"Se chorei ou se sorri, o importante é que em Poções eu vivi"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Poções, não tão bem na terra como no céu... (Ficção)

Poções, mesmo nos dias de hoje, consegue me fascinar pelas lembranças dos momentos vividos em cada esquina, em cada rua e pela companhia dos velhos e inesquecíveis amigos. A saudade luta contra o progresso. O passado e o presente vivem num eterno embate.

Sempre será uma discussão de mesa de bar a evolução da Festa do Divino, as mudanças de hábitos e comportamentos do passado. Chico Picolé, rapidamente por telefone, me falou semana passada: - Não adianta pensar em fazer voltar o passado. Não temos mais como fazer, apenas lembrar e registrar.

Certamente, o que diz Chico é um grito perdido que ninguém mais ouve. É uma frase angustiante soando como uma guilhotina que cortou o seu passado. É tão angustiante quanto a cauda cortada da lagartixa, que vira para os dois lados, agoniza e não encontra mais o corpo para se reconstituir. Não me entrego!
Outro dia, no cemitério de Poções, enquanto visitava o túmulo de meu pai, dei uma volta e, ali, parecia que a cidade estava viva. Cada lápide que reconhecia tinha significado, tinha história, era a volta ao passado sem o medo de antes.

Lembrava-me do catecismo de Dona Fetinha, que dizia existir o lugar dos bons e o lugar dos maus - o céu e o inferno. O cemitério era o céu e, ao mesmo tempo, o inferno.

Em alguns túmulos, os meus ouvidos ainda escutavam o barulho dos punhados de terra jogados sobre os caixões de uma altura de pouco mais de sete palmos e, calmamente, também ecoavam as palavras de Alcides Batatinha na sua última homenagem ao morto. O cidadão estava partindo com a sua alma para o purgatório e ali selada a sua sentença - para o céu ou para o inferno?

À tardinha, na hora dos enterros, Poções tinha sempre umas nuvens vermelhas no horizonte. Era o céu ou inferno? Eu acho que era o céu. Nossa cidade era cheia de gente boa e ninguém investiria na construção do inferno. No máximo, podia ser o purgatório e a passagem direta para o céu, porque os ruins a gente perdoava aqui mesmo.

Paciência, o passado começa na porta do cemitério e termina lá dentro. Talvez, valesse a pena fazer um pavilhão na porta dele e a gente ficaria mais feliz na Festa do Divino. Teríamos a presença de todo mundo - os vivos e os mortos. Não teríamos o que reclamar - morrer, portanto, não seria tão ruim.

Ainda assim, se eu achasse a porta do céu, entraria lá para matar as saudades de uma Poções onde as coisas estão resolvidas, todos vivendo harmoniosamente onde o passado será sempre presente.

Mas, se a gente chega pela praça da Liberdade, a porta imaginária é ali, onde ainda enxergo os restos do obelisco. Em meio aos eucaliptos, no campinho, o baba de Bira Fernandes está rolando, enquanto na porta da prefeitura acontece a reunião dos velhos prefeitos: Olimpio Rolim, Otávio Curvêlo, Lulu Ramos, Anibal Carvalho, Dr. Aloísio Rocha e Tonhe Gordo, explicando como funciona a UPB. No outro lado da praça, uma conversa animada entre Argemiro Pinheiro, Chico Paradela e Pepeu. E lá vem Raimundo Paradela com um canário na gaiola para fazer “chama” no alçapão, bem no cruzeiro da Lapinha.

A camionete amarela de Luiz Sarno acabou de chegar da Fazenda Caetitú com um “panacum” de marmelos e vários latões de leite carregados por Erotildes. Veio, também, um feixe de copos de leite para ornamentar a igreja na missa de domingo. Marivaldo Soares na varanda, sem camisa, recebe seu Luiz, imitando a voz com um carregado sotaque italiano. Na casa ao lado, está Carlito Torres, ainda vestido de pijama de calças curtas.

Mais abaixo, seu Corinto Sarno voltando da caminhada de inspeção matinal das obras da igreja e do Hospital. Fernandão Schettini fuma um cigarro no maior papo com Vicente Paladino e Elier Barreto. Zóstenes Vaz, na balaustrada da varanda, apreciando o movimento da rua e ainda não tirou da garagem a pick-up Rural para ir à fazenda. Ed Porto Alves já se mudou para a casa que era de Valentim Sarno.

As fogueiras de São João foram queimadas no dia anterior e Humberto Schettini pergunta para Chico, meu pai, se vai repetir a dose. Dôca ainda comenta e vibra com o último filme que assistiu. Alcides Batatinha manda entregar a encomenda dos talões de notas. Dona Fetinha já está com a cruzadinha na porta, em fila, rumo à igreja.

