).
Comentários de Jorge
Lulu, essa foto foi em uma festa no clube de Planalto (peri-peri peixeira),ir em festa naquela cidade era o maior perigo pela fama da "peixeira". Acompanhado pelo saudoso Zé Manoel, fiscal do Banco do Brasil, não tinha tanto perigo.
A tropa de choque: Vicentão, Carlinhos Carioca( fundo), Newtão do Banco do Brasil, eu, Ovídio que trabalha com Peres meu ex- concunnhado, Eraldão e Zé Manoel (centro).
Grandes recordações!!!!!
Quem se habilita a dizer os nomes deles? Vou ajudar: o terceiro da direita para a esquerda é Jorge de Duca (quanto cabelo, ein Bufão!!!).
| Galera dos anos 60 |
Lulu, essa foto foi em uma festa no clube de Planalto (peri-peri peixeira),ir em festa naquela cidade era o maior perigo pela fama da "peixeira". Acompanhado pelo saudoso Zé Manoel, fiscal do Banco do Brasil, não tinha tanto perigo.
A tropa de choque: Vicentão, Carlinhos Carioca( fundo), Newtão do Banco do Brasil, eu, Ovídio que trabalha com Peres meu ex- concunnhado, Eraldão e Zé Manoel (centro).
Grandes recordações!!!!!
quinta-feira, 21 de março de 2013
Você é irmão de Edgar?
Mais uma coincidência
dentro de taxi em São Paulo. Primeiro foi Agripino, agora Umberto, o Betinho.
Nas duas, estava meu colega de trabalho Robson Bispo, para provar a veracidade
dos fatos.
Hoje, pela manhã, caiam
alguns pingos de chuva e tomamos um taxi de um hotel para o lugar onde teríamos
uma reunião. Mais de uma quadra de distância entre os dois lugares - corrida pequena.
Tem uma pessoa em
Salvador que é o meu cabeleireiro, faz serviços de taxi e, quando me aperto, leva o
meu sogro ao médico, ou quando estou sem carro é ele quem quebra os meus galhos. Se
chama Edgar. Mora no Jardim Caiçara, em Brotas. Na verdade, um conversador de boca
cheia – pergunta sobre tudo e me conta um monte de histórias, inclusive da
família dele.
Voltando a história de
hoje, no taxi, Robson perguntou ao motorista de onde ele era, já prevendo a
possibilidade de ser alguém de Poções (leia a história de Agripino, da Terra do Divino, aqui no blog). O rapaz disse que era de Salvador e já nos sentimos à
vontade para adiantar mais conversas.
Nos perguntou se Salvador
estava esburacada e disse que, de dois em dois anos, quando vai lá, cobram
pedágio para passar nas ruas porque vai de carro com placa de fora. Eu
perguntei logo pela sua família e onde morava: – Somos cinco irmãos e tem um apenas
em Salvador, que não quis ficar em São Paulo, faz serviço de taxi também e
mora em Brotas!
- Meus pais tem uma
terrinha em Itaberaba e também sempre dou um pulinho por lá, completou.
Eu estava no banco de
trás, lendo umas mensagens e fiz conta com as histórias de Edgar. O cara tem um
irmão em Salvador, tem taxi, todos moram em São Paulo e os pais tem uma
terrinha em Itaberaba. Eu já conhecia essa sequencia de história. Logo levantei a cabeça e
disparei a pergunta.
- Por acaso você é irmão
de Edgar?
A reação foi imediata. Assustado, olhou para trás e os dois olhos pareciam mais faróis de trator de
pneu. Vi logo que as feições eram parecidíssimas com as de Edgar, até o topete
do cabelo. Umberto se surpreendeu com a pergunta e ficou mudo, só sorria. Robson se divertia com a
resposta e impressionado pela rapidez das colocações.
De imediato, liguei para
Edgar e perguntei se ele conhecia algum motorista de taxi que pudesse me
indicar aqui em São Paulo: - Claro, tenho um irmão que se chama Betinho.
Trabalha aí. Tu tá precisando?
- Pera aí, que eu vou
passar o telefone para uma pessoa aqui anotar, disse. Passei o telefone para Betinho e
ele foi logo dizendo: - Mano velho, veja só a coincidência, o cara te conhece,
como esse mundo é pequeno!
Ai em Salvador, o susto
foi maior. Edgar estava todo emocionado e me fez um pedido:
- Dê uns conselhos aí,
que de vez em quando ele apronta umas!
- Vai ficar pra próxima
vez, pois a corrida chegou no seu destino, respondi.
Mais uma vez a prova que
esse mundo é pequeno. Quando voltar, vou pegar o taxi de Betinho para ele me
contar as histórias de Edgar.
