"Se chorei ou se sorri, o importante é que em Poções eu vivi"

sábado, 30 de novembro de 2013

Araci Marinho Schettini - Falecimento

Com atraso, noticio o falecimento da senhora Araci Marinho Schettini, ocorrido domingo passado (24), na cidade de Poções.

Dona Araci teve uma importante participação na minha vida. Vizinha da Rua da Itália (e daquela rua nunca abandonou), eu frequentei a sua casa pela amizade que tinha (e tenho) com os seus filhos José, Fenandinho, Angelina e os falecidos Pepetinha (minha professora) e Miguel Antônio (Satobão). Avó de Gustavo, Rodrigo, Ronaldo e Silvia (me perdoem pelos outros nomes dos seus netos). Sogra de Pedro Sílvino e Dena Tavares. Era viúva de Fernando Schettini (Fernando Bigode).

Em minhas crônicas, eu sempre cito Fernando e Araci em passagens importantes e interessantes como as idas ao Cine Santo Antônio, onde eu ia na frente para reservar os lugares que eles gostavam de sentar (terceira fila, últimas cadeiras da esquerda).

Nos jogos do Atlético de Poções, quando assistíamos a partida perto da bandeiro do escanteio. Quando falo de Dezinho do Leite, não me esqueço de Dona Araci.

Filha da lendária Dona Fetinha, ela dava todo o suporte para que a "cruzadinha" fizesse tanto sucesso.

Amiga da minha mãe, na semana santa, Dona Araci não deixava de enviar uma travessa de vatapá, pois sabia que ela não dominava a culinária baiana.

Enfim, Dona Araci sempre tinha um conselho, uma observação e uma atenção especial para comigo. 

Será uma eterna falta para todos nós, seus vizinhos da rua da Itália.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Affonso Manta - O imortal


AFFONSO MANTA (fonte: germinaliteratura.com.br)

Texto: Fábio Agra do Blog As Casuarinas de Poções

Chegamos por volta das 17h na antiga morada de Góes Calmon, que agora tem como habitantes vários imortais baianos. Subimos a escada, que dá acesso às dependências do Palacete, tentando nos esquivar do final de tarde chuvoso em Salvador. Os bustos dos grandes escritores estão ali prostrados, olhando atentamente a estes visitantes do interior, que vieram da pequena, mas estonteante, cidade de Poções.

Ruy Espinheira Filho (Foto: Fábio Agra)
Aproximamos-nos timidamente, até pela reverência ao local. Em cima de uma mesa logo na entrada, cada um de nós pega um exemplar do livro com capa azul. Em alto-relevo, o nome de Affonso Manta, que há 10 anos partia de vez para o desconhecido, agora estava impresso na coleção Mestres da Literatura da Bahia. Era início de uma noite festiva, de homenagens a este poeta. Era o lançamento de Affonso Manta – Antologia Poética.

Dou mais uns passos e olho de soslaio para a outra sala. Estão sentados à imensa mesa de madeira Ricardo Benedictis, Aramis Ribeiro e o mestre Rui Espinheira Filho. Um pouco tímido, fico reticente em aproximar-me de Rui Espinheira. Enquanto ele conversava e autografava alguns exemplares da Antologia Poética, que ele selecionou e organizou, uma mulher anuncia que o pessoal de Poções chegou. Rui vira-se um pouco de lado e nos vê. Diz então - Que maravilha! Pegamos nossos livros e os deixamos a postos para serem autografados também. Até então, não dizemos uma palavra. Ficamos contemplando o ambiente, que passa a pertencer também a Affonso Manta. Aos poucos, mais pessoas vão chegando.
Ruy e os amigos poçoenses (foto: Élvio Magalhães)
Com um grande sorriso, Eduardo Sarno adentra a sala de braços abertos. Em seguida chega Tuna Espinheira. Ricardo Benedictis nos apresenta a Rosa Alba Sarno, irmã do cineasta Geraldo Sarno. Aos poucos, vamos familiarizando-nos uns com os outros e as histórias sobre Poções vão vindo à memória, são contadas. Rosa Alba fica entusiasmada ao lembrar-se do cinema. Conta como Irineu Sarno atentava em algumas sessões. Com muita elegância, ela caía na risada. Dizia, então, com um saudosismo estampado no olhar – Preciso ir a Poções. Estávamos – Dinho Oliveira, Gildásio Júnior, Marcelo Santos, Zezel Leite, Telma Carmezina, Júlia Letícia, Lucimar Alves, Sílvio Persi e eu – ouvindo atentamente Rosa Alba e Eduardo Sarno, enquanto isso Tuna Espinheira contava-me que seu próximo filme, O imaginário de Juraci Dórea no Sertão/Veredas, seria lançado em meados de dezembro em Salvador, com exibição única.

Naquele instante, Poções estava ali com seus cinemas, com a velha Igreja Matriz, a rua da Itália, a praça do Obelisco. Tudo cabia em apenas uma sala da Academia de Letras da Bahia. Várias gerações respiravam a poesia de Affonso Manta e o nome da cidade era dito com galhardia.

Paramos por um momento para ouvir atentamente Rui Espinheira Filho dizer sobre a Antologia, sobre Affonso. Com uma voz rouca e firme, Rui exalta o nosso querido poeta. O põe entre os grandes. Faz-nos entender que em algum momento Affonso será reconhecido como um dos maiores poetas da segunda metade do século 20.