Pelo menos, no céu, tem um botafoguense, Fernando (Bigode) Schettini vibrando que o Botafogo ganhou do Bangu de Ulisses do rádio. Vicente Ventura continua anunciando as notas fúnebres, calculando as probabilidades de o Vasco ser campeão. Muita gente vestindo as roupas confeccionadas por Otoniel Costa e Armando Jacó, com as famosas sandálias de pneus fabricadas por Zé Cambuí. Tenente Celino, delegado, mantendo a ordem na cidade, daquela delegacia do Beco Apertado.

Na antiga praça Deocleciano Teixeira (atual Raimundo Pereira Magalhães), o velho Roque está com a padaria aberta, mas ainda lê uma passagem da bíblia antes de começar a trabalhar. Miriam Fagundes, sentada ao caixa, com a registradora de manivela novinha em folha. Miguel Labanca sobe, vai em casa tomar um café. Zé Martins abre as portas da loja de ferragem de Américo Libonati. Licinho Fernandes já está vindo e fumando o seu Continental sem filtro para abrir a loja dos Sarno. Irineu já está com as portas de ferro da “Alvorada” suspensas enquanto Armando Rolim puxa os ferrolhos da farmácia. Jaimevique inaugurou o armarinho. Emério Pithon e Miranda recebem o novo carregamento de brinquedos do Bazar Natal. Emilio Sarno na porta do armazém com o paletó sobre os ombros. Dr. Ari Dias joga gamão com Ademar da Sucam. Abel Magalhães, de suspensórios, conversa animadamente com Daniel e Zezinho Alves, vizinhos de negócios. Mem Fernandes Santos (Vei Nenen), de camisa abotoada até o pescoço, conta mais um “causo” para Pasquale Paladino.

A essa hora, o Padre Honorato já se prepara para celebrar a missa em latim. Só Tonhe Gordo escutará o que ele vai dizer. Dona Anina Sarno, Marianina Schettini, Rosina Libonati, Francisca Sarno e as irmãs Elza e Odete Lago são as fiéis mais assíduas. Pelas lojas, Seu Liquinho Macêdo, tranquilamente, distribui aos assinantes o novo número do quinzenal “Folha do Povo”.

José Sobrinho passa com as malas de jóias defronte a marcenaria de Giovanni Sola. Fernando Ruggiero Schettini acabara de se mudar para a casa da antiga rua Apertada. Seu Jambrim Gusmão, com a nova camionete, vai tomar café com Dona Amélia, sua filha. Ubirajara Pombal, jornal na mão, caminha calmamente para abrir o Banco da Bahia. Seu Amaro Elon, do outro lado, abre as portas do Banco do Brasil. Djalma Barbosa passa com o caminhão carregado, iniciando nova viagem. Adelino limpa a camionete americana que ainda tem a gasolina original de fábrica. Vicente Orrico Sarno está prestes a partir para Morrinhos com a Rural e o reboque carregado.
Pedro da Barreira, na varanda de casa, se benze quando toca o sino da igreja matriz. Lá vem Seu Lourival com os livros contábeis debaixo do braço, vai para coletoria de Carlos Rizério, Luiz Ribeiro e Bernardo Coelho. Ida Benedictis molha as roseiras do jardim enquanto Dona Julieta não pára de elogiar o progresso de Boa Nova. No seu novo Karman-guia vermelho, passa Ernesto Benedicts em direção ao fórum. Boêmia Marinho e a professora Zirinha juntas, estão indo para a Escola Alexandre Porfírio e para a banca da Lapinha, respectivamente. Teresa Martins traz de Salvador as novidades da língua portuguesa.

O cine Santo Antônio se prepara para um novo filme. Vavá e Nicola Leto aproveitam o dia para a manutenção do cinema. Tena já preparou o cartaz. Pedro França e Zé Paladino marcam a continuação de um jogo de bilhar na Visgueira.

Na praça da Igrejinha, o serviço de alto-falantes anuncia mais uma página musical. Afonso Manta escreve o novo poema no Sombra da Tarde sob os olhares de Elmano Barros Moraes. Samuel Abreu com o novo açougue. Floriz Neto sentado à porta lendo o jornal. Desde a cinco da manhã, o Sargento Severino faz aula de educação física para o pessoal do Ginásio. Ariomar Rocha esperando para começar mais um baba na praça da feira (atual praça da Festa).

A rotina da praça é quebrada com a construção de mais um pavilhão, sinal de que a “furiosa” banda de tio Nadinho está prestes a tocar. Espera só um sinal de Seu Cidinho na hora em que o leilão para. Já se ouve o som das pancadas da batuta no trombone de Antonio Fagundes, que aperta o nó da fralda na curva baixa do instrumento para aparar a saliva. O povo começa a se aproximar. É a vez de João Leiloeiro descansar. Mais um litro de uísque é consumido na mesa de Badinho, Zelinho Fagundes, Nenzinho, Quito, Edvaldo Miranda, Omar, Liligo, Dr. Ruy Espinheira e o velho Miga, grandes amigos. Vitinho Borba, com a sua Yashica, registra mais um momento da festa. De paletó e gravata, Antônio Leto chega de Conquista. Cícero Gusmão ofertou mais um bezerro.

