"Se chorei ou se sorri, o importante é que em Poções eu vivi"

terça-feira, 22 de junho de 2010

Guel Brasil, um poeta poçõense

Entre as notícias tristes dos amigos que se vão, recebo um belo poema em homenagem a Poções, escrito por Miguel França Sampaio (Guel Brasil).

Guel Brasil nasceu e foi criado em Poções. É poeta, escritor, cordelista, cronista e contador de histórias. Publica seus trabalhos no site www.celeirodeescritores.org e ocupa uma cadeira na Associação Cultural Literatura no Brasil. Atualmente reside em Suzano – SP.

Obrigado Guel pelo envio do poema:

Poções.
Guel Brasil.

Poções, oh minha terra querida
Berço adorado que me viu nascer,
Cresci em tuas ruas ainda poeirentas
Brincando com os meninos que eu vi crescer.

Destes, muitas lembranças tenho...
Guardadas em meu álbum de memórias,
Pensamentos que me torturam a alma
Como quem volta da guerra sem vitórias.

Quero lembrar de ti sempre em sorrisos
Das congadas do Divino em procissão,
Dos festejos na praça do coreto
E das prendas cantadas no leilão.

Das fogueiras ardendo em noites claras
Com teu povo nos festejos de São João,
Quisera eu ter na morte o teu abraço
Quisera eu ser parte do teu chão.

Meu sonho é ver-te novamente;
Nem que seja por um pouco só,
Morrer longe de ti querida terra
Não existe um desafeto maior.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Rômulo Schettini - Rominho

Recebo a notícia do falecimento precoce de Rômulo Schettini, Rominho, ocorrido ontem (16), na cidade de Feira de Santana, vítima de infarto. Residia em Itapetinga e foi sepultado em Poções.

Esteve na última Festa do Divino e, com ele, formamos um grupo divertido, lembrando as histórias de Poções, gerando uma das crônicas publicadas neste blog.

Era irmão de Benito, Romano, Fernando Ruggiero, Rodolfo, Humberto, Terezinha, Ítalo, Giuseppina e Rêmulo, filhos de José Schettini, um dos bravos italianos que ajudaram no crescimento da cidade.

Mais uma tristeza para Poções, principalmente para a Rua da Itália, onde nasceu e se criou.

A Copa de 1970 - ao vivo, na ABC

Estava assistindo ao magro 2 a 1 da Seleção Brasileira sobre a fraca Coréia na televisão, com o radinho do celular colado ao ouvido. Depois de tantos anos, ainda há um atraso entre a imagem e o som do rádio. Lógico que a onda chega primeiro que a imagem. Maicon nem tinha sido lançado e o rádio já gritava gol.

Não tive outra reação senão gritar gol. O pessoal quase me mata, queria me tomar o rádio, dizia que estava tirando a sensação de ver o jogo na televisão. Parei com as reações em tempo normal, enquanto ficava observando os atrasados nas reações de gol, quando já sabia que era escanteio.

Me deu saudade de um grande sofá branco que tinha na nossa casa, em Poções. Sentado, ali, eu já havia visto o primeiro homem pisar na lua em 1969. No mesmo ano, estreando uma TV ABC, novinha, a novela "Sangue do Meu Sangue", com Nicete Bruno, Tônia Carrero, Francisco Cuoco, Fernanda Montenegro e tantos outros bons atores.

A TV era em preto e branco. Assistimos à Copa de 70 no México. Apesar das imagens chegarem através de repetidoras, não havia esse atraso todo de hoje. Dava para ouvir Valdir Amaral no rádio e acompanhar a movimentação dos dois times. De vez em quando, girava um botão de sintonia fina que ficava junto ao giratório dos canais. Vez ou outra, para melhorar a imagem, dava uma viradinha na antena pé de galinha, presa na ponta de dois canos de 6 metros cada, equilibrando-se do vento amarrada a arames torcidos. A imagem era muito longe dos canais normais de hoje, sem qualquer comparação com as HD´s.

Mas, assistíamos a tudo que passava na televisão. Era a primeira Copa ao vivo em Poções.

Final da tarde de 21 de junho de 1970, quando veio o tri sobre a Itália (4x1), a população estava comemorando na praça. Fizeram uma passeata em direção a porta da nossa casa, na Rua da Itália, na tentativa de intimidar meu pai e outros tios e amigos italianos moradores que assistiram ao jogo com a gente. No início, houve certo receio de acontecer alguma reação mais calorosa. Mas, Chico, meu pai, naquela tranquilidade peculiar, já saiu na varanda aplaudindo aos vitoriosos que estavam com as bandeiras. Em seguida vieram os outros tios repetindo o mesmo gesto.

O que se imaginava um confronto, tornou-se uma cena de respeito de ambos os lados. Os aplausos vinham dos vitoriosos e dos perdedores, selando aquele momento. Afinal, estavam todos na Rua da Itália.

Essa coisa de torcer pela Itália e torcer pelo Brasil sempre foi muito natural na nossa casa. É um confronto difícil de evitar nas copas do mundo, porém traumáticos. Além dos 4x1 do México, tivemos em 1978, na Argentina, a decisão do terceiro lugar onde o Brasil ganhou de 2x1.

Depois, foi meio que a forra de meu pai, quando em 1982 tomamos aquele “vareio” de Paulo Rossi (3x2) e a melhor seleção de todos os tempos voltou para casa.

Já em 1994, Baggio deu mole e nós trouxemos o tetra.