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quarta-feira, 20 de março de 2013
Peso pena
Depois que postei o
pedido de ajuda do Gordo do Pastel fui me pesar. Tem uma dessas balancinhas
caseiras aqui no hotel que estou hospedado em São Paulo. Tomei um susto – no lugar
do ponteiro indicar os 96 quilos, mostrou apenas 66.
Lógico que está quebrada.
30 quilos a menos do dia para a noite não tem sentido. Mas, eu estou com um
excesso de peso se pensar que o solado do sapato descolou enquanto eu andava na
tarde de hoje.
A lembrança foi logo
para os tempos que não existiam as balanças nas farmácias, só as balanças dos armazéns de café e mamona, em Poções. Entre um saco e
outro, a gente se pesava nos armazéns dos Schettini ou no de Emílio Sarno. A
balança da loja de Américo Libonati foi depois, mas aquela era mais comercial e
usada para ferragem de construção. Precisava somar os valores dos pesos que
eram colocados no suporte dianteiro para saber o quanto estávamos pesando.
E ainda tem gente que
prefere os tempos antigos… ou prefere não se pesar.
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Gordo do Pastel pede ajuda
segunda-feira, 18 de março de 2013
II Mostra Cinema Poções - Agradecimentos
Por Fábio Agra
(do Cineclube Tela em Transe - Coordenador da Mostra)
(do Cineclube Tela em Transe - Coordenador da Mostra)
A II Mostra Cinema Poções – Homenagem a Geraldo
Sarno, que aconteceu entre os dias 15 e 17 de março, trouxe para aqueles que
gostam de cinema e que o enxergam como a arte que pode abrir caminhos para que
se discuta a sociedade e seus valores, suas políticas, as incoerências da vida,
etc. reflexões e debates acerca do sertão nordestino, sobre a vida de Geraldo
Sarno, sobre uma Poções que ficou na memória de quem viveu a geração dos anos
1950/1960, época em que intelectuais, poetas e cineastas despontaram da pequena
cidade do interior baiano. Durante esses três dias, esta memória pôde se tornar
coletiva e compartilhada com o público que compareceu ao evento.
| Geraldo Sarno durante a II Mostra (Foto: Lulu Sangiovanni) |
Por isso o
Cineclube Tela em Transe só tem a agradecer a todos que compareceram e apoiaram
a II Mostra Cinema Poções. Agradecemos a Prefeitura Municipal de Poções, o
Departamento de Cultura, a APLB Sindicato, o Janela Indiscreta Cine-Vídeo/Uesb,
a Liberdade FM e a Câmara de Vereadores; a todos os meios de comunicação que
fizeram a divulgação - sites, blogs, rádios e jornais. Um agradecimento
especial a TV Sudoeste e a TV Uesb. Nossos agradecimentos vão para algumas
pessoas que também foram fundamentais: a Carlos Rizério, que criou o belíssimo
cartaz da mostra e foi um parceiro durante toda a preparação até o encerramento;
a Lorena, pela criação do folder do evento; aos amigos Gildásio Júnior e Cássia
Dias que contribuíram durante os dias que antecederam a mostra e que com
certeza enviaram bons fluidos; a Carlos Ripe, sempre disposto a ajudar com a
divulgação, a Lulu Sangiovanni, que mesmo à distância sempre foi um grande
incentivador. Nossos agradecimentos a Jânio Rocha, que teve grande contribuição
para a realização do evento; a Zezel Leite pelo apoio e pelo festivo almoço de
domingo; a Guimarães, que também recebeu a devida homenagem pela pessoa que é e
por ser um verdadeiro amante do cinema; ao professor Sérgio, que nos cedeu o
projetor de 16 mm para ornamentar o local. Temos que manifestar nossa gratidão
a Fátima Fróes, que veio à Mostra representando o secretário de Cultura do
Estado da Bahia; à equipe que esteve em Poções para gravar o documentário sobre
Geraldo - Glauber Lacerda, Rogério Oliveira e Rayssa; a Filarmônica 26 de Junho
e a Dinho Oliveira, que deram um toque especial ao evento com boa música. Por
fim, nossos agradecimentos ao público, que é o grande motor que nos dar força
para realizar um evento como a Mostra Cinema Poções, a toda equipe do Cineclube
Tela em Transe, desde os que iniciaram o projeto em 2008 até os que se juntaram
recentemente, e a Geraldo Sarno, que foi muito solícito e nos trouxe muito
conhecimento. Perdoe-nos se faltou algum nome.
Nota do Blog
Esqueceu um nome e te lembro: Fábio Agra. A cultura de Poções te agradece. Parabéns.