Ao lado, nas barracas do pessoal do ginásio, os reservados estão cheios. Quem está lá? José Manoel, Carlos Nei, Vicentão, Juvencinho Lago, Heraldão Curvelo, Leonel Messias, a figura inesquecível de Miguel Antônio Schettini (Satobão) e Armando Manta com pinta de galã americano. A palha de arroz é o chão da praça.

Olha lá Mituca, com a barraca de laçar as garrafas com aquelas varas de pescar e argola de metal na ponta. Jogando, com as varas, Jônatas Fagundes e Aziz Galdino Freire.

Já é hora de voltar pra nossa Poções, a da terra. Mas antes, vamos passar no Bar de Arnóbio Andrade, tomar a saideira e ainda comer um pão com manteiga na padaria de seu Arlindo Cambuí.

Estamos com saudades de tantos que vivem por lá. Todos estão bem vivos nas nossas mentes e nas nossas histórias. Aproveitam o eterno descanso enquanto a cidade ainda não é invadida pelos blocos de carnaval em plena Festa e pelos monstruosos carros de som.

É isso, nossa sorte é que existe uma outra possibilidade – o céu!
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tonhe Gordo

Fiquei perplexo neste final de semana. Estava em Poções e a notícia se espalhou: - Roubaram o busto de Tonhe Gordo!!!. Não acreditei e fui confirmar o fato. Restaram os dois parafusos que prendiam o busto.

Tonhe Gordo e Poções não merecem tamanha falta de respeito. Um ato de vandalismo barato que mancha a dignidade do nosso povo, principalmente de um homem que trabalhou e se dedicou pela cidade, promovendo e colocando-a numa posição onde poucos conseguiram fazer.

O busto foi uma homenagem pública ao brilhantismo de um dos seus filhos ilustres.

Não defendo questões políticas ou preferências. Defendo um amigo. Fui buscar o texto abaixo, escrito e publicado em 2006, onde falo dele, da nossa consolidação de amizade, do companheiro de infância e adolescência, onde não se identifica a política como forma de aproximação entre nós.




Tonhe Gordo
“Muitos conheceram a sua brilhante trajetória política. Poucos se lembram ou viram o seu início como coroinha e sacristão da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo. Eu acompanhei bem esse período e pude firmar uma amizade que se consolidou no Curso Ginasial, no Centro Educacional de Poções.

Tonhe era muito franzino. Estudávamos na casa de Fernandinho Schettini junto com Remo, Tonhe de Dôca, João Queiroz, Jota Fagundes, Miguel Mário Sola e Terezinha. Fernandinho foi quem colocou o apelido pra diferenciar de Tonhe de Doca. Tinha um outro apelido pronto, mas esse não pegou: Regaludo.

Naquela época, o sujeito ser sacristão era um cargo de extrema confiança do Padre Honorato. Com certeza não faltaram os avais de Dona Fetinha e Dona Janael, sua mãe. Mas acho que Tonhe foi promovido mesmo pela sua livre andança entre a cruzadinha e a sacristia.

Era um cargo de muita responsabilidade, pois deveria abrir a igreja antes da missa das sete, tocar o sino, preparar os paramentos do Monsenhor, acender as velas e as brasas do turíbulo, ligar os microfones, encher as galhetas de vinho e água, ajudar na celebração da missa e ainda passar a sacolinha do dinheiro. Quando tinha batizado, ainda fazia as anotações no caderno. Aos domingos, os coroinhas eram quatro e as tarefas ficavam mais fáceis.

Cada coroinha vestia uma capa com a cor indicada no anuário das missas. Mas sempre existia a distribuição dos postos dos coroinhas no altar pelo conhecimento de cada um. À direita do padre, ficava Tonhe Gordo, a esquerda era a minha posição e os dois restantes apenas seguravam uma tocha e observavam os movimentos como verdadeiros aprendizes.

Tivemos dois bons professores. Fomos formados por Guido e por Vicente, sacristãos anteriores.

Mas, nem tudo era trabalho. Aos domingos, a gente viajava para o interior do município. O padre Honorato havia comprado uma Vemaguete e Chinha era o motorista preferido dele. Andávamos por Duas Vendas, Rio das Mulheres, Morrinhos, Bom Jesus, Amianto, etc. Nesses lugares, a gente ainda lia a epístola.

Lembro bem das missas na mina do Amianto. Existiam uns franceses que faziam questão de oferecer um bom vinho. Aquilo, naturalmente, fazia com que o padre se estimulasse a voltar muito breve.