Para essa Copa, Força Brasil, Forza Azzurra!!!

sábado, 12 de junho de 2010

Portugal do penteado afetado

Por Vitor Rocha, direto de Joanesburgo, http://makarapa.atarde.com.br/
8 de junho de 2010

Portugal, terceiro adversário do Brasil, ganhou de 3 a 0 de Moçambique, no último amistoso antes da Copa, nesta terça-feira (8).
O resultado pouco importa, por se tratar de treinamento. Mas é bom observar.
O time joga no antigo sistema de dois pontas-de-lança: Simão, jogador muito técnico, e Cristiano Ronaldo, que dispensa apresentação.
Como atacante de área, o baiano Liedson, lançado ao futebol no Poções, time de um dos maiores defensores da cidade, Luiz Sangiovanni.
Sem chances na seleção brasileira, ele, Liedson, e não Sangiovanni, que prefere as luvas, resolveu se naturalizar lusitano. Quer agora mostrar seu valor.
No meio, dois homens criativos. O também brasileiro Deco, que teria uma vaga na seleção de Dunga (prefiro ele a Elano, mas seria reserva de Daniel Alves), e o 10 Danny, que chega bem ao ataque.
O importante meia-atacante Nani, do Manchester United, foi cortado depois de problema na clavícula. Seria dele uma vaga.
Não gosto do sistema de pontas, apesar de ser bonito de se ver. O jogo fica mais franco, mas os riscos defensivos triplicam.
Também estranho os penteados afetados dos jogadores de Portugal. Até Liedson aderiu ao gel. Por vezes o futebol fica igual aos cabelos.
Com um só “trinco”, como os portugueses chamam o frente de zaga ou primeiro volante, fica difícil se defender.
E aí está o grande pecado português que Felipão, como excelente técnico, mas péssimo ex-zagueiro, revolvia colocando mais um meia defensivo.
Me preocupa a ação ofensiva de Cristiano Ronaldo sobre Michel Bastos. Oxalá Felipe Melo faça as pazes com a bola até lá.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Mufula - Poções Minhas Veredas


“Eu nasi na caatinga, i mi criei lá na mata
Usanu pracata di coro di boi,
Eu era piqueno mais já trabaiava
Na roça eu prantava, féjão e repoi”
(trecho da poesia Sodade do meu Turrão)

Quem chegar em Poções e procurar por Gildásio Campos Caetité, ninguém vai saber quem é. Mas, procure por Mufula e todo mundo sabe onde encontrá-lo. Aliás, não precisa procurar que logo aparece.

Na praça da Festa, em menos de 10 minutos, chegou com uma bolsa a tiracolo carregando o seu livro de poemas Poções Minhas Veredas, lançado oficialmente no ano passado. Sua felicidade irradiava, dedicando um exemplar para cada amigo.

Eu acho que Mufula se confunde com a pomba do Divino Espírito Santo. É uma pomba sertaneja, difícil espécie nos dias de hoje. Se mudou para a cidade, mas nunca perdeu as suas características e identificação com o homem da roça.

É uma pomba poeta! Assim eu resumo o meu amigo irmão Mufula. Velho companheiro de tantas Festas do Divino e de muitas boas horas de conversas. Não me lembro da ausência de Mufula em qualquer ano.

Ele apresentava o programa Amanhecer no Sertão, na rádio Povo de Poções, e muitas vezes falamos ao vivo, via telefone. Quando estava em Poções, a minha presença era constante para visitá-lo e falar de assuntos diversos. Aqui em Salvador, eu acompanhava o programa pela internet, quando o serviço da rádio funcionava e permitia.

Por razões diversas, deixei de ouvir o programa por mais de 6 meses. Acordar no sábado cedo não é fácil. Mas, um dia, deu vontade de ouvir o programa e estava praticamente de saída. Restavam dez minutos. Liguei o computador e acessei o site. Exatamente nessa hora, lá estava Mufula dizendo: - Vou ali comer uma melancia frita e volto já, mas antes quero mandar um abraço para esse povão espalhado no Brasil, sintonizado na internet, especialmente para o meu amigo fulano (era de São Paulo, não me lembro o nome) e para Lulu, aí em Salvador, ligado no programa ouvindo a gente.

Fiquei impressionado pela coincidência do fato e emocionado por saber que as pessoas, mesmo distantes, pensam em você.

Foi uma lembrança especial, de verdade. Se tratando de rádio, foi uma sintonia perfeita, literalmente.

Só tenho que parabenizar pelo seu livro especial, batizado aqui pela minha filha de “o livro escrito com o dialeto brasileiro”. Na verdade, o dialeto poçõense.

“Ser poeta é uma virtude, fazer poesia é uma arte”

Sucesso, amigo!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Festa do Divino - IECEM

Já passou da hora. Poções precisa ter um museu público.

A Mostra Cultural fez falta. As fotos de José Onildo também. Tivemos apenas o IECEM, como sempre, brilhando com uma mostra simples, trazendo o passado da nossa cidade.

Espero que na próxima Festa do Divino tenhamos mais atividades culturais e o Museu Municipal.

Aproveito a oportunidade para divulgar que o IECEM (Instituto Educacional Cecília Meireles) estará realizando o concurso de contos e poesias Prêmio Cecília Meireles de Literatura no dia 31 de julho de 2010. As inscrições estarão abertas até o dia 16 de julho na secretaria da instituição (fone 77-3431-1087).

Parabéns ao IECEM por nos permitir uma volta ao passado. O blog está à disposição para divulgar as suas iniciativas.