Ruy fala da sua convivência com Affonso (Foto: Zezel Leite)
- Desde Poções que nós viemos com uma longa conversa, longa convivência. Eu sei que o que eu fiz aqui iria agradar muito Affonso. Esta é a grande recompensa minha deste trabalho: trazer um livro de um poeta importantíssimo. Tenho enviado exemplares para fora. Está fazendo sucesso e espantando as pessoas que estão mal acostumadas com poetinhas de segunda e terceira categorias. De repente pegam um poeta dessa qualidade e ficam de boca aberta. ‘Ah, mas nunca ouvi falar’ - O problema é seu. O problema não é dele, não. Ouviu falar agora. Então passe a falar dele, passe a lê-lo e passe a divulgá-lo.

Então, como se estivesse em uma demonstração do que acabara de dizer, Rui lê dois poemas de Affonso: Relâmpagos e Quando esta noite passar... Em seguida diz - Meu velho amigo Affono Manta. Ele, com certeza, está por aqui porque ele era sempre surpreendente. Deve estar dando boas risadas dessa minha tarefa inesperada também.

A noite passou, Affonso, com alguns relâmpagos, e agora você já é imortal, mesmo sem ocupar alguma cadeira da Academia. Tornou-se imortal simplesmente porque sua poesia o fez assim. Quanto a nós, regressamos a Poções, ainda em meio à chuva, e trouxemos além do velho Affonso Manta, as memórias de Eduardo Sarno, de Rosa Alba Sarno, de Rui Espinheira Filho...


Nota do blog
Por razões profissionais, tive que viajar e não participei do lançamento do livro de Affonso Manta. Já havia comunicado essa ausência e parabenizando a Ruy pelo expressivo trabalho, no domingo passado. Solicitei a Fábio Agra a autorização antecipada para a publicação do texto acima. À minha amiga vereadora Zezel Leite solicitei que me representasse oficialmente no evento. Parabenizo aos amigos de Poções que estiveram presentes, sem medirem esforços e riscos de uma viagem no estilo bate-volta para prestigiarem o importante lançamento.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

As Casuarinas de Poções - O blog


Poções ganha um novo Blog.
O autor, jornalista Fábio Agra, me pergunta o nome daquelas árvores da praça do Obelisco. Respondi que se chamam “eucaliptos”, como muitos conhecem. Ele faz um arrodeio, diz que vai pesquisar e me retorna horas depois, dizendo que se chamam Casuarinas, e que vai criar um blog com esse nome.
As Casuarinas de Poções
Ele já sabia tudo, o nome das árvores e a história das casuarinas. Não é o mais bonito, comentei, mas é bastante próprio para uma cidade como Poções. Tratei logo de mandar uma foto que tenho da praça com as imponentes árvores. Todos os seus moradores já tiveram uma história naquele lugar ou pelo menos ouviram o som interminável do vento passando pelos finos ramos das árvores ou, então, cataram os pequenos peões para decorarem presépios de Natal.

Portanto, acertou em cheio com a escolha do nome.
Praça da Liberdade, Praça do Obelisco, Praça da Prefeitura – tanto faz, hoje passa a se chamar Praça das Casuarinas. A árvore empresta o seu nome e Fábio devolve com a proposta de resgatar nossa cultura e sua gente com matérias interessantes.

Parabéns Fábio, parabéns Poções!!!
http://ascasuarinasdepocoes.blogspot.com.br

.

domingo, 24 de novembro de 2013

Livro de Affonso Manta é destaque no Almoço Anual da Familia Sarno

Aconteceu, hoje (24), o encontro anual da família Sarno, aqui em Salvador. O encontro é realizado na centenária Casa d`Itália, tradicional reduto dos italianos radicados em Salvador, por mais de 30 anos.

Ruy Espinheira Filho fala sobre o livro de Affonso Manta (fotos Eduardo Sarno)
Contou com a honrosa presença do poeta e escritor Ruy Espinheira Filho, primo da família, que falou sobre o lançamento do livro do nosso poeta Affonso Manta. Ruy falou da importância de Affonso para a nossa cultura, considerando-o um dos grandes poetas brasileiros. O livro será uma descoberta no meio poético brasileiro.
Também mencionou a sua relação pessoal com o poeta e garante que o livro trás o melhor de Affonso.

Railda Sarno recebe o livro de Affonso Manta
No final das suas palavras, dois livros foram especialmente entregues a Fidélis Sarno e Railda Vasconcelos Sarno, os dois representantes mais velhos da família, que tiveram convivência próxima com Affonso.


José Fidélis Sarno lê o poema Guerreiro, de Affonso Manta.
O primo José Fidélis Sarno comentou sobre a importância do livro para a sua geração e que ajuda a resgatar bons momentos, trazendo à memória a nossa querida Poções. No final das suas palavras, leu o poema Guerreiro, publicado no Caderno 2, edição de ontem do jornal A Tarde, que transcrevo abaixo:

Existe em mim um bárbaro guerreiro
Ousado ou dispersivo, não sei bem,
Que insiste em arriscar tudo o que tem
Num momento veloz e passageiro.
Sem procurar saber se me convém,
Gasto em frivolidades meu dinheiro,
Fico bebendo, fumo o tempo inteiro
E varo a madrugada olhando o além.
Esse jeito boêmio e sem juízo
Talvez não seja aquilo que eu preciso
Para me conduzir bem como gente.
Mas, seja ou não o que mais me convenha,
E apesar de eu não ser papel nem lenha,
Um fogo me consome inteiramente.
O livro será lançado na quinta-feira, 28, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (veja post abaixo).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Antologia Poética - Afonso Manta / Ruy Espinheira - Lançamento


Do facebook para o cemitério

Ontem, eu almoçava com alguns colegas de trabalho, torcedores do Bahia, e falávamos de Perivaldo da Pituba, aquele jogador, lateral do time, que recentemente foi mostrado morando em Portugal. 