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domingo, 17 de março de 2013
Ótimo dia para nascer
Por Ricardo Sangiovanni
Transcrita do www.ilpurgatorio.wordpress.com
Chovia, mas chovia muito, no dia em que cheguei a este mundo. Chovia tanto que chega derrubou o muro de pedra do Hospital Português, onde nasci. Chovia e era apenas 17 de março, nenhum dia importante, digno de se escrever por extenso. Não era bem o que se pode chamar um Bom Dia Para Nascer, como disse de seu Primeiro de Maio o aniversariante Otto Lara Resende numa crônica de 1991.
Mas pronto, me enxergo, não sou ninguém para interessar a vocês contando do dia em que nasci. Sou pago para escrever a crônica e basta; portanto lá vai.
Começo pelo domingo passado, quando recebemos a visita de meus pais aqui em casa. Em troca de um bom pedaço de pão caseiro, deixaram-me sobre a mesa uma pequena relíquia, que me faria companhia durante essa semana que passou: uma dezena ou pouco mais de páginas em encadernação caseira intituladas “Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”.
Trata-se da transcrição de um brevíssimo diário redigido à mão por minha tia Annina Sarno, irmã de meu avô Franceschino, italianos os dois. Falar de tia Annina na data de hoje é aliás oportuno, por ter sido ela afinal personagem determinante no concurso de fatos que redundaria nessa minha modesta existência: conta-se que foi ela a grande responsável por convencer meu avô a mudar-se da Itália para o Brasil, no início dos anos 50 – fato ao qual devo a vida, e vocês, a infelicidade de estar em frente à tela lendo este bolodório em pleno domingo.
Recordo-me pouco de tia Annina – ela faleceu quando eu tinha coisa de seis anos – , mas há em minha memória um registro esparso de seu feitio alegre e sereno, fazendo-me sorrir n’algum quarto amarelo-penumbroso de piso amadeirado onde terá vivido ou se hospedado.
Bem melhor que minha memória é o tal diário, que registra idas e vindas, passeios, viagens, nascimentos, doenças, enterros e uma série de acontecimentos cotidianamente triviais que se passaram entre janeiro e maio de 1982 – quando ela já se aproximava dos 80 anos de idade e ainda faltavam dois anos para eu nascer.
A transcrição literal deixa entrever na grafia das palavras seja a raiz italiana jamais abandonada, seja o grato enraizamento na brasilidade. Anota que um “entregou a alma ao Creador”; que outros “vieram de avión”; e que houve também uma divertidíssima “reunião alegre no Plegram [play-ground, suponho]”. “Oje”, “tradizional”, “notizias”, “fesdanza” e mais muitas são palavrinhas que revelam dois idiomas imbricados, duas culturas docemente amalgamadas numa forma gentil de pessoa.
Boa italiana, tia Annina estava sempre atenta à comida: merendas e almoços e lanches e jantares estão sempre entre as marcas do dia, registrados geralmente antes de dormir no diário. “Fizemos ravioli”, “a pizza feita por Lina” e “os salgadinhos de Aurora” povoam sempre seus breves relatórios.
Boa brasileira, tia Annina adorava “prosar” e “lorotar”. “Lá encontramos minha gente de Poções stava Peixoto e Dolores prosamos lembrando os nossos tempos”. “E com Du e Noia lorotamos bastante.” E, claro, não perdia uma novelinha. “As novelas também enchem o tempo”; “À noite a novela e a reza do meu terzo.”
Boa serva do Senhor, tia Annina fazia de um tudo para não perder a missa, desfrutando sempre do passeio até as igrejas. Rezava muito o terzo. E em época de semana santa então, não tinha negociação: “Pietro comprou um citio perto de Lea, todos me chamaram para ir passar a S. Santa, mas não me convem, tenho que ficar aqui pois é tempo de rezar por todos eles que vão para fora (certo?)”
Certo, tia. Tia Annina não raro encerrava o registro do dia com uma interrogação graciosa, como dialogasse consigo mesma, ou com “Deos”, ou com o “meo querido Corinto”, seu marido, então já falecido – jamais saberemos. “Reclamei a Marilene que está sempre imposível quebra minhas cosias de estimação, oje arrancou o dourado do bibelô que Noemia comprou em Manaos, isto me enerva, mas tudo passa. Certo?” Te cuida, Marilene.