Bom mesmo era viajar para as cidades vizinhas nas épocas das festas dos padroeiros: Boa Nova, Ibicuí, Planalto, Iguaí, etc. Sentávamos à mesma mesa dos padres e o almoço era farto. Em Planalto, o almoço era na casa de Maria Padre. Em Boa Nova almoçávamos na casa do Padre Vicente e em Ibicuí, na casa do irmão do Padre Honorato.

Tonhe Gordo se afastou do trabalho de sacristão. Eu continuei um pouco mais e abandonei o posto bem na época em que a moda era usar camisa “cacharrel”. Já estava na idade de fazer farra e este posto não era condizente com minha nova atividade. Ganhei uma camisa “cacharrel” amarela e daí por diante o Padre quando me via dizia “camisa amarela, você abandonou a igreja”.

Fizemos os cursos de admissão e Ginásio juntos. Fomos bons alunos e sempre conversávamos longamente todas as vezes que nos encontrávamos, fosse na Festa ou na UPB, aqui em Salvador.

Quando completamos os 30 anos de Ginásio, na emoção do discurso, mencionei que aquela nossa turma estava dando um exemplo grandioso de união e que nela havia dado de tudo e, certamente, dali sairia um governador. Tonhe me confidenciou que o lugar dele era junto ao povo de Poções. Poucos meses depois, num ato de extrema infelicidade, ele se foi. O sucesso e o fracasso andam de mãos dadas.

Sendo apolítico e analisando apenas como amigo, sinto orgulho de poder ter convivido com uma pessoa com o brilhantismo de Tonhe, que se comparado, já demonstrava nos pequenos atos naquela convivência religiosa.

Mas somos apenas passageiros nesta vida. Não podemos apostar. Podemos viver e enquanto isto brilhar. Assim ele fez por Poções e não foi à toa que manteve o slogan de “Poções, o brilho do Sudoeste”.






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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Rua da Itália

Quando ainda escrevia no site Terradodivino, recebi o e-mail de uma leitora de Itabuna que se dizia impressionada pelo amor que nós, poçõenses, temos pela cidade. É verdade. O contexto e o tema sempre são os mesmos.

Numa cidade pequena, convive-se durante anos com o mesmo padre, prefeito e amigos. Freqüenta-se o mesmo bar e joga-se no mesmo campo de futebol. As raízes, naturalmente, fortificam-se e tornam-se sólidas a essa terra natal.

Evidente que todo interiorano tem a sua história. Poções teve histórias que diferenciaram tantas gerações. A paixão pela Festa do Divino vem da possibilidade e vontade de tantos se reencontrarem. Por isso, somos tão reticentes às mudanças e a evolução da mesma. Cada ano será um momento novo e vai se perpetuar nas mentes das novas gerações.

Mas, na minha cabeça, povoa a Rua da Itália, a rua onde nasci e fui criado em meio a tantas batalhas de badoques travadas pela geração anterior, a de Eduardo Sarno, como bem descreve no seu opúsculo lançado drante a Festa do Divino de 1988 e no blog http://www.familiasarno.blogspot.com/ . A minha geração já usava badoques para caçar passarinhos, calangos e derrubar frutas. Lógico que Antônio Celso Sarno levou mais tempo dando umas badocadas na gente. Mas, a rua fascinou por longo tempo e nossas histórias mostram esses aspectos em épocas diferentes.

Eu me lembro de uma Rua da Itália mais moderna, começando na esquina do Beco Apertado - a esquina da Farmácia de Dr. Ari Alves Dias.

Subindo a rua, sobre o passeio de ladrilhos furadinhos, ao lado da farmácia, existia a coletoria estadual onde passaram coletores como Rufino, Carlos Rizério Lima, Luiz Ribeiro, Badinho Marques e outros.





Fernandão Schettini, filho de Rafael, já tomava conta do armazém, que era um ponto de comércio de peles e mamona. A relíquia de cor verde ficava estacionada no interior – uma camionete americana da marca Fargo. Lembro do velho Rafael Schettini, com vistosos suspensórios, calça branca e gravata, sentado no escritório.

Ao lado do armazém, a casa de Dôca. Tinha uma oficina na garagem lateral e uma borracharia comum aos filhos – as forças dos pneus eram por ordem de chegada – cada filho tinha a sua vez e remuneração própria. Convivi com Tonhe, Paulin, Bada, Eraldo e Zé. Marcos, Marília, Adriana e Alex foram da geração mais nova. Eram constantes as presenças de Jeep´s, Rurais Willys e jipes Land-Rover de capota metálica, todos para consertos nas caixas de marchas e/ou descarbonização de motor. Acompanhava as desmontagens peça por peça. Vem daí o meu interesse e a iniciação na mecânica.

A casa deles era ligada à nossa. Ficávamos conversando horas dentro dos jipes e simulando as marchas. Vez ou outra, um jipe descia a ladeira e, sem freios, ia parar no posto de Miguel Labanca. Dôca balançava a cabeça, mandava empurrar pra pegar no “tombo” e novamente estacionar na frente da casa.