Nenhum deles tinha visto Perivaldo jogar bola, descer pela lateral esquerda acenando, pedindo o cruzamento e partindo pra cima. Eram as marcas registradas do jogador nas tardes dos domingos na Fonte Nova.

Alguém quis se lembrar do técnico da época e perguntou quem era o velhinho que treinava o time. ...Titio Fantoni? perguntei e reclamei: vocês são fracos de memória, talvez não se lembrem de Evaristo de Macêdo, Candinho, Joel Santana e …

Um deles, sacou o telefone e foi pesquisar. Acabou dizendo: Não sei como as pessoas viviam sem smartfone – a gente sabe tudo na hora!!!

Pra que essa pressa? perguntei. Você não chegará mais longe só por causa desse telefone. 

Melhor foi ter visto, ter vivido. Agora, me desculpem: vocês são uns torcedores de m…., não sabem a história do time!

A sorte deles é esse tal de Smartfone e o tal do facebook. Um para ajudar a lembrar e o outro para ser lembrado.

Lembrado é a palavra correta, é verdade. Todo perfil de facebook já vem com a mesma foto que vai ser utilizada no cemitério. Lá, as lápides mostram fotos das pessoas em momentos felizes, sorrindo, iguaizinhas àquelas que a rede social já mostra (a minha, por exemplo).

Com essa mania de fotografia que vivo, algumas pessoas me pedem fotos e eu pergunto:  Você quer para facebook ou para a lápide do cemitério? A escolha é sua…


.

sábado, 16 de novembro de 2013

No tempo do lenço

Recebi um texto que fala sobre o uso do paletó, escrito pelo meu primo Eduardo Sarno. Não sei se ele autoriza, mas vou convencê-lo que é uma interessante crônica e gostaria de publicá-la aqui no blog.

Mas, falando de paletó, me lembrei do tempo em que se usava lenço, aquela peça de tecido de algodão medindo uns 30x30 cm. Foi por muito tempo uma opção quando a pessoa preferia dar um presente baratinho. Eram vendidos numas caixinhas de papelão, bem dobrados, e de cores variadas. O mais famoso deles era o Lenço Presidente, que até hoje é fabricado.

Quando me mudei para Salvador, minha mãe colocou uns três na minha bagagem. Confesso que só usava no dias que ficava gripado e era uma bomba ambulante de transmissão de germes, sem esquecer do “catarro” que ficava grudado entre as dobras e eu virava para aproveitar o outro lado, ainda limpo.

O lenço tinha a sua utilização mais variada, aplicada no dia-a-dia das pessoas. Me lembro de Fernando Schettini (Bigode) quando assistia às partidas de futebol. Lá, quase na bandeira do escanteio, ficava sentado em um adobão (tijolo de barro) e com o lenço na cabeça. Ele dava quatro nós, um em cada ponta do lenço, e o transformava numa touca para se proteger do sol.

Meu tio Luis Sarno, tinha o costume de usar o “torrado”, cheirando pelo nariz. Terminava a colocação do torrado e puxava o lenço para limpar o nariz dando aquelas assoadas.

Giovanni Sola, puxava do bolso aquele “embolado” de lenço e assoava o pó de serra que acumulava no nariz. O quadrado do lenço virava no final do dia um bolo.

De lenço embolado eu me lembro bem. Meu pai me levou pra passear na Rural Willians de Rafael Schettini, junto com José Domarco, Américo Libonati e Giovanni Sola. Fomos ver o asfaltamento da BR116, lá perto do Pituba. Eu sei que me deram um picolé e melei o rosto inteiro. Chico, meu pai, pegou o lenço embolado no bolso, deu umas cusparadas nele e esfregou no meu rosto para limpar o melado do picolé.

Numa boa, embolou outra vez e colocou no bolso.

Nota do blog .
Encontrei Antônio Libonati depois da crônica publicada e ele lembrava que os lenços eram usados na igreja durante a missa. Serviam para os homens ajoelharem sobre ele, evitando, portanto, que sujassem a calça. Mas, Libonati, como médico, lembrou da falta de higiene que era o uso do lenço sujo limpando o nariz.

.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Antologia Poética - Affonso Manta

O Poeta Affonso Manta
Confirmado o lançamento do livro Antologia Poética, trazendo as poesias do nosso poeta Affonso Manta. O livro foi organizado pelo também poeta e escritor Ruy Espinheira Filho. Acontecerá do dia 28 de novembro, após às 17 horas, na Academia de Letras da Bahia, Av. Joana Angélica, 198 – Palacete Góes Calmon, no bairro de Nazaré, aqui em Salvador.

O convite foi reforçado por Irundy Manta Alves Dias, o irmão do poeta, que me ligou de Poções muito entusiasmado, e pelo autor Ruy Espinheira Filho. 

Convite feito, aguardo a presença de vocês no evento.


Transcrevo o que escreveu sobre o livro o poeta Carlos Machado, no poeta.net:

Caros,

O que é um poeta? A rigor, não sei. A arte é sempre maior que as definições. Mas a falta de uma definição — ou de um manual de reconhecimento — não constitui nenhum empecilho quando estamos diante do trabalho de um verdadeiro poeta. E este é o caso do baiano Affonso Manta (1939-2003).