Encanta no diário de tia Annina o olhar prosaico cheio de resignada delicadeza, de fino bom humor fino e certo sentido divino para um cotidiano aparentemente repetitivo, sem maior finalidade. Mesmo nas situações mais aviltantes do dia-a-dia, havia uma reflexão de fundo, um agradecimento, um aprendizado. “Depois da missa fui até o I.N.P.S. da Vitória para conseguir a mudanza de pagamento para o banco aqui no C. Grande Economico para não ir a rua Chile receber uma ninharia, mas não deo certo, tinha que fazer um depósito de 10 mil cr. Agradeço pois não tinha juro nenhum era só abrir a conta para a transferência, tá bom?” Uma prova viva de que não há tédio nem falta sentido na vida vivida no registro do sagrado – seja ele (aí já sou eu quem digo) religioso ou não.
Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o quanto ela era atenta ao tempo que fazia do lado de fora da janela. Conectada com o tempo da natureza, não deixava passar despercebido se fazia sol ou, principalmente, chuva – ou melhor, “chiuva”. “Amanheceo chovendo”; “o tempo continua chuvoso”; “Chiuva durante a missa”…. há chuva por todo lado.
Dia 19 de abril, enquanto as chuvas não davam trégua à Cidade da Bahia, ela refletiu: “As chuvas continuam, foi obrigada a sospender a missa, o pior e que os pobres com as casinhas de barro e até minhas casas que não são de barro mas a chiuva foi continuando e entrou nas casas com prejuizo e muito susto, e alguma morte, o que acontece que nunca ficamos preparados para a chiuva e para a morte, sempre quasi nos pega de emproviso.”
Porém toda tragédia, bem sabia tia Annina, não era culpa da chuva de Deus, senão das casas e muros dos homens. “A chiuva foi implacavel na chegada no predio me molhei toda. Azar, pois a chiuva é óttima.”
É, tia, pensando bem, aquele dia comum e chuvoso foi um ótimo dia para nascer.
Notas do Blog:
“Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”
Uma extração das anotações do diário de Annina Sarno pela minha irmã Elisa Sangiovanni Lima, "neta" de coração da autora, compiladas para a lembrança dos 114 anos de Corinto Sarno, o grande responsável por todas as histórias que envolvem os Sangiovanni na nossa querida Poções.
Ricardo Sangiovanni é meu filho, jornalista, escreve aos domingos no www.ilpurgatorio.wordpress.com e, hoje, comemora com a gente o seu aniversário.
Transcrita do www.ilpurgatorio.wordpress.com
Chovia, mas chovia muito, no dia em que cheguei a este mundo. Chovia tanto que chega derrubou o muro de pedra do Hospital Português, onde nasci. Chovia e era apenas 17 de março, nenhum dia importante, digno de se escrever por extenso. Não era bem o que se pode chamar um Bom Dia Para Nascer, como disse de seu Primeiro de Maio o aniversariante Otto Lara Resende numa crônica de 1991.
Mas pronto, me enxergo, não sou ninguém para interessar a vocês contando do dia em que nasci. Sou pago para escrever a crônica e basta; portanto lá vai.
Começo pelo domingo passado, quando recebemos a visita de meus pais aqui em casa. Em troca de um bom pedaço de pão caseiro, deixaram-me sobre a mesa uma pequena relíquia, que me faria companhia durante essa semana que passou: uma dezena ou pouco mais de páginas em encadernação caseira intituladas “Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”.
Trata-se da transcrição de um brevíssimo diário redigido à mão por minha tia Annina Sarno, irmã de meu avô Franceschino, italianos os dois. Falar de tia Annina na data de hoje é aliás oportuno, por ter sido ela afinal personagem determinante no concurso de fatos que redundaria nessa minha modesta existência: conta-se que foi ela a grande responsável por convencer meu avô a mudar-se da Itália para o Brasil, no início dos anos 50 – fato ao qual devo a vida, e vocês, a infelicidade de estar em frente à tela lendo este bolodório em pleno domingo.
Recordo-me pouco de tia Annina – ela faleceu quando eu tinha coisa de seis anos – , mas há em minha memória um registro esparso de seu feitio alegre e sereno, fazendo-me sorrir n’algum quarto amarelo-penumbroso de piso amadeirado onde terá vivido ou se hospedado.
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| Primeiro aniversario de Ricardo, em 1985, no colo de Eduardo Sarno ao lado de Dona Annina (vestido branco) Foto: Arquivo Lulu Sangiovanni |
A transcrição literal deixa entrever na grafia das palavras seja a raiz italiana jamais abandonada, seja o grato enraizamento na brasilidade. Anota que um “entregou a alma ao Creador”; que outros “vieram de avión”; e que houve também uma divertidíssima “reunião alegre no Plegram [play-ground, suponho]”. “Oje”, “tradizional”, “notizias”, “fesdanza” e mais muitas são palavrinhas que revelam dois idiomas imbricados, duas culturas docemente amalgamadas numa forma gentil de pessoa.