Já no primeiro ângulo da rua, começava o armazém de Fernando Schettini, filho de Miguel. Imensas pilhas de sacos de café e mamona para serem comercializados, mas antes o “caumonio aí” rolava solto. Os carregadores tinham trabalho intenso.

No mesmo prédio do armazém funcionava a oficina de rádios de Carlito Torres. Carlito, além da função técnica, tinha uma missão importante e interessante – era juiz de paz. Casais que brigavam eram apaziguados por ele.

A casa de Zóstenes Vaz era o ponto de apoio das nossas brincadeiras. Lá fazíamos circo, acampamento, fábrica de doces, balas e extrato de tomate. Zostinho, seu filho, era o estrategista e empreendedor da turma. Todo jogo de memória (resta 1, xadrez, etc.) era trazido por ele quando transitava em Salvador.

Minha segunda casa era a de Corinto Sarno, meu tio. Como os netos dele só apareciam uma vez por ano, eu dominava todos os espaços. Eles viajavam muito para Salvador e me davam a tarefa de “dar milho para as galinhas”, colher as goiabas, as imensas mangas e as uvas. Em troca, eu podia sentar na cadeira de balanço e ficar horas ouvindo a Rádio Globo até que se iniciasse a “Voz do Brasil”.

No beco ao lado, só havia o escritório da Coelba, que ficava logo atrás do cine Jóia, um imenso depósito de materiais de Fidélis do Arroz, onde hoje é um banco.

O calçamento chegava até a entrada do beco da usina de beneficiamento de arroz. O prédio da Prefeitura era uma obra imponente e abrigava o escritório do IBGE, que era chefiado por Vicente Ventura, um ferrenho vascaíno e também locutor do sistema de alto-falantes.

No sentido contrário, do outro lado da rua, a Igreja Batista. A casa de seu Alcides Fernandes era bem ao lado da Igreja.

Defronte a Prefeitura, a casa de Luiz Sarno. Ali era uma central de distribuição do leite que vinha da Fazenda Caititu na camionete Ford amarela. Sem dúvida, o melhor quintal de Poções - tinha todo tipo de frutas. Uma construção chamava a atenção – a cobertura da garagem era um belvedere com a vista maravilhosa para a Lapinha e a baixada das gramas.

Descendo no sentido da praça, a casa de Carlito e Uchinha. Ela foi a responsável pela idéia de vender pastéis em tabuleiros de madeira, iniciando um novo sistema de vendas em Poções. Jorge (Diucha) era da outra geração, mas gostava de andar com a gente.

O fórum era uma das atrações da rua. Da janela, sobre paralelepípedos amontoados, assistíamos aos grandes júris com a participação de Ernesto Benedictis, Ruy Espinheira, Carlos Nápoli e tantos outros que ali passaram. Eram brilhantes com aquelas togas. Também ali se guardavam e se apuravam os votos das urnas eleitorais.

Depois da ladeira que dava nas gramas, tinha a casa de Américo Libonati. Uma moderna construção com amplas salas e quartos. Brincávamos muito com Zé Américo nas suas férias. Sérgio e Paulinho ainda eram crianças.

A casa de Vicente Palladino tinha uma particularidade. Ele e Dona Teresa só tiveram filhas e todas usavam cabelos longos.

A casa de Fernando Schettini e Stella também era uma construção em estilo moderno. O movimento maior era no varandão, quando os netos Benício e Rafael Frazão, Rita e Rafaelzinho apareciam nas férias. A casa ficava sempre aberta e a varanda cheia com as presenças de Deolino Frazão, Dona Teresa, Elier Barreto e Dona Adelina. Marco Antônio e Rafael eram pequenos. Essa casa era o nosso quartel nas brincadeiras de bandido e policia.

Devido ao desnível da rua da Itália, estas três casas possuem áreas de serviços e porão.

A casa que pertenceu a Valentim Sarno fora vendida a Ed Porto Alves e cessaram as possibilidades de exploração do quintal.

Emilio Sarno era o próximo vizinho. Também pouco freqüentei a exceção dos aniversários ou nas visitas aos tios.

O casarão dos Schettini ainda permanece com as mesmas características. O portão, com as iniciais de José Schettini, impressiona pela beleza da arte. Quando eu abria a porta de casa, avistava a figura do Seu José, no degrau, com a capa colonial. Soube que a capa está com Remo e quando for a Poções ele prometeu que vai vestir para refazer a cena histórica.

Outro local onde circulava livremente era a casa de Fernando e Aracy Schettini. Sempre os acompanhava nos jogos do Atlético no campo da Rua de Morrinhos e no cine Santo Antônio, onde as cadeiras da terceira fila, ao lado da parede, eram reservadas para nós. Zé Marinho era o grande amigo contemporâneo, mas eu era colega de Fernandinho. Pepetinha foi minha professora de Português na banca e no ginásio.