Travei o primeiro contato com a poesia de Manta no mesmo ano de sua morte. Na época, publiquei o boletim n. 48, dedicado a ele. Volto agora ao trabalho de Manta após a publicação de sua
Antologia Poética, organizada por Ruy Espinheira Filho (poesia.net n. 18 e n. 284).

A distribuição dos textos feita por Espinheira Filho na
Antologia ajuda a realçar o quanto de sensibilidade e invenção lírica existe no trabalho e na personalidade do poeta. “Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta / Pela rua lilás”, escreve Manta. No mesmo poema, ele se autodefine como “o rei da extravagância, o sem maldade”.

Dono de todos os sonhos e investido de todas as forças líricas, no poema “O Cavalheiro sem Anéis”, ele também se retrata: “Eu sou a própria roupa do crepúsculo”. Neste decassílabo forte e desconcertante, a aliteração em “p”, combinada com os erres de “roupa” e dos encontros consonantais “cr” e “pr”, provoca uma sensação que só um poeta de ouvido refinado sabe extrair das palavras.


O verso estimula a imaginação. Que cor teria a roupa do crepúsculo? Talvez amarelo-sangue. Talvez púrpura com semitons de carmim, ou tudo isso mesclado. No estrato dos sons e (sugestão de) movimentos, a aliteração me leva a imaginar o poeta vestido com a capa — ou manta? — do entardecer drapejada pelo vento. Mas o texto, afinal, não autoriza a disjunção entre poeta e roupa: as duas entidades líricas são uma coisa só.

Além disso, a proparoxítona “crepúsculo” estabelece um fechamento brusco, mais agitado, como se uma lufada de vento mais forte sacudisse a roupa. É por isso que faz todo o sentido a afirmação no início do poema: “Quando me visto de pôr-do-sol / Os anjos ficam loucos”. Não é todo dia, nem todo ano, nem todo quinquênio que aparecem versos assim (pelo menos para este leitor, amador-profissional, do
poesia.net).

“Eu sou a própria roupa do crepúsculo”. Beleza e angústia. Beleza angustiada.

“Nasceram-me gaivotas nos sentidos”. “Pouca coisa sei da vida. / O bastante para não correr”. “Crie canários verdes na varanda / Onde os meninos brincam de ciranda”.

Creio que os versos de Affonso Manta falam por si mesmos. Mas é impossível não destacar a musicalidade e a esperança triste contidas na canção “Quando Esta Noite Passar”. Até nos rabiscos, simples anotações, o poeta revela sua potência lírica e, mais que isso, sua profunda consciência sobre as possibilidades e limites do fazer poético. “Há que deixar em paz o poema. / Ou o poema nos afeta. / O poema há de ser perfeito. / Ou ele come o poeta”. Brilhante.

É por momentos de tal iridescência, para usar um termo mantiano, que o poeta Ruy Espinheira Filho diz no prefácio da
Antologia que Affonso Manta foi um “conhecedor como poucos da arte do verso”. E diz mais: “Ele foi essencialmente poeta, como raros o são. João Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem: ficam encantadas. Affonso Manta não esperou morrer para se encantar: foi um encantado a vida inteira”.

•o•
Affonso Manta nasceu em Salvador (BA), em 1939. Ainda bebê, mudou-se com a família para Poções, onde o pai, médico, iria trabalhar. Aos doze anos, volta para Salvador. Lá, terminou o curso clássico no Colégio Estadual da Bahia. Depois, entrou em Ciências Sociais na UFBA, mas não concluiu o curso. Professor, jornalista, funcionário público, Manta gostava mesmo era da boemia. Como diz o poeta Ruy Espinheira Filho, era um "boêmio impeninente". Viveu alguns anos no Rio de Janeiro, como inspetor dos Correios e Telégrafos. Morreu em Poções, em 2003.

•o•

Apenas um ponto a lamentar. Parte da coleção Mestres da Literatura Baiana, a
Antologia Poética de Affonso Manta foi publicada pela Academia de Letras da Bahia com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Estado. Como publicação oficial, fora de comércio, não vai chegar às livrarias. Chegará a bibliotecas e a uns poucos felizardos, entre os quais me incluo. Uma pena.

Poetas como Affonso Manta, assim como vários outros poetas-poetas destes Brasis, precisam ser retirados da virtual clandestinidade em que se encontram e divulgados para todo o país. Afinal, eles representam uma parte do que há de mais refinado no espírito brasileiro.

Um abraço, e até mais ler,
Carlos Machado


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Surras que tomei 2

Av. Olímpio Rolim em 2008 (Foto: Lulu Sangiovanni)
Dessa vez, eu fui tomar uma surra no meio da rua, logo na Av. Olimpio Rolim, antigamente chamada de rua do Beco Apertado.

Vou dar uma “arrudiada” antes de tomar a surra.

Eu conhecia tudo da rua. Dominava os quintais da minha casa, as goiabas e mangas da casa de meu tio Corinto, o quintal maior de Seu Zóstenes Vaz, o fundo do armazém de Fernando Schettini (Bigode), o quintal estreito de Dôca e o novíssimo armazém de Fernandão Schettini (de Rafael). Para fechar o quarteirão, ainda tinha um ponto comercial na esquina do Beco do Artistas, mas esse sempre mudava de mão (de locador).