Uma oportunidade para a Filarmônica


As orquestras filarmônicas da Bahia vão receber do governo do Estado apoio para modernização e divulgação dos seus trabalhos, por intermédio do Programa Estadual de Apoio as Filarmônicas.
O anúncio feito na noite deste domingo (30), durante abertura do 4º Encontro Estadual de Gestores de Cultura, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Através da Secretaria de Cultura vão ser aplicados R$ 4 milhões para a compra e conserto de instrumentos e fardamentos, além da capacitação dos gestores, publicação de um catálogo de divulgação e um portal na internet.
Modernização
Segundo o secretário de Cultura, Márcio Meirelles, o programa chega com o intuito de modernizar e popularizar as filarmônicas. “Não estamos investindo apenas nos instrumentos, nós queremos trazer essas instituições, que são do fim do século 19 e início do século 20, para o século 21, com maior interação com a mídia, maior capacidade de captar recursos e renovação de seus repertórios”.
Ao todo devem ser beneficiadas 183 orquestras filarmônicas de 170 municípios, dos 26 territórios de identidade do estado. “Investir nas filarmônicas é investir numa ação social e cultural importantíssima para o desenvolvimento do estado. Estamos falando de cerca de 3 mil músicos e mais de 8 mil alunos de todas as idades. Pessoas que mesmo que não se tornem músicos, terão uma experiência única com a arte e a cidadania”, afirmou Meirelles.

Festa do Divino - Bandeira Verde

A Festa desse ano foi melhor ou pior que a do ano passado?

Assisti a algumas filmagens da Festa feitas em 1988 e 1991 e as entrevistas eram com base na famosa pergunta acima.

Teve gente que achou melhor, outros culparam o plano Collor. O frio era o culpado pelo “menos” movimento. O parque era no meio da praça. O pavilhão fervilhava de gente.

Naquela época, as pessoas reclamavam dizendo que a Festa já estava descaracterizada. Não se conseguia repetir o sucesso do ano anterior.

Em 2010, 22 anos depois, portanto, o papo ainda é o mesmo. O poder de comparação é evidente. Os sites de notícias da cidade dão idéia da evolução da Festa.

Não vou reclamar. Achei a Festa muito boa. Só não posso dizer que foi melhor que o ano passado porque não estava lá. Foi um festão para o povo. Não posso mais reivindicar uma festa para os mais velhos, mas reivindico uma programação para os mais velhos na tarde do sábado, quando todo mundo que planeja ir à Festa aparece na Praça.

As duas maiores oposições também não podem reclamar: A Igreja estava lotada, ninguém podia entrar. A praça estava entupida. O Mastro foi mais fraquinho, a Chegada das Bandeiras foi muito bonita e a rua cheia de gente. Até teve político demais. Estava no cavalo ao lado de André da Ótica e ele esperava contabilizar um bom movimento do comércio local. A polêmica do parque no centro da cidade vai continuar. Os bares e restaurantes estavam lotados. A onda Daniel invadiu a cidade – o centro engarrafou. Até São Pedro ajudou – não choveu e nem fez frio!

Tem quem reclame da falta de distribuição da renda da Festa, que o dinheiro vai todo embora da cidade. Tem gente torcendo para que os músicos locais recebam os seus cachês logo. Ouvi alguém dizer: - Vocês de Salvador só fazem cobrar. Tem tanta gente famosa, são incapazes de ajudar e só aparecem na Festa para reclamar.

Já que eu não vou reclamar, vou apenas lembrar que o time do Poções está esquecido e precisava um pouquinho desse dinheiro federal. Alguns banheiros químicos quebrariam o galho de muita gente. Mas não esqueçam no próximo ano de reservarem uma área “preferencial para idosos” na Praça ou nas barracas. Quanta gente boa da velha guarda estava presente.

Poções merece a melhor união de vocês, autoridades civis, militares e eclesiásticas (como dizia o nosso Chico Paradella) para decidirem o futuro da nossa Festa.

Tudo isso aí é muito bonito! Não deixem as tradições se acabarem.


domingo, 30 de maio de 2010

Festa do Divino – No Gaiolão, sem o Pavilhão

Na quinta-feira à noite, antes de descer para a rua, a minha mulher disse: - Aposto que a primeira pessoa que você vai encontrar será Reginaldo. Não deu outra. Quando passei ao lado do Gaiolão, Reginaldo berrava: Oh Chorão!, Oh Chorão! Ela ganhara a aposta. Reginaldo é a figurinha carimbada mais comum na festa. Já está em todos os álbuns e todo mundo ainda tem uma de reserva para o bate-bate.

Encontrei uma galera boa, de anos. Todo mundo freqüentador da festa. Vamos lá: Edson Exler (Jacaré) Ana Maria e Eliana Moraes, Minuca Magalhães, Lourinho (rouco, precisando de interprete até para pedir uma dose de conhaque), uma prima de Eliana (desculpe, mas não lembro o nome – mande que eu conserto) e uma novidade de visita – Romélia Bloise e o seu marido, um sãopaulino roxo, irmã dos meus amigos Cauva, Eduardo e Romeu Bloise, residentes em São Paulo, antigos moradores de Poções.

Foi um prazer rever Minuca Magalhães, depois de 20 anos (ele disse que era mais). Mora em Condeúba, aqui no interior da Bahia. Fui logo apelando e pedindo para que me contasse a história do poçõense que um dia foi se hospedar na pensão de Dona Albinha, sua mãe (nas proximidades da rua da Independência, aqui em Salvador). Minuca revelou o autor, mas mantenho em sigilo pois estas coisas de revelar nomes na internet nem sempre acabam bem.

Se não revelo nome, pelo menos posso contar a história:

O cidadão desembarcou na rodoviária velha de Salvador e pegou um taxi. Pediu para que o levasse para a pensão de Dona Albinha. O motorista perguntou se ele sabia o endereço. – Ué, você não sabe onde é? É a pensão de Dona Albinha. Deu no mesmo e o motorista voltou a perguntar se não tinha uma referência, um endereço. Nosso cidadão respondeu: - Ela é a mulher de seu Martinho. Lá em Poções todo mundo conhece.