Não posso esquecer de Dona Fetinha Marinho, a mãe de Aracy. Ela foi a responsável pela introdução religiosa de muita gente boa, com a condução impecável da Cruzada Eucarística. A pequena ala direita do altar mor da Igreja Matriz sempre foi o local da “cruzadinha”, como ela mesma chamava.

Dezinho trazia o leite da fazenda deles em Morrinhos para ser comercializado em Poções. Sobre um jegue, era pouco provável ir a Morrinhos e não encontra-lo na estrada.

Finalmente, no último prédio do outro lado da Rua da Itália, a Tipografia de Alcides “Batatinha”. Ali eu matava o meu tempo livre. Admirava todas as funções. Todo mundo fazia tudo. Zé Armando era o tipista principal e eu ficava admirando os clichês prontos com as letras montadas ao contrário. Joel de Jacó operava a máquina de impressão, Jessé dava o acabamento final na guilhotina e João Batatinha, além de excelente jogador de futebol, supervisionava a tudo e a todos. O barulho da máquina de estampar e o mecanismo de renovação da tinta me fascinavam. Dali saiam os panfletos dos políticos, os talões de notas e um periódico com notícias de Poções redigidas pelo Seu Alcides.

O sobe e desce da Rua da Itália ainda é muito interessante. Grande parte da vida da cidade sempre circulou por ali. Circularam gerações, circulou a história de Poções e circulará o futuro.

Assim, a gente entende por que o amor que temos por essa cidade é fraterno e eterno, como numa grande família. Mas ainda sinto saudades das fogueiras de São João, da tradição dos envelopes com dinheiro na passagem de ano, da exibição de presentes no dia seguinte à noite do Natal e dos vatapás e carurus que ainda recebemos dos nossos vizinhos na Semana Santa.

Um dos poucos símbolos da presença italiana continuará aí, resistindo. O comércio avança sobre ela. Os filhos da Rua da Itália estão pelo mundo afora. Mudaram a placa para Rua Itália. Não mudaremos a história. As minhas lembranças serão eternas.

Serão eternas, também, as lembranças dos meus amigos de infância, alguns deles referenciados acima.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Félix Magalhães - 80 anos

Através de Eduardo Sarno, fui informado dos 80 anos de Félix Magalhães, ocorrido em Poções no último sábado, 16.
Registro o fato com imensa satisfação e parabenizo essa figura ímpar, o maior historiador da cidade, descendente dos primeiros que ali chegaram e fundaram a nossa Poções.
Aguardamos que se digne nos presentear com um livro sobre a nossa história. Um presente que os órgãos públicos de cultura precisam incentivar.

Parabéns Félix!!!
(Foto: Eduardo Sarno)


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"Só mesmo em Poções" - Parte 1

Viajar pela Real Bahia e Penha
A Real Bahia era uma empresa de ônibus que fazia a linha para Salvador. Foi comprada pela Empresa de Ônibus Nossa Senhora da Penha, que operava a linha para o Rio de Janeiro – na época, a propaganda da Penha era “Vá e venha pela Penha”, e diziam que os ônibus eram os “tapetes mágicos” devido à introdução da suspensão a ar. Durante a viagem, ficava lendo o bilhete: Lia as regras das condições do seguro. Me chamava a atenção o nome da rua da garagem: Rua Carmosina, S/N (a rua fica na Cidade Nova, entrada pela Avenida Barros Reis e ainda existe a garagem de uma outra empresa).

Jogar três marias
Todo mundo tinha esse vício. Nem sempre brincadeira de mulher. Era jogado com cinco pequenas pedras comuns, muitas vezes substituídas por sementes de mucumãs. Sempre rolava uma aposta – cada partida valia alguma coisa;

Jogar triângulo
Interessante, o triângulo era apenas a figura geométrica riscada no chão. Prendíamos um prego sem cabeça ou um arame grosso em um pedaço de madeira e estava feito um triângulo. Cada um tinha a sua vez de jogar e a intenção era dar uma “garganta” no adversário (a garganta era apertar a passagem por onde o adversário sairia);

Dá o nó
Quando a gente jogava bola, trocava a roupa no meio da rua mesmo e fazia um montinho. Passava um esperto e pegava a perna da calça e dava um nó cego. Pra sacanear, muitas vezes mijavam sobre o nó.

Caçar borboletas
Ali na baixa das gramas, havia muita borboleta e um caminho pelo fundo da casa de Luiz Sarno, saindo lá na Lapinha, no fundo da Escola Alexandre Porfírio. Fazia “banca” com a professora Lia Paradela e ela colecionava borboletas. Sempre carregava um vidro e colocava os insetos caçados para presenteá-la. Era puro puxa-saquismo mesmo.