No outro lado da rua, tinha a isolada casa de Dona Júlia e das suas irmãs (minhas professoras Tereza e Beatriz Martins), a casa de Irundy (na época moravam Tavinho e Dona Amélia). Um casarão abandonado (foi derrubado e transformado na residência da família de Dr. Arthur Rolim), a casa de Olímpio Rolim, a casa de Giovanni e a famosa Marcenaria Itália (havia se mudado de onde hoje funciona o CDL). Depois, existia a casa de Dona Mariquinha, que morava com a filha Lourdinha Amaral. Após, um terreno baldio e o glorioso cine Santo Antônio. 
A casa de Giovanni Sola - a rua não era calçada (Foto: Arquivo Lulu Sangiovanni)
Depois, tinha a casa onde morava Alencar de Novais e posteriormente Viví e família.
Esse era o centro da minha circulação. Foi ali que eu vi o primeiro trator na minha vida, fazendo o alargamento da rua (era larga até o beco dos Artistas e um funil até a Cônego Pithon).

Voltando à surra:
Um dos primeiros carros de propaganda em Poções foi o de Pedro Matos, dono do SRPCP (Serviço Regional de Propaganda Comercial da Cidade de Poções). O carro tinha um alto-falante amarrado no parachoque dianteiro e circulava bem devagar. Era um Jeep com capota de aço e aquela escadinha no fundo.

Quando passou pelo fundo lá de casa, eu já esperava para “pongar”, na escadinha. Ia feliz da vida, pendurado. Não andamos 20 metros e alguém me puxou pelas orelhas e me tirou do fundo do Jeep. Era o meu tio Giovanni com uma ripa na mão e tome-lhe madeira. Apanhei que nem uma mala velha.

E o pior, ainda teve o apoio de meu pai. Os tios italianos, na época, tinham liberdade e permissão para baterem nos filhos dos outros, numa boa, sem cerimônias. E ninguém gastava a mão para bater – ou era umas boas “curriadas” ou umas boas madeiradas. Não bastava a pancada para depois, vir o castigo, que era papel obrigatório do pai decretar depois da surra – tudo isso para dar prestígio ao tio batedor.

 Não se faz mais carro de som como antigamente… nem tios…

.

sábado, 2 de novembro de 2013

Finados - Registros


O meu filho Ricardo disse que o blog é um grande obituário de Poções. Não é bem assim - eu não posso deixar de registrar passamentos de pessoas importantes ou que tive uma relação próxima. É uma prestação de serviço.

Mas, foi o próprio Ricardo que me acompanhou no cemitério de Poções no dia em que fiz as fotografias das lápides dos meus conterrâneos. Hoje, dia de finados, presto uma homenagem a todos aqueles que se foram e conviveram na nossa querida Poções. Presto um serviço divulgando as datas dos falecimentos de alguns deles e as suas idades na data que se foram.

É curioso saber que boa parte deles se foi prematuramente.

Raymundo Pereira de Magalhães 1920 95
Miguel Grisi 1947 63
Bráz Labanca 1952 63
Stelina Napoli Schettini 1955 41
Maria Carolina Pia 1958
Angelina P. Labanca 1960 64
Alice Brandão Vaz 1962 80
Rafaelle Vittorio Schettini 1963 59
Otaviano Galdino Freire 1964 41
Leoncio Antonio de Brito 1964 85
Vaneide Amaral Pithon 1965 23
Jorge Augusto Noronha Trindade 1966 36
José Schettini 1968 65
Salvador Vaz Sampaio 1966 83
Zóstenes Brandão Vaz 1969 57
Rosa Amélia Amaral Pithon 1970 21
Corinto Sarno 1970 71
Vera Lícia Amaral Pithon 1971 24
Diolindo Frazão 1972 48
João Chaves Curvelo 1975 26
Emério Pithon 1977 64
Euclides Rodrigues da Silva 1977 78
Emilio Sarno 1977 73
Maria Souza Curvelo 1978 72
Leonel Antonio de Brito 1978 50
André Curvelo de Brito 1978 14
Nicola Leto 1978 53
Maria de Lurdes Tavares Schettini 1978 46
Clemencia de Jesus Brito 1978 96
Ruggiero Ferdinando Schettini 1979 48
Marianina Schettini 1980 74
Rosilda Fagundes Ferreira 1980 51
Antonio Lago Silva 1981 63
Benito Giuseppe Schettini 1981 48
Alzira Lago Fagundes 1982 84
Almir Leite Ferreira 1982 28
Sileyde Leite Ferreira 1982 20
Fernando S. Meira 1985 39
João Gusmão Ferraz 1986 81
Armando de Matos Rolim 1986 42
Zoraide Meira Alves 1987 49
Alcides da Silva Fagundes 1989 91
Anna Maria Sangiovanni Sarno 1989 83
Aziz Galdino Freire 1990 40
Olímpio Lacerda Rolim 1990 82
Agnaldo Galdino Freire 1991 23
Helena Eduardo Vasconcelos 1991 81
João José Curvelo 1993 94
Fernando Antonio Schettini 1993 65
Nilton Laudelino Silva 1994 69
Agnelo Pereira da Silva 1994 72
José Antonio da Silva 1995 80
Luiza Soledade 1998
Antenor de Sá Moraes 1998 83
Jônatas Fagundes Ferreira 1998 44
Nilton Laudelino Silva 2001 46
Enéas Epitácio Melo da Silva 2001 25
Elmano Barros Moraes 2002 53
Mário Meira Porto 2002 55
Arthur Carvalho de Almeida 2002 89
Adivaldo Galdino Freire 2003 50
Francisco de Assis Pia 2004
Amedeo Sangiovanni 2004 91
Gilberto Labanca 2004 71
José Carlos Pereira da Silva 2005 42
Miguel Nino Labanca 2006 74
Marcolino Melo Ferreira 2006 80
Eunice Nascimento Leto 2006 77
Francesca Fasano Sarno 2007 93
Solange Chaves Porto 2008 53
Miguel Mário Sola 2008 52
Adérico Souza Curvelo 2008 62
Dalva Curvelo de Brito 2009 80
Wellington Pereira 2010
Abel S. Macêdo 2010 81
Vanderley Rocha Lima 2010
Jusmerinda Moreira Duarte Curvelo 2010
Carlito Fagundes Santos 2010
Romulo Schettini 2010
Rose Meire Alves Ferreira 2010 47
Amaro Elon 2010
João Lago Silva 2010
Alina Fagundes Santos 2010
Anna Maria Caputo Sangiovanni 2011 86
Kárita Eunice M. Soares 2011 12
Lúcia Liguori 2011
Ermir Fernandes 2012
Adália Profetina Schettini Longo 2012
Augusto Rocha Lima 2012
Hilda Curvelo e Silva 2012 89
Pedro Marcos Ferreira Ramos 2012
Bruno D´Antonio 2012
Carolina Caputo Sola 2012
Benevaldo Rocha 2012
Pedro Dantas 2012
Adalgiza Borges Farias 2012 98
Arthur de Mattos Rolim 2013 73
Dante Tortorelli 2013
Eurípedes Rocha Lima 2013 87