Boa italiana, tia Annina estava sempre atenta à comida: merendas e almoços e lanches e jantares estão sempre entre as marcas do dia, registrados geralmente antes de dormir no diário. “Fizemos ravioli”, “a pizza feita por Lina” e “os salgadinhos de Aurora” povoam sempre seus breves relatórios.
Boa brasileira, tia Annina adorava “prosar” e “lorotar”. “Lá encontramos minha gente de Poções stava Peixoto e Dolores prosamos lembrando os nossos tempos”. “E com Du e Noia lorotamos bastante.” E, claro, não perdia uma novelinha. “As novelas também enchem o tempo”; “À noite a novela e a reza do meu terzo.”
Boa serva do Senhor, tia Annina fazia de um tudo para não perder a missa, desfrutando sempre do passeio até as igrejas. Rezava muito o terzo. E em época de semana santa então, não tinha negociação: “Pietro comprou um citio perto de Lea, todos me chamaram para ir passar a S. Santa, mas não me convem, tenho que ficar aqui pois é tempo de rezar por todos eles que vão para fora (certo?)”
Certo, tia. Tia Annina não raro encerrava o registro do dia com uma interrogação graciosa, como dialogasse consigo mesma, ou com “Deos”, ou com o “meo querido Corinto”, seu marido, então já falecido – jamais saberemos. “Reclamei a Marilene que está sempre imposível quebra minhas cosias de estimação, oje arrancou o dourado do bibelô que Noemia comprou em Manaos, isto me enerva, mas tudo passa. Certo?” Te cuida, Marilene.
Encanta no diário de tia Annina o olhar prosaico cheio de resignada delicadeza, de fino bom humor fino e certo sentido divino para um cotidiano aparentemente repetitivo, sem maior finalidade. Mesmo nas situações mais aviltantes do dia-a-dia, havia uma reflexão de fundo, um agradecimento, um aprendizado. “Depois da missa fui até o I.N.P.S. da Vitória para conseguir a mudanza de pagamento para o banco aqui no C. Grande Economico para não ir a rua Chile receber uma ninharia, mas não deo certo, tinha que fazer um depósito de 10 mil cr. Agradeço pois não tinha juro nenhum era só abrir a conta para a transferência, tá bom?” Uma prova viva de que não há tédio nem falta sentido na vida vivida no registro do sagrado – seja ele (aí já sou eu quem digo) religioso ou não.
Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o quanto ela era atenta ao tempo que fazia do lado de fora da janela. Conectada com o tempo da natureza, não deixava passar despercebido se fazia sol ou, principalmente, chuva – ou melhor, “chiuva”. “Amanheceo chovendo”; “o tempo continua chuvoso”; “Chiuva durante a missa”…. há chuva por todo lado.
Dia 19 de abril, enquanto as chuvas não davam trégua à Cidade da Bahia, ela refletiu: “As chuvas continuam, foi obrigada a sospender a missa, o pior e que os pobres com as casinhas de barro e até minhas casas que não são de barro mas a chiuva foi continuando e entrou nas casas com prejuizo e muito susto, e alguma morte, o que acontece que nunca ficamos preparados para a chiuva e para a morte, sempre quasi nos pega de emproviso.”
Porém toda tragédia, bem sabia tia Annina, não era culpa da chuva de Deus, senão das casas e muros dos homens. “A chiuva foi implacavel na chegada no predio me molhei toda. Azar, pois a chiuva é óttima.”
É, tia, pensando bem, aquele dia comum e chuvoso foi um ótimo dia para nascer.
Notas do Blog:
“Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”
Uma extração das anotações do diário de Annina Sarno pela minha irmã Elisa Sangiovanni Lima, "neta" de coração da autora, compiladas para a lembrança dos 114 anos de Corinto Sarno, o grande responsável por todas as histórias que envolvem os Sangiovanni na nossa querida Poções.
Ricardo Sangiovanni é meu filho, jornalista, escreve aos domingos no www.ilpurgatorio.wordpress.com e, hoje, comemora com a gente o seu aniversário.
sábado, 16 de março de 2013
Fidelis Geraldo Sarno - o cineasta
Por Eduardo Sarno
O nome é uma homenagem ao avô, Fedele Sarno, que nasceu e morreu em Mormanno, pequena cidade no sul da Itália, sem nunca ter vindo ao Brasil. Mas para cá vieram os sete filhos que moravam na Rua da Itália, em Poções, pequena cidade no sudoeste da Bahia.