Rádio Mundial
Existiam dois programas de gêneros totalmente diferentes, mas de grande audiência. O primeiro deles era o religioso, de Alziro Zarur. Os mais crentes colocavam um copo de água sobre o rádio e o mesmo tremia quando Zarur falava. Depois, ao final do programa, eles bebiam a água e se sentiam aliviados dos seus sofrimentos.
Outro programa era do dj Big Boy. Uma sensação que acontecia todos os dias às 18 horas. Uma verdadeira iniciação ao rock. Ficava sentado na varanda de casa e através do meu pequeno rádio portátil Semp, quatro faixas, ouvia o programa. À noite, os fãs de Big Boy comentavam sobre as músicas tocadas.

Comer o pão de Arlindo
Sentar no banco do jardim e ficar conversando durante horas era a nossa diversão. Quatro da tarde, esperávamos pelo pão de Seu Arlindo. Era a hora que saia a primeira fornada e a temperatura cuidava de derreter a manteiga. Na época, a Padaria Bom Jesus acabara de ser transferida para a praça.

Jogar bilhar no Bar de Duca
O jogo de sinuca era bastante conhecido nos bares de Mera, Arnóbio Andrade, Duca, Tonhe Luz e outros da cidade. Jogar bilhar era um charme diferente e, quem aprendia, melhorava a qualidade no sinuca. Eram três bolas, uma vermelha e duas brancas (uma delas tinha uma marca preta). Pra quem não conheceu, a pessoa tinha que escolher uma bola e bilhar nas outras duas. Exímios jogadores, dava gosto: Pedro França (pai de Sandoval), Fernando Schettini (Bigode), Pedro de Anália, Cidinho músico, or irmaos Palladino e outros tantos.


O poeta Bocage
Bocage, o poeta português, teve o seu nome trocado em Poções. Passaram a chamá-lo de Bocais. Portanto, todas as histórias e piadas sobre sexo tinham como personagem o velho Bocais. E haja história!

Quem souber mais, me conte.


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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Mentira tem perna curta

Quando mudei definitivamente para Salvador, morei uns dias no pensionato de Dona Anísia, ali na Rua Direita da Piedade, 9. Eu já conhecia Salvador muito bem, vinha aqui passear, comprar pilhas para o aparelho de surdez do Padre Honorato e as turmas de amigos faziam ponto na entrada da Araújo Pinho, no bairro do Canela, e no Edifício Cidade de Saúde, defronte ao Colégio Severino Vieira, onde morava a família Exler, os alemães de Poções.

Era hora da verdade. Tinha que encarar o curso de Estradas na Escola Técnica Federal, criar uma nova turma e fazer jus por ter passado no vestibular. Do pessoal do Ginásio de Poções, só restou meu primo Miguel Sola, que passou para o curso de Mecânica. Antes, fomos informados que deveríamos "raspar" a cabeça, pois o trote aconteceria durante a matrícula ou nos primeiros dias de aula. Assim, poderíamos passar despercebidos.

Chegou o dia da primeira aula. As turmas eram de 40 alunos por curso e a professora pediu para que cada um se levantasse e fizesse breve apresentação pessoal dizendo onde havia estudado anteriormente. Nas vozes de cada colega, não identificava ninguém que tivesse vindo do interior. Achei que deveria seguir a mesma linha – não dizer que era de Poções - talvez por timidez e mentir seria mais fácil driblar a pressão de momento.

Chegou a minha vez quando mais da metade da turma já havia se apresentado e as falas iam ficando mais reduzidas. Eu disse: “sou Luiz e estudei no Colégio Severino Vieira”.

Foi o bastante para ouvir a voz da minha colega Acácia dos Santos Gomes: “Seeeveeerino Vieeeiiiira? Eu também estudei trêêês anos e nunnnca te vi por lá”. O chão abriu e confesso que quase chorava – não podia! Pensei rápido e respondi gaguejando: “Éeee, eu estudava no turno da noite, deve ser por isso” Não é que a mulher insistiu e respondeu: “Eu também estudei a noite”.

Com isso, aprendi o tamanho e o formato das pernas da mentira pública – curtas e tortas. Passado aquele momento de alívio da pressão de Acácia, eu caí na realidade e fui perceber o que tinha feito com o CNEC, o Ginásio de Poções. Que consideração barata e que falta de humildade.

Chegou o momento de refazer a “área” e caí em campo. Fui descobrindo que muitos haviam mentido da mesma forma que eu. Leones era filho de Simplício Colombo Gomes, então prefeito de Tapiramutá. Nabor veio de Serrinha. "Todo Feio", de Alagoinhas. "Do Molho" (o cara usava brilhantina no cabelo), era de Catu. E aí vai. Tinha gente de Caculé e Brumado.