O tempo passa, as lembranças não. A rodoviária nova de Salvador data de 1974. A história é anterior, possivelmente entre 1971 e 1973. Não se sabe como o nosso amigo conseguiu chegar na pensão de dona Albinha.

Festa do Divino – No Wartão, sem o Pavilhão – Parte 2

Jorge Bufão fez promessa. Raspou o cabelo e, por um ano, segundo ele, vai ficar com a cabeça careca. Essa nota eu recebi por email, não há como negar e nem é invenção.

Lá pelas tantas, no bar de Wartão, Jorge faz uma revelação bombástica: - Tenho medo de defunto. Me pelo. Já pensei em ajuda psiquiátrica, porque é mesmo trauma de infância!

Eu não acreditei, não é possível, mas pensei: Qual interiorano não sofre desse mal? Quem nunca sofreu de medo da escuridão? Passar perto de um cemitério era um tormento.

Disseram a Jorge que o tratamento era dose única: Pegar no pé de um defunto e ele estaria curado.

Morreu alguém em Morrinhos. Lá vai Jorge para fazer o tratamento. O pé, calçado com uma meia branca, e ele pensando em desistir. Encorajado, pegou no pé defunto. Pra que? Coitado. Caiu em desespero e teve que ser retirado da sala tamanho era o dissabor por não encontrar a cura para o seu mal.

Agora, além de defunto, passou a ter medo de meia branca.

sábado, 29 de maio de 2010

Festa do Divino – No Wartão, sem o Pavilhão – Parte 1

O som alto da barraca de Neumir expulsou o pessoal sentado no bar de Zé Califórnia e nos empurrou para Wartão e para o Gaiolão. Sem dúvida, todos queriam conversar e não ficar rouco. Tem certas coisas que nós poçõenses não aprendemos nunca: som alto no lugar onde não tem ninguém. Veja que no sábado à tarde, os artistas da cidade se apresentavam e não tinha ninguém para assistir. Um pagodão estridente onde deveria ter uma música tranqüila, uma voz violão talvez.

Mas fomos salvos por Wartão, que não tinha “música” incomodando. Ali se tornou o ponto provisório dos velhos amigos. Poucos, é certo, mas deu para matar a saudade.

Nunca se sabe a hora de voltar para casa, sempre chega alguém depois que você terminou de pagar a conta. Vai mais uma cerveja, mais um papo, mais um abraço. Chega alguém que você não encontra depois de tantos anos. É uma nova rodada de conversas, de novas histórias e saber sobre aqueles que não vieram, atualizar o caderno e passar a limpo a saudade.

Lá pras 5 da tarde chega Gilmar Magalhães e o nego Regi. Deus sabe de onde apareceram!

Tenho uma admiração especial por Gilmar, desde os tempos em que era colega de Bruno Sola, quando ele ouvia as histórias de meu tio Giovanni e o imitava.

Naturalmente, ele me diz: "Tenho umas lembranças para o seu blog!" Mais uma cerveja e ele começa a contar sobre o dia em que o caminhão de doces da Sultana quase vira na ponte de madeira (aquela próxima à Igrejinha). "Era dirigido por Pedro Laudelino – Pedro de Diná, faço questão de frisar pra você não atrapalhar com Pedro de Anália, aquele que jogava sinuca. Foi um acontecimento histórico na cidade".

"Aquele tanto de lata de biscoito no bagageiro externo, “tu” não lembra? Era de biscoito de doce e de sal. Tinha as marcas Tupy e Aymoré, lembra? Maria era os de doce, tinha dos redondos e daqueles compridinhos".

As histórias continuavam. "Agora nós vamos falar de Good News” – Good News? perguntei. É assim que a gente chamava Boa Nova, você não se lembra? É a nossa Sucupira". Gilmar lembrou que Boa Nova deve um defunto a Poções, pois construiu um cemitério novo e ninguém morria. " O defunto teve que ser emprestado por Poções".

- Ah, Gilmar, me deixa!!!

" Não, ainda tem a história do Padre Honorato quando foi celebrar uma missa lá. O padre foi convidado para um jantar residencial. Já havia jantado, mas foi assim mesmo. Ele “rudiava” a mesa enquanto recebia um insistente convite: Padre, dona fulana ta chamando pro senhor ir comer! O padre, surdo, responde: Não, não quero, já comi muito, não quero comer mais!

Tem mais uma antes de você ir embora. Sabe qual é? A do peru feliz.

- Peru feliz? Então é história de Natal? perguntei.

Você conheceu Emério Pithon? Alguém chegou em Poções procurando pelo Seu Emério para entregar um peru de natal. Mas “tu” também conheceu Homero Pintor? Pois é, foram entregar o peru para Homero Pintor no lugar de Emério Pithon. Como ele não sabia de nada, também não questionou e ficou com o peru, feliz da vida.

Mas, antes de você ir embora, grave aí e não esqueça de botar no blog os nomes dos cachorros do seu tio Giovanni: - Baleia, Suzi e Sara!

São pequenos detalhes que fazem a magia desses encontros. Lembrar de Baleia, Suzi e Sara reconstitui a lembrança de boa parte da minha infância em família, que já estava esquecida.

Um abraço para Gilmar e para o primo Bruno, que foi o elo dessa amizade.

Festa do Divino - O Poeta Homero

Se Homero registra a guerra de Tróia nas epopéias Ilíadas e Odisséia, a Festa do Divino também registra, literalmente, o seu Homero.