O nome é uma homenagem ao avô, Fedele Sarno, que nasceu e morreu em Mormanno, pequena cidade no sul da Itália, sem nunca ter vindo ao Brasil. Mas para cá vieram os sete filhos que moravam na Rua da Itália, em Poções, pequena cidade no sudoeste da Bahia.
Ele era o Fidelis de Tio Valentim, para não confundir com o Fidelis de tio Vicente, o de tio Luis, o de tio Emilio, o de tio Camilo ou mesmo o José Fidelis de Corinto.
| Geraldo Sarno criança (Arquivo Eduardo Sarno) |
Ao lado da cultura local, interiorana, caatingueira e mateira, bem brasileira, Fidelis herdou também a convivência com a cultura italiana dos pais. Tio Valentim, calmo e afetuoso, também sócio da Casa Sarno, onde atendia no balcão, se relacionava de maneira alegre com a clientela local. Conta-se que quando o chapéu que vendia ficava folgado ele colocava a mão na nuca do freguês e fazia ficar “ajustado” !
A mãe, Giusepina, natural de Trecchina, muito ativa, de uma comunicação fácil e com uma filosofia de vida que ajudou a enfrentar e superar as dificuldades, que não eram poucas, naquele final da década de 30, quando veio à luz Fidelis Geraldo Sarno.
Naquela época, para dar a notícia do nascimento aos tios e amigos, costumava-se enviar um molecote dizendo:
“- A tia manda avisar que tem mais um criadinho às ordens !”
Foi em Poções que Fidelis teve os primeiros contatos com a cultura popular, e mais especificamente a religiosa, ao acompanhar de perto a festa do Divino Espírito Santo, padroeiro da cidade, tradição herdada dos portugueses que colonizaram a região, do clã de João Gonçalves da Costa.
Além de ver e acompanhar a chegada do Mastro da Bandeira, a Cavalhada, as barraquinhas e o leilão, ele também participava da procissão, onde balançava o turíbulo na frente do andor de São Roque, espargindo o incenso.
O andor era carregado pelo pai e pelos tios, e ornamentado com rosas, cravos e gérberas com a ajuda da mãe e tias.
Foi lá também que ele conheceu a projeção de filmes, no cinema de Brás Labanca. Quando o filme quebrava, Nicola Leto, o encarregado da projeção, já cortava uma tira a mais, que tinha endereço certo: as mãos de Fidelis, que depois projetava as imagens,no quarto dos fundos da sua casa, com caixas, lentes e lanternas, para os primos e meninos que pagavam alguns réis,
Participou de peças teatrais, no Cine-Teatro Santo Antonio, onde, trajando grossa capa e botas, compunha a cena do Grito do Ipiranga. Só teve uma fala, mas entre a platéia que aplaudia estava o Dr. Fernando Costa, prefeito da cidade.
O caminho natural de todos nós era ir estudar em Salvador, e Fidelis foi um dos que saíram mais cedo de Poções, mas ao mesmo tempo nunca saiu de lá. Esta contradição se explica quando sabemos que ele sempre teve Poções em sua mente, em seus sentimentos, em seu trabalho profissional.
A partir de então aquele menino começou a crescer, a ver, viver e virar o mundo.
Fidelis, segundo seu próprio depoimento, de início imaginava que cinema só poderia ser feito no glamour de Paris ou Hollywood, mas depois descobriu que na caatinga também ocorria drama e comédia, e que o povo tinha cantos e cores, amores e dores.
Foi ele quem me sugeriu fazer em Poções uma pesquisa sobre o Bumba Meu Boi e o Terno de Reis. Eu ia à noite para o final da Rua de Morrinhos, entrevistar e gravar as cantorias. Os participantes eram pessoas simples, cujo chefe era o guarda noturno da cidade, um negão alto e simpático ( naquela época não havia afro-descendentes), que fazia circular entre nós uma cachaça gostosa de Ibicuí, para esquentar o frio da madrugada.
Ali eu vi o que Fidelis me apontava: a cultura original, pura, nossa, entranhada no nosso povo.
Ele sempre foi para nós muito avançado, desde quando caçava rolinhas , para o lado de Cachoeirinha, já com espingarda de encher pelo cano, enquanto nós usávamos badoques. Até quando viajou para o exterior, e o povo comentava, com voz grave e baixa:
“O filho de seu Valentim foi visitar Cuba !”
Eu, tempos depois em Salvador, já estudando no Maristas e pensando em ir para o Seminário, encontro Fidelis na rua do Forte São Pedro e pergunto à queima roupa:
“- Mas Fidelis, você é comunista?”
Ele me explicou questões sociais e políticas básicas, mas na ocasião eu ainda não estava maduro para entender tudo aquilo.