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Horário..."

No início dos anos 70, as noites em Poções davam e deixavam. Mas, se alguém andasse pelas praças principais iriam ver um movimento muito pequeno para as intermináveis atividades que tínhamos para cumprir. Jogar um sinuca, fazer uma seresta, dá umas paqueradas e perambular pelas ruas escuras à caça de não sei o que. Chegava ao ponto de a gente levar uma radiola portátil e os discos preferidos da época, achar uma sala de casa de alguma família amiga e dançar.

Pra tantas coisas, eu tinha que descer cedo e já fazer ponto no Chamuscão, no Gaivota, no bar de Seu Hélio, no de Tonhe Luz. Ficava naquele vai e vem na calçada do lado oposto da praça esperando os outros amigos descerem e formar um grupo para traçarmos o plano da noite.

Tinha que ser rápido. Quando saía de casa, meu pai, naquele sotaque italiano carregado, dizia uma única palavra: “HORÁRIO”. Significava dizer que eu não podia passar das dez da noite pra voltar pra casa. Então, era marcar o encontro às 7:00h e cuidar de administrar o relógio – por isso eu gostava de um relógio de pulso.

A regra do horário era variável. Na época de aula, era as dez. Nas férias, podia ir um pouco mais - entre meia noite e duas da madrugada. Nos dias de festa, até as quatro da manhã. Eu ainda dava umas “quebradas” nos horários e ficava tudo bem. Mas, meu primo Miguel Sola, não tinha acordo com meu tio Giovanni. Cinco pras dez, ele saía da praça e subia o beco dos Artistas no pique.

Não pense que era fácil chegar em casa e enganar a hora. Meu pai usava uma lanterna de pilhas e iluminava o relógio na cabeceira depois que eu dava um toque na porta do quarto dele. Depois, passou alguém vendendo uns despertadores com aqueles ponteiros verde, reflexivos, onde se podia ver a hora só abrindo os olhos. A gente só entendia o que era ter “poder” quando nossos pais davam a chave da porta e a liberdade passava a ser meio que vigiada.

Tão vigiada para a questão dos cigarro. Saber se estava fumando era uma obsessão para eles. Minha mãe checava diariamente o bolso do casacão de frio que eu usava, procurando uma sobra de cigarro ou o resto do fumo que caia dos cigarros comprados à retalho. Já meu pai, montava outra estratégia – bem na porta do quarto, no braço da poltrona, colocava o maço de cigarros com as pontas voltadas para fora – era para ele contar na manhã seguinte e saber se tinha apanhado alguns. Nunca caí nessa armadilha. Comprava meus cigarros com Jorge Bufão, pois era confiável e não contava a ninguém. Nos outros bares e vendas, todo mundo era amigo do meu pai e poderia haver vazamento na informação. Então, para driblar as outras vendas, a gente sempre mandava alguém comprar.

Como era diferente a nossa juventude e não faz muito tempo. Aprendemos a saber o que é HORÁRIO… na marra!!!

(Vou colocar aqui que não se faz mais pai como antigamente, sabendo o que meu amigo Danilo Pinduca vai escrever com base nas sombrinhas da crônica anterior).

.

Novas fotos de Poções - Fábio Lopes

Igrejinha do Divino - Poções - Ba (Foto: Fábio Lopes)
Recebo do amigo Fábio Lopes algumas fotos de Poções. São belas fotos e o tema é a Igrejinha do Divino. Vale a pena conferir na páginas Fotos de Poções, aqui no Blog.

Fábio mantém o site UniãoPerfeita, bastante acessado e com notícias diversas de Poções.

O espaço continua aberto para todos e agradeço ao Fábio por enviar as fotos.