Durante a solenidade religiosa da busca do mastro, o Padre Estevam disse, com muita propriedade, que as palavras de seu Homero demonstram bastante simplicidade. Responsável pela organização da Chegada das Bandeiras e do próprio Mastro, o nosso Homero incorpora essas tarefas e passa o sentimento de dever cumprido quando descreve as dificuldades para a realização das mesmas.

As suas atitudes são puras e objetivas. Fala dele, dos que o ajudaram e circula entre o atual e os ex-prefeitos. Numa naturalidade de espantar, fala dos padres, dos ex-padres, entra no assunto da perseguição do religioso sobre o profano. Não traz nenhum transtorno na sua fala e coloca todos no mesmo patamar.

Mesmo sendo prolixo, consegue transmitir confiança e a preocupação com os preparativos da festa do próximo ano. Implora a Deus para que esteja vivo e que tenha forças para repetir a beleza dos eventos. Entre lágrimas, aplausos e português próprio, está o nosso poeta Homero falando da Chegada da Bandeira e Mastro, como se fossem as epopéias Ilíadas e Odisséia, eternizando para o resto da vida as nossas tradições.

Praticidade, objetividade e simplicidade são os exemplos que Homero nos mostra na realização da Festa, que devem ser seguidos por todos que discutem sobre o futuro de tão importante evento da nossa cidade.

A minha admiração e a de tantos outros por este serventuário da justiça, como faz questão de dizer nos seus discursos, farão com que Homero mantenha viva as duas maiores tradições religiosas da nossa Festa.

Parabéns Seu Homero, vida longa para o senhor!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Festa do Divino - Lembrando Daniel Rosinha...

Nem mesmo sentamos no bar de Zé Califórnia, chega Zitão comentando: - Você, Lulu, foi o único que escreveu no site sobre Daniel Rosinha!!! Cheguei a tomar um susto, tive que me lembrar o que havia escrito.

Quem não conheceu, Rosinha foi um dos poucos travestidos de Poções que teve passagem livre e acesso à sociedade poçoense, numa época onde todo mundo tinha pudor.

Como naquele dia de festa a atração era o cantor Daniel, o nome de Rosinha chamou a atenção dos que estavam à mesa. Zitão não perdeu tempo: - Quem namorou com Daniel Rosinha? Risos por toda parte, cumplicidade no ar. Todo mundo ali viveu na mesma época do sucesso de Rosinha.

As verdades estavam disfarçadas em conjecturas. Ninguém queria assumir, mas havia no semblante uma cumplicidade subliminar com a “ingênua” pergunta de Zitão.

As indicações dos “namoradores” foram saindo, as histórias iam sendo reveladas. Lembramos de Rosinha dançando no Clube Social – as mulheres adoravam porque era um exímio dançarino, excelente condutor e de comportamento respeitador.

Daniel ganhava a vida vendendo biscoito “ximango” na feira e, ainda cedo, amanhecendo, passava empurrando uma carroça com as latas do produto para estacioná-la ao lado das barracas, já que não existia o mercado.

Lembrei daquela figura sentada sozinha em uma das mesas no Chamuscão, tomando cerveja, com o queixo apoiado sobre as mãos, levemente unidas.

Mas, após tantas lembranças, não houve um “sim” convincente para a pergunta de Zitão. Tínhamos apenas a certeza do sentimento da saudade da época de Daniel.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Festa do Divino 2010 - Poções - Bahia


Fotos da Festa 2010 - clique aqui

Amigos,
Algumas fotos da nossa Festa do Divino.
Durante os próximos dias, atualizarei o blog com as histórias que foram contadas nos bares de Wartão, Zé Califórnia e O Gaiolão.
 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vítor Rocha - duas Copas

Recebo a notícia: Vítor Rocha vai para a Copa do Mundo! Vai cobrir o mundial pelo jornal A Tarde.


Uma história que começou em 17 de março de 1984. Vitinho estava no berçário do Hospital Português ao lado de Ricardo, meu filho, quando os dois nasceram. Nossas famílias não se conheciam. O tempo passou, os dois fizeram vestibular para o curso de Comunicação, foram ser Jornalistas pela Facom. Resolveram estudar em Portugal, sendo admitidos na Universidade de Braga por um ano.

Antes da viagem, conversando, concluíram que passariam os aniversários fora de casa. Daí, a descoberta da mesma data de nascimento. Os fatos foram se ligando. Era ele mesmo, aquela criança do berçário com o esparadrapo de identificação, nascido numa manhã chuvosa de sábado, de quem imaginávamos que fosse Ricardo, diante da semelhança de todos os bebês,


Muitos anos depois, conheci o pai dele devido a assuntos de trabalho, mas não sabia do parentesco.

Enquanto ficaram fora, as famílias se falavam para passar notícias. Timidamente se aproximaram. Dona Maria Elizabete passou a ser amiga de dona Maria José (as duas mães - Maria). Aos poucos, nos tornamos amigos de verdade. De comemoração em comemoração, de feijoada em feijoada, de novena em novena, de lavagem em lavagem nos tornamos mais íntimos. Hoje, sentamos naquela área externa como aquelas pessoas que se conhecem de longas datas.

Em Portugal, os dois criaram um projeto para cobrir a Copa do Mundo da Alemanha. Seis estudantes em um moto-home, transmitindo informações via internet.