Com o Golpe de 64 Fidelis foi para Poções, sob a proteção da família, refugiar-se na fazenda Caititu. Na perseguição, o Exército conseguiu, em plena praça, cercar Fidelis, com metralhadoras ameaçadoras !
Mas, não era este Fidelis, era o Fidélis de Tio Emilio, o conhecido Fidelão, alto, sorridente e bonachão !
Só anos depois em São Paulo, e depois no Rio de Janeiro, eu já na militância clandestina, na época da ditadura militar, visitava Fidelis e conversávamos longamente. Ele já com uma postura mais moderada e eu mais radical.
Com o tempo é que fui entendendo a grandeza e a importância do trabalho cultural que ele desenvolvia, desde o Centro Popular de Cultura – o CPC da UNE, até os filmes e documentários, que mostram de maneira clara e inequívoca um Brasil que precisa ser conhecido para poder ser transformado.
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| Geraldo Sarno (foto: Eduardo Sarno) |
Pessoas como Fidelis não ficam velhos. A maturidade significa que ele convive dentro de si com o menino, o rapaz, e o adulto. Tudo isso se soma e ele nunca perde a capacidade de criar, de se entusiasmar e de ensinar.
É este pois o nosso Fidelis para quem toda a nossa família tem carinho e orgulho e, merecidamente recebe a homenagem da sua terra, a quem ele sempre prestigiou.
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Imã de geladeira
Outro dia, recebi a
visita de um técnico italiano aqui em Salvador. Fui deixá-lo às seis da manhã
no aeroporto e perguntou onde poderia comprar algumas lembranças da Bahia, tipo
imã de geladeira. Fomos às lojinhas que ficam abertas 24 horas no próprio aeroporto.
Comprou um monte. Disse
que levaria para sua esposa e para toda a parentada. Um costume que adquiriu pelo fato
de viajar por várias cidades do mundo. Quando estive em Nápoles, ele me convidou para
tomar um café na sua casa. No meio de centenas de imãs de geladeiras, estavam
aqueles comprados em Salvador.
Estou
me lembrando desse fato por causa de um email que rolou no grupo interno de
amigos, aqui na internet: - a história de um cientista espanhol que recomendava
a retirada dos imãs das geladeiras. Dizia que, em ratos, existe a possibilidade
da maioria deles desenvolver um tipo de câncer por causa da alteração dos
alimentos devido ao campo magnético criado pelos imãs, alterando o
funcionamento da geladeira. Então, logo pensei: e os imãs que estão nas
borrachas da porta? Será que não é esse o imã que causa o câncer, já que muita
gente morre da doença sem nunca ter colocado um imã decorativo?
Assustada,
a pessoa que mandou a mensagem dizia que já tinha retirado os imãs da geladeira
dele.
Depois,
duas mensagens chegaram dizendo que não é verdade a informação contida no estudo
citado no email.
Eu
já havia mandado a mensagem para o meu amigo italiano sugerindo que ele
trocasse a geladeira, trocasse a porta ou as laterais do aparelho devido a
grande quantidade de imãs fixados e a contaminação residual que poderia atuar nos alimentos.
Imagine
se ele fosse contaminado por causa dos imãs do Elevador Lacerda, do Mercado
Modelo ou Pelourinho?
Dos
poucos que tenho na minha geladeira, eu só joguei fora o imã da loja de ração
depois que a minha gata de estimação morreu. Não vou tirar os imãs de Júnior e
Lídio do gás, com aquela arara vermelha, vistosa. Nunca tirarei o imã do
mercadinho de Antônio, meu fornecedor de cerveja, e nem o da minha sobrinha Gabriela, vestida de Branca de
Neve, lembrança dos seus três anos.
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sexta-feira, 8 de março de 2013
Silvestre, o itororoense de Itambé
De Eunápolis - Bahia
Cheguei mais cedo em Eunápolis. Fui na rua e passou um carro de som convidando as mulheres para a inauguração de uma loja de bijuterias. O locutor (a gravação) repetia o convite aos “eunapolitanos”. Duvidei que assim fosse o correto. Depois, confirmei num site da cidade que esse é o gentílico de quem nasce aqui.
Eu queria cortar o cabelo e não encontrei o Salão Brasil, indicação do recepcionista do hotel. Rodei um tanto e me lembrei da Eunápolis quando ainda era o maior povoado do mundo e pertencia uma parte a Porto Seguro e outra a Santa Cruz de Cabrália.
Muita gente ainda tem dúvida da sua “pátria” – de que lado morava quando nasceu? Como o hospital ficava no lado de Porto Seguro, as dúvidas ainda são maiores.