.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Eurípedes Rocha Lima - A história

EURÍPEDES ROCHA LIMA, nascido em 24 de Julho de 1926, em Umbuzeiro de Poções, Bahia, filho de Pedro Lima dos Reis e Ana da Silva Rocha. Aos 10 anos, cursei a Escola particular do Professor Alfredo José Ferreira e aprendi tudo que o Professor sabia, tendo sempre o cuidado de ler e escrever todas as manhãs antes de ir para o trabalho da roça com meu Pai, mas não era da minha aptidão o serviço braçal. Em seguida fui tomar conta de uma “bodega” (venda) na Fazenda Palmeira em 1939, época que teve uma grande seca e fome, tinha-se o dinheiro, mas não a mercadoria, alimentação não existia por falta de transportes, muitas vezes vi pessoas caírem desnutridas.
 
Em Janeiro de 1940 teve uma chuva que alagou a cidade de Poções, caindo muitas casas comerciais com grandes prejuízos aos proprietários. Voltei de Palmeira a Umbuzeiro para trabalhar na Loja de Diolino Xavier Luz, que a firma era Benigno & Luz, ganhando vinte mil reis por mês, moeda da época. Após seis meses fui negociar como ambulante, comprando e vendendo semanalmente entre Poções e Coquinhos. Voltei a trabalhar em balcão na Loja com Diolino até 1946.
 
Quando mudamos para Poções em 02 de Dezembro de 1946, trabalhei na Loja onde hoje é uma “Creche”, até 1949. Em 1947, fiz o Tiro de Guerra de Janeiro a Dezembro. Em 1948, no dia 05 de Setembro casei com Idalice Rocha Silva, tivemos 8 (oito) filhos: José Carlos Rocha Lima, Vanderley Rocha Lima, Sirley Rocha Lima, Augusto Carlos Rocha Lima, Maristela Rocha Lima, Humberto Carlos Rocha Lima, Maria Estela Rocha Lima e Ednilson Rocha Lima.
 
Em 1950, fui trabalhar na Padaria e Bar Conceição de Antonio Aguiar, dali em diante começou a clarear os horizontes com muito esforço e trabalho. Em 1954, me estabeleci no comércio de Padaria e Bar até 1963. Já estava equilibrado um pouco com as finanças. Ingressei na política com Aníbal Carvalho, fomos vitoriosos, continuando Vereador por duas vezes (8 anos), Vice-Prefeito com o Prefeito Otávio Curvelo (6 anos). Candidatei a Prefeito no pleito de 1982, fui eleito para mandato de 6 anos, tendo assim 20 (vinte) anos de vida pública.
 
Fui Adjunto da Promotoria Pública por 15 anos sem remuneração, e também fui Presidente da Loja Maçônica União e Justiça Nº 27 deste Oriente de Poções por 3 (três) vezes, passando por todos os cargos. Fui fundador do Centro Espírita Servos de Maria e Presidente por dois anos, com os irmãos Lourival Manoel da Silva, Ubirajara Pombal, Nicola Leto, Maria Bernardino Lago Macêdo e Saturnino Luiz de Macêdo. Fui Tesoureiro da Sociedade União das Classes, não mais existente. Continuando na política, fui candidato por duas vezes, perdi para Tonhe Gordo e continuo na política Municipal, sendo meu “hobby”.
 
Casei pela segunda vez com Vanuza Caires Macêdo, cuja união tivemos um Filho maravilhoso: Rômulo Pedro Macêdo Lima, um jovem de 21 anos, faz faculdade na UESB, muito estudioso e só nos dá prazer. Aos 85 anos de idade, sou Diabético tipo II, faço hemodiálise três vezes por semana e me considero “Jovial”. Agradeço a DEUS por tudo que fui e sou, com 50 anos na política, não tenho inimigos, mas sim amizades em todas as agremiações políticas.

Texto escrito por Eurípedes Rocha Lima há 02 anos e compilado por Vanuza Caires Macedo Lima (esposa) em 08.10.2013.
 
Nota do Blog 
(Este texto foi gentilmente cedido e autorizado a publicação por Vanuza Lima, a quem o Blog agradece pela contribuição à memória e história de Poções).
 .

domingo, 13 de outubro de 2013

Surras que tomei

Semana passada estava almoçando com alguns amigos em Recife. Num restaurante simples, ficamos conversando sobre a educação do passado.

O amigo espanhol contou que era coroinha na pequena cidade na região de Burgos quando foi expulso da igreja porque o padre não queria pagar a ajuda semanal acertada. A expulsão se deu porque resolveu retirar a ajuda da cestinha de arrecadação da missa dominical sem o conhecimento do padre. A mãe ainda deu uma surra nele. Pobre Gonzalo!

Me lembrei da surra que tomei da minha mãe quando começou a existir a televisão em Poções. Queria voltar cedo da escola para assistir aos diversos desenhos animados que passavam no horário da tarde. Disse para a professora que minha mãe havia solicitado para ela me “soltar” mais cedo. Então, três da tarde, eu já estava sentado naquele imenso sofá branco que tinha na sala de casa.

Minha mãe ajudava a irmã Lina no ateliê de costuras. Chegou mais cedo e me perguntou o que estava fazendo alí. “Ah, a professora teve que sair mais cedo e liberou a gente”. Foi se sentar na varanda, fazer o croché habitual. Naquele movimento de sobe desce da rua da Itália, quem passa? A professora.