Em pé: Montemor, Ricardo, Osvaldo, Vítor. Agachados: Verrine e Sebastian


De volta ao Brasil, Ricardo foi para São Paulo e Vítor permaneceu em Salvador. Mais ainda fizeram juntos um documentário sobre as diversas regiões da Bolívia, onde entrevistaram o Presidente Evo Morales. No que liga a nossa Poções, Vitinho cobriu o time por uma temporada, buscando notícias com Raimundão. Mas o Poções já dava sinais de se tornar moribundo, insepultável, feito um zumbi, girando hoje pelo túmulo da terceira divisão.

No final do ano, ligo para tomar uma cerveja com Vítor e, quando menos espero, ele me diz: “Estou trabalhando na praia meu tio, cobrindo a viagem de Sarkozy, aqui em Itacaré”. Outra vez, estava embrenhado nas obras da transposição do São Francisco. Sempre assim, ocupado e dizendo: “Vida de repórter é dura, meu tio!

Recebi um email que dizia: “Estou indo para 10 dias em Joanesburgo”. Não foi à toa. Cumpriu o seu papel e já deu o furo de reportagem, entrevistando Dunga e Jorginho numa visita escondida às instalações da seleção. Visitou todas as cidades sede e nos dá uma idéia das diferenças entre Alemanha e África do Sul.

Na preparação da viagem, está nos debates participando com os grandes “dinossauros” da impressa esportiva http://www.atarde.com.br/esporte/noticia.jsf?id=2449430

Mas, posso ficar tranqüilo que ele vai escrever que Liedson nasceu no Poções e não no Prudentópolis. Também sei que continuará com a mesma dedicação, competência e qualidade de trabalho que fazem dele um brilhante jornalista.

Tão logo as reportagens comecem a sair, coloco o link no Blog.

Boa sorte Vitinho. Vamos torcer para que você nos traga a Copa, pelo menos no papel.

Prometo te levar em Poções depois da Copa.



terça-feira, 11 de maio de 2010

Carlito Fagundes Santos



A Filarmônica de Poções está mais triste. Faleceu Carlito Fagundes Santos. Participou ativamente dela por quanto viveu em nossa cidade.

Veio a Salvador para um simples exame de rotina e encontrou uma forte bactéria no seu caminho, tirando-lhe a vida.

Deixa os filhos Carla, Sérgio e Márcio, os irmãos Dalva, Valmir, Alina e Adilson Santos. Será enterrado em Vitória da Conquista, nessa quarta feira, 12.

A minha admiração por essa pessoa maravilhosa, amiga e de tantos bons momentos vividos juntos.

domingo, 2 de maio de 2010

Ah! Como é difícil amar você.

Os sites de Poções e Bom Jesus da Serra já anunciam a apresentação do cantor Daniel na próxima Festa do Divino. Sinal de que vai haver a festa. Uma excelente atração, sem dúvida. Vamos ter praça cheia.


Acho uma boa idéia se o molde da festa é esse. Faço contas sobre o custo benefício. Daniel embolsará uma cifra (à vista, antes de subir ao palco) bem superior àquela que o pobre time do Poções precisa para se manter na segunda divisão. Daria para pagar as camas que foram tomadas por falta de pagamento, contratar uma dúzia de jogadores meia-boca e tentar voltar à primeira divisão (saudades de Pedro Sibim).

Por enquanto, me contentarei ouvindo a música de Daniel. Coincidentemente, uma letra que pode ser comparada com o amor do poçoense à sua terra. Diz ela:

Ah! Eu adoro amar você
Como eu te quero
Eu jamais quis
Você me faz sonhar
Me faz realizar
Me faz crescer
Me faz feliz
O amor que existe
Entre nós dois
É tudo que eu sonhei
Prá mim
É mais do que paixão
É mais do que prazer
Amor que não tem fim

Mas, sem dúvida, me emocionarei muito mais ouvindo Chico Schittini, cantando na chegada da Bandeira o nosso eterno hino:

Salve o Divino, Espirito Santo,
puro paráclito consolador,
aceitai, as lindas rosas tão preciosas do nosso amor
Aceitai senhor as lindas rosas, tão preciosas do nosso amor!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Jusmerinda Curvêlo - Tia Zu

O céu de Poções está mais azul.

Tão logo recebi a notícia do falecimento de Jusmerinda Duarte Moreira Curvelo, mencionei ato continenti a frase acima.

Dona Zu, tia Zu ou simplesmente Zu, como era carinhosamente chamada por todos, completou a sua honrosa passagem de cem anos nesse mundo. Eu acostumei a chamá-la de tia Zu pela proximidade familiar (era tia de Bete, minha mulher) e pela constante presença nas reuniões sociais familiares.

Dona Zu sempre foi um exemplo para Poções. Certamente, uma das primeiras mulheres a ocupar um cargo público. Trabalhou nos Correios de Poções (a antiga ECT) durante anos. Desempenhou muito bem o seu papel de primeira-dama do município, quando o mesmo foi governado pelo seu marido Octávio José Curvelo (1977/1982).

Me lembro daquela doce pessoa atendendo no correio. Tratava as pessoas com uma atenção especial, sempre com uma voz tranqüila. O barulho do carimbo nas cartas era o único a destoar o contraponto do ambiente.

Essa tranqüilidade de tia Zu marcou alguns momentos nas minhas lembranças. Minha tia Lina era sua costureira e, muitas vezes, acompanhei os longos papos enquanto folheava as revistas de modas por um modelo mais atual. Fiz diversas entregas dos vestidos na nova casa na praça da igreja matriz. Sempre tinha um biscoito ou uma fruta para oferecer.

Religiosa que era, freqüentava quase que diariamente a igreja. Portava a fita vermelha da irmandade pendurada no pescoço e um vistoso véu na hora da comunhão. Tinha um jeito especial de acalmar o padre Honorato nos seus momentos de faniquitos.