Resolvi esquecer o salão e fui procurar uma “tenda”, alguma parecida com a de João Bonitinho. No mesmo quarteirão, existiam duas tendas uma próxima a outra. Na dúvida entre a de Tião e a de Silvestre, fui atraído pelo ar condicionado de Silvestre. Não era uma tenda simples - bem arrumada, com portas de vidro, sanitário, limpa e com um “split” de 9 mil btu´s.
Com as duas cadeiras (marca Ferrante) e os “barbeiros” ocupados, fiquei na espera e aproveitei para ler uma das revistas que Silvestre me deu. A conversa entre os dois era a mesma de toda as tendas. Rolava uma conversa de falta de pagamento de comissão de venda de imóvel e já deu para sentir que o barbeiro tinha sido passado para trás (ele é corretor e nas horas vagas faz “umas casinhas” pra vender).
Chegou a minha vez. Alertei para o redemoinho no pé do cabelo e ele se preocupou. Eu disse: - Fique tranquilo, se você errar, o cabelo cresce rápido! Começamos logo o papo do nome de cada um, o que eu estava fazendo na cidade, rolando a intimidade de perguntar onde havíamos nascido. O barbeiro me disse: - Sou de Itororó, mas sou de Itambé! Pedi para que ele me explicasse a história direito.
Aí, a conversa rendeu. Ele voltou aos tempos de metalúrgico que foi, de ter morado em Jandira - SP, de ter aprendido a arte de cortar cabelo em São Paulo (o diploma estava na parede). Me contou exatamente como descobriu que ele era de Itambé.
- Fui procurar emprego e a moça começou a preencher a ficha. Quando perguntou de onde eu era, respondi: de Itororó! A moça me disse que eu estava enganado e que eu era de Itambé, como tava no documento. Já era homem feito quando soube pela primeira vez que era de Itambé e não de Itororó – tomei um susto. Veja você, eu era meio desligado, tinha nascido numa roça, nunca tinha olhado pro meu documento. Mas, meu coração diz que eu sou de Itororó!
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quarta-feira, 6 de março de 2013
As cadeiras da igreja
As mulheres da sociedade de Poções tinham cadeiras
reservadas na igreja. Esse foi um fato que deu panos para as mangas
na nossa cidade. A matéria do jornalista Ciro Brigham, publicada no Correio da
Bahia em 07 de março de 2006, cita que as cadeiras foram banidas pelo
Padre Bené, sucessor do monsenhor Honorato.
As diversas questões sociais citadas naquela matéria foram os importantes embates
travados pela sociedade, políticos, paroquianos e devotos do Divino Espírito
Santo contra o Padre Bené (quem quiser conhecer o teor da mesma, pode me solicitar
via e-mail que eu mando uma cópia – se solicitar via comentários do blog, deve
citar o endereço de e-mail no corpo do texto).
Pois bem, as cadeiras existiam desde o tempo da igrejinha.
Ela era pequena e com poucos bancos para as pessoas. As mulheres de maior poder
aquisitivo mandavam fazer as cadeiras especiais – eram especiais porque, além
de servirem para sentar, havia o genuflexório (lugar de ajoelhar) e
disponibilizavam conforto para quem chegava à missa. Cada cadeira era identificada
com as iniciais das suas donas, entalhadas na madeira. Enfim, eram vistas por
elas como lugares a mais na igreja.
Com a inauguração da igreja matriz, o dinheiro era
pouco e os bancos foram encomendados em lotes. As cadeiras foram transportadas
para suprirem as necessidades das pessoas e cumprirem o mesmo papel quando
estavam na igrejinha.
Do ponto de vista do Padre Honorato, as cadeiras
eram muito bem vindas. Já no tempo do Padre Bené, se tornaram privilégio. Cita
a matéria que todos os privilégios foram proibidos por ele, inclusive a missa
dos atiradores, que deveriam ser considerados como cristãos comuns.
Bené precisava pregar o Concílio Vaticano II, atrasado
por Honorato há 23 anos. Isso era o que a igreja mandava, diz a matéria. O que
ela (a igreja) não mandou, foi o dinheiro para ser construída, que saiu do bolso
do povo de Poções através das barracas “profanas”, das centenas de leilões
realizados nos pavilhões ao longo das festas do Divino, das listas de doações administradas pelo Senhor Corinto Sarno e pela famosa “Campanha do cruzeiro”,
comandada por Dona Anina Sarno, sua esposa, ajudada pelas mesmas senhoras que
foram impedidas de sentar-se nas cadeiras da igreja.
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terça-feira, 5 de março de 2013
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