“Ei, você não saiu mais cedo?” Perguntou. “Não, dona Anna, mas eu “soltei” seu filho mais cedo pois a senhora pediu”. Ela, minha mãe, não entendeu nada. Entrou em casa, pegou a primeira sombrinha que achou (chovia no dia) e me deu umas boas cacetadas, desligou a televisão e me deixou de castigo por vários dias, sem direito a desenho animado e cinema aos domingos.

É isso aí, hoje não se faz mãe como antigamente.

sábado, 5 de outubro de 2013

Joaquina Ventura: No tempo das parteiras

Por Ricardo Benedictis

Dona Joaquina foi, por longos anos, a principal parteira em Poções. Desde o acompanhamento da gravidez até o curativo definitivo após a queda do umbigo do recém-nascido, dona Joaquina visitava regularmente suas parturientes. E pelas suas leves mãos bondosas, em nossa casa, apenas o meu irmão mais velho e já falecido, Ernesto De Benedictis nasceu em Salvador, ‘aparado’ pela parteira Ignês Assumpção Alakija, que residia na Rua Siqueira Campos 16, no Barbalho.

Voltemos à dona Joaquina Ventura. Era uma senhora de estatura mediana para os padrões da época; devia medir mais ou menos 1,58 m. Tinha a voz doce e enérgica e falava baixinho, mas sua voz era audível e até sonora. Foi assim que, pelas suas leves mãos bondosas eu nasci, bem como mais oito entre meus irmãos e irmãs.

Meus pais e toda a minha família, nutriam muita amizade por dona Joaquina. Ela tinha trânsito livre em nossa casa, onde era tratada como parente próximo. Não me lembro quando ela faleceu pois já morávamos em Salvador à época do seu passamento. O certo é que ela merece a nossa homenagem e a nossa gratidão.

Vicente Ventura, pai de Pedro Jorge (funcionário da Justiça), foi funcionário do IBGE até aposentar-se; Vicente era neto de dona Joaquina.

Bom salientar que dona Joaquina ‘aparou’ duas gerações de poçoenses, tendo a seu encargo a graça de ajudar a virem à luz, inúmeras personalidades do mundo sócio-político-artístico de Poções em cerca de trinta anos de labor profissional.

Os membros da colônia italiana que se instalara em Poções desde os anos 1920, com raras exceções tiveram em dona Joaquina a parteira oficial das famílias. Ela era muito benquista e respeitada pela nossa sociedade poçoense, sem esquecer, entretanto, de registrar os bons serviços prestados à comunidade pelos médicos Peixoto Junior, 
Nestor Guimarães, Ary Alves Dias, Aloísio Euthalio da Rocha, entre outros contemporâneos da grande parteira Joaquina Ventura, através de cujas leves e bondosas mãos, tivemos o privilégio de aportar na Rua da Itália nº 13, em Poções, Estado da Bahia.

Também o cineasta Geraldo Sarno, o médico e ex-presidente nacional do INSS - Crésio Rolim, bem como o ex-presidente dos Correios – José Carlos Rocha Lima, vários prefeitos, deputados, advogados, médicos, dentistas, engenheiros, militares das três Forças e muita gente do povo – passaram pelas leves e bondosas mãos da grande parteira Joaquina Ventura, a quem, em nome da nossa memória cultural, rendo as maiores homenagens.

Que Deus a tenha, Joaquina.  


.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Arborização urbana e o fim do tripes

Recebo o email de nosso conterrâneo Gilberto Messias, e ele escreve:

Luiz, sou um Poçoense apaixonado por esta Cidade, vivo em São Bernardo do Campo há aproximadamente 35 anos e, as vezes, chego a ir para Poções até 3 vezes ao ano. Meus planos é daqui alguns anos ir definitivamente para Poções. O google mapas deu uma melhorada na imagem e, talvez por ter condições de visualizar a cidade inteira, uma coisa me deixou preocupado, a falta de arborização na cidade é muito grande, percebi que as árvores existentes na sua maioria estão nos fundos das residencias e sabemos que conforme o crescimento da cidade os proprietários vão aumentando as suas construções e derrubando estas árvores. Tenho acompanhado o teu Blog e acredito que você seria a pessoa certa a fazer uma matéria sobre Arborização Urbana para a Cidade de Poções, quem sabe os gestores começavam a se preocupar com esse problema, que será sem sombra de dúvidas preocupante em um futuro muito próximo para Poções.
Obrigado

Agradeço a sua sugestão, não domino o assunto. Mas, a preocupação é pertinente e cada vez mais em pauta quando se fala de desenvolvimento urbano. Portanto, o seu texto é auto-explicativo e publico na íntegra para que possa ter o efeito desejado e solicitado.

Fiz umas buscas fotográficas nos meus registros e lembrei de um fato relacionado ao assunto que você menciona.
 
Rua da Itália arborizada (Foto: Arquivo Eduardo Sarno)
Rua da Itália de 2008 (foto: Lulu Sangiovanni)
Poções já foi muito mais arborizado e os antigos moradores se preocupavam e plantavam uma árvore na frente de cada casa. Me lembro que na rua da Itália existiam umas árvores frondosas. Elas amenizavam e refrescavam o calor dos dias de sol (leia mais sobre o assunto no Blog da Família Sarno)

Um vez, as árvores foram infestadas por um pequeno inseto chamado “tripes” ou “lacerdinha”. Diziam que o inseto caía nos olhos das pessoas e faziam um estrago. O mais interessante foi a decisão dos nossos gestores que, de imediato, mandaram erradicar o inseto – cortaram as árvores!  

Adeus tripes, adeus árvores nas ruas…