Mãe de pessoas especiais que marcaram histórias em Poções e fora dali. As professoras Maíta, Madalena e Heloísa tiveram destaques especiais na nossa formação, participando até hoje da educação no nosso estado. José Octávio, médico conceituado, também foi prefeito de Itapetinga. Heraldo foi um dos grandes marcos na política de Poções, com a introdução de uma nova bandeira – faleceu precocemente quando buscava essa mudança para a nossa terra.

Tantos são os seus netos que brilham nas diversas atividades e especializações profissionais. Um legado especial que ela deixa e que ainda frutificará muito.

O azul do céu de Poções será mais azul com a acolhida da sua alma. A passagem é uma condição natural da vida, como disse Henrique, seu neto, mas deixará as suas qualidades pessoais como marcas, principalmente para aqueles que, ao longo dos anos, tiveram a oportunidade de gozar dessa convivência.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Do Senhor Morto ao Romãozinho

Outro dia, viajando pela cidade de Senhor do Bonfim em companhia de alguns amigos de trabalho, um deles, Edson Cabeça, perguntou-me por Senhor Morto.

“Rapaz, você foi longe. Lembrar de Senhor Morto só estando em Senhor do Bonfim”, respondi.

Os outros amigos ficaram curiosos com a pergunta e expliquei que, durante uma viagem a Juazeiro, dividi o apartamento do Grande Hotel de Juazeiro com um amigo que tinha o costume de dormir de barriga para cima, enrolado no lençol. Despertei mais cedo e me assustei com a imagem do cara – queixo avantajado com barbicha e a forma do lençol, exatamente como se fazia com a imagem do Cristo na sexta feira santa, aí em Poções. Por azar [dele], contei a história para um amigo que, imediatamente, tratou de colocar o apelido de “Senhor Morto”.

Me lembrei dessa imagem e de outras passagens religiosas do tempo em que fui coroinha junto com Tonhe Gordo.

Na época, um acontecimento trouxe nova energia para os religiosos da cidade - a chegada de um grupo de freiras A comunidade havia se preparado para recebe-las. A casa ao lado da sede do Tiro de Guerra foi cedida para ser a morada desse grupo, comandado pela irmã Bernadete. Enquanto a casa não ficava pronta, as doações do mobiliário eram guardadas em um quarto da nossa casa, frutos da mobilização da população. Elas fizeram um importante trabalho de base e comunitário. O local de morada foi batizado como “Casa das Freiras”.

Na missa, os grupos dividiam-se e eram identificados pelas fitas usadas no pescoço. Os Congregados Marianos usavam fitas de cor azul. As vermelhas eram do pessoal do Sagrado Coração de Jesus. As amarelas da OVS (Obra das Vocações Sociais).

A semana santa sempre foi comemorada com o rigor de todos os ritos. O lava-pés era na quinta feira com a participação de 12 apóstolos (eu era um deles), imitando o ato de Jesus na véspera da morte. Muitas vezes, a cerimônia foi conduzida pelo bispo Dom Climério. Entre nós, apóstolos, cabia a preocupação de saber qual era a cor da faixa que Judas vestiu. Para evitar controvérsias, nenhum sacristão sabia ao certo, portanto, ninguém queria ser o traidor.

Na sexta, a matraca dava o toque de tristeza e de compaixão. Era a hora de embrulhar a imagem do Senhor Morto com o lençol (o Santo Sudário), e iniciar a procissão. Uma das imagens que guardo como se fosse hoje é a de Margarida, filha de Brasilino Neto, que se vestia de Verônica. Nas estações, cantava e desenrolava a imagem do Cristo com a coroa de espinhos. Orgulhoso e com a religiosidade batendo no peito, Brasilino acompanhava Margarida e ainda carregava um banquinho, usado para dar maior alcance a sua filha.

No final, o andor era deixado sobre uma base de madeira existente na igreja, e na cruz pendurávamos um pano em forma de M. Iniciava-se, então, a cerimônia do beija-pé. O povo participava deste ato tão intensamente que havia filas e o dedão do pé da imagem, de tanto ser beijado, havia dissolvido ao longo dos anos e se transformado em um buraco.

Não somente os católicos possuíam essa religiosidade. Na Igreja da Praça da Bandeira, os protestantes participavam das suas manifestações em grande número e a igreja vivia lotada. Lá, o auge era na noite do batismo. Debruçava-me na balaustrada da praça para assistir a chamada daqueles que seriam batizados em um ritual tão ao estilo de São João Batista, que permitia os comentários e a comparação do cenário de uma enorme fonte com a pequena pia batismal da igreja católica. Os crentes, como eram chamados, sempre se vestiram a caráter, com paletó e gravata.

Muitas vezes, eu ficava sentado na varanda de casa ouvindo o radinho de pilha, achando interessante o sobe e desce na rua da Itália. Os crentes subiam pelo lado direito e os católicos desciam pelo lado esquerdo.

Na verdade, existia o Padre Honorato de um lado e o Pastor Isaías do outro. Cada um tinha o seu rebanho. Toleravam-se, mas os alto-falantes eram apontados para cada uma das igrejas.

Também, nem todos eram fiéis. Havia a minoria que preferia acreditar na presença de mitos do folclore brasileiro. Numa bela tarde, estávamos sentados no passeio ao lado da sacristia da igrejinha e ficamos sabendo que um romãozinho estava aparecendo na rua do Tigre. A gente sabia que o romãozinho era um amaldiçoado, que tinha uma índole ruim, parecia um saci e se manifestava jogando pedras nos telhados. Fomos para lá, éramos uns 10. Entramos na casa e ficamos esperando a manifestação. As pedras vieram. Resolvemos dividir a turma – metade dentro e a outra metade fora da casa. Não deu outra, as pedras vinham da direção do vizinho. Descobrimos que eram dois adolescentes que escutaram a história da maldição do romãozinho e assustavam as pessoas. Nossa turma ficou conhecida como os “destruidores de romãozinhos”.

Enquanto fui coroinha, segurei a bandeja (aquela que é utilizada para aparar partículas de hóstias) e testemunhei a comunhão e a manifestação de fé de muitas pessoas. Hoje, quando participo da chegada da bandeira, continuo sendo testemunha da devoção desse nosso povo, dos olhos encharcados de lágrimas e da vontade de tocar e beijar a bandeira do Divino Espírito Santo.

Uma boa páscoa a todos.

domingo, 14 de março de 2010

Flamengo, via rádio

Quem é do interior sabe porque o Flamengo é o mais querido e tem mais torcida. A prova disso é a maior quantidade de títulos sobre os eternos fregueses Vasco, Botafogo, Fluminense e, naquela época, América, Bangu, São Cristóvão, etc. e todos os outros nacionais. Se tem mais títulos, tem que ter mais torcida, é claro. E se tem mais torcida, as rádios acompanhavam o Flamengo em qualquer lugar do mundo.

Nos anos 60, consolidei a minha paixão por esse time. Eu tinha dois rádios – um fixo, daqueles que a gente ainda vê funcionando e que Luciano de Carlito tem uns dois para vender e caro, porque é transistorizado, segundo ele. Mas, acho que é caro pela quantidade de títulos do glorioso time que os rádios transmitiram.

O outro aparelho era um também Semp, portátil. Esse aí eu trouxe para Salvador e passei a admirar o time do Vitória.

Ter um rádio portátil era como um note-book nos dias de hoje. Estávamos sempre atualizados ouvindo os programas de rádio, as resenhas e as transmissões. Naturalmente, existiam as faixas de OC (ondas curtas) de 25 e 31 metros. Depois das cinco e meia da tarde, mudávamos para a faixa OM, que hoje se chama AM (amplitude modulation). A grosso modo, significa que as ondas médias não se propagam em longas distâncias devido a interferência da radiação solar. Ao por do sol, a sintonia era perfeita, portanto, o rádio Semp passou a ser o preferido porque era um dos poucos a “estourar” mais cedo as ondas OM 1220 khz da Rádio Globo. Sendo os jogos do Flamengo às cinco da tarde, ninguém podia perder nada. Então, é por isso que acho que o Rádio Semp é caro e é a “cara” do time. Flamenguista que se preza, sabe reconhecer isso.

Por muito tempo, eu e Paulin de Doca, acompanhamos dezenas de jornadas esportivas a partir das duas da tarde, quando a maioria das emissoras começava as transmissões. Naquele tempo, reinavam os locutores e suas identificações pessoais: Fiori Giliotti – Rádio Bandeirantes (Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo...), Waldir Amaral (Você ouvinte é a nossa meta, pensando em você é que fazemos o melhor...) Jorge Cury – Radio Nacional (Passssaaaa de passagem!!!) e Doalcei Camargo – Rádio Tupy (Disparoooooooooooou, é gol!!!), mais tarde José Carlos Araújo, o Garotinho (Atirou, entroooouuuu... Golão, golão, golão).

Vejam que Paulin de Doca tem uma paixão revelada pelo rádio e imita Waldir Amaral como se estivesse sentado à beira do gramado. Nós ouvíamos todos os jogos do Flamengo e do meio da rua dava pra ouvir o rádio da casa de Doca.

O rádio sempre me trouxe emoções incomuns. Ouvi a Copa do Mundo da Inglaterra (1966), o milésimo gol de Pelé (1969), a Copa do Mundo do México (1970) e os campeonatos do Flamengo a partir de 1965.

A paixão dos campos a gente transferia para os famosos “times de botão”. Catava pedaços de plásticos, cortava em pequenos pedaços, derretia e montava os times com as caras dos jogadores que eram publicadas no Jornal dos Sports. O time de 1965 era o meu preferido: Valdomiro, Ditão, Murilo, Paulo Henrique, Jaime, Nelsinho, Neves, Carlinhos, Silva, Almir e Rodrigues.
Era comum comprar a flâmula comemorativa dos campeonatos ganhos. As fotos do time campeão eram coladas nas tendas do beco dos Artistas. Fazia coleção de tudo. Me restou uma Revista Placar com todos os times do Flamengo, que está toda digitalizada.

Me lembro de dois fatos relacionados com o Flamengo e a Festa do Divino. O primeiro eu era muito menino. Sola, meu primo, me deu a incumbência de ouvir um jogo final do Flamengo e tinha que descer na praça para avisar cada gol que o time fazia. Desci umas três vezes.

Mais recente, em 2001, já com televisão, a praça tava coalhada de gente com a camisa do Vasco e era a final do campeonato carioca. Terminou o jogo com aquele sensacional chute de Petkovick (43) e o Vasco se sagrou tri-vice. Fazia um frio intenso, só via os amigos sem camisa. Foi o dia em que ninguém sentiu frio em Poções.

Assim, via rádio, muitos se consolidaram como torcedores do Flamengo.

Falando em rádio, o jogo de hoje entre Flamengo e Vasco, só será possivel acompanhar via rádio, pela internet. Enquanto escrevo, escuto o Imperador liquidar a fatura. Pena (aliás, Dó-Dó) é que estou sentindo agora do rival. Mas é bom, está sendo ajudado para não ser vice, mais uma vez.

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