Como a Escola era no Barbalho, próximo da antiga Rodoviária, toda sexta feira a gente descobria mais um mentiroso pegando o ônibus para o seu interior.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tiro de Guerra

Se tem uma coisa em Poções que eu não fiz foi “servir o Tiro”.

Quando me alistei no serviço militar, já morava em Salvador e fui incluído no “excesso de contingente”. Cheguei perto. Por uma questão banal, o soldado que organizava as filas não foi com a minha cara e me jurou, dizendo: “Pode se preparar, eu quero ver você limpando canhão no Forte de Mont´ Serrat!” Já havia tomado as medidas do capacete, botas e farda.

Juro que perdi a vontade e fiquei me lembrando do Tiro de Guerra 135. Senti que daquela forma não daria certo. Aí, um Tenente de nome Lorenzoni, viu as medidas na ficha e perguntou por que queria servir. Respondi que gostaria, mas estava cursando a Escola Técnica e que um soldado havia jurado o meu destino. O tenente, também filho de italiano, entendeu a minha situação, me dispensou da tarefa e frustrou a vontade daquele soldado predestinador.

Quem também suou frio nesse dia foi Ebenezer Fagundes Ferreira (Déo). Juntos, cruzamos os dedos e aguardando a confirmação que estávamos fora das listas de convocados. Já na semana seguinte, liberados, a gente estava jurando a bandeira na 17ª CSM, na Barroquinha, lembrando do soldado.

Ainda em Poções, tive contatos com algumas turmas do TG. Nas tardes de sábado, o Sargento Severino dava “banca” da língua francesa depois da “instrução aos atiradores”. Eu chegava cedo e ficava esperando a instrução terminar. Na verdade, gostava mais de ouvir as instruções do que assistir aula de Francês. Terminada a sessão, os soldados eram liberados para engraxarem os coturnos (botas), pois no domingo deveriam assistir à missa celebrada pelo Padre Honorato. Com essa rápida convivência, eu gravava os números deles, que era como se identificavam.

O contato maior era nas comemorações cívicas, principalmente nos 21 de abril e 7 de setembro. Logo de manhã, a turma do Ginásio se concentrava no CNEC. Lá estava Renan Macêdo organizando as filas por ordem de tamanho, com o grupamento do pessoal do curso Normal à frente, os homens na seqüência e depois as mulheres. Entregava as bandeiras para os divisores de pelotões e então partíamos para nosso primeiro destino que era a porta do TG. De longe, já avistávamos os atiradores em posição de “descansar”, com os fuzis agrupados em três, desde as 6 da manhã.

Todos nós aguardávamos ansiosos pelas chegadas de Francisco Paradella, Diolino Luz, Monsenhor Honorato, Irmã Bernadete, o próprio Renan, Dr. Ernesto Benedicts, Tenente Celino, Dr. Irundy, Pastor Isaías e demais autoridades. Com eles, estavam representadas as classes civis, militares e eclesiásticas. Se faltasse um, a gente tinha certeza que a cerimônia ia ter um discurso a menos.

Na seqüência da cerimônia, chegava a Bandeira Nacional. Era trazida de dentro da sede do TG pela guarda especial comandada pelo Sargento Severino, vestido com a roupa de gala e lapelas cheias de gemas. O silêncio era total e escutávamos o barulho dos coturnos batendo ao chão, os comandos de “sentido” e “apresentar armas”. A bandeira era hasteada e o corneteiro se posicionava para anunciar a hora do hino nacional.

Renan assumia a posição de mestre de cerimônias e chamava as pessoas para o discurso. Quando os oradores oficiais terminavam, ele anunciava: “a palavra está franqueada”, todo mundo ficava na expectativa para saber quem seria o próximo orador. Sempre aparecia alguém sacando um discurso do bolso e arrumando os papéis na mão. A gente já sabia de cor (e salteado) a introdução do mesmo.

Beirava às 10 da manhã, sol de rachar. Um barulho e movimentação anormal no meio dos atiradores. Era um deles que não aguentava e caia ao chão. O barulho era peculiar – primeiro, o fuzil caía e, na seqüência, o corpo desabava. A gente espalhava entre os colegas – o 19 deu um “abacate” (acho que o termo abacate foi aplicado devido à cor verde da farda e o cidadão espatifar ao chão).

Discursos encerrados, todas as entidades presentes estavam liberadas para o início do desfile. A depender da ocasião, existiam estudantes vestidos de índios, caçadores, atletas, sem contar as bicicletas enfeitadas de papel crepom. Era uma festa. Além do Tiro de Guerra e alunos do Ginásio, desfilavam as escolas primárias, os times de futebol e algumas associações de classes. Era tanta gente que, enquanto o primeiro pelotão passava em frente ao posto de Miguel Labanca, ainda havia gente saindo da frente do TG.

Desfilar nas ruas da cidade tornava-se uma demonstração de civilidade e respeito à pátria. Passar a bandeira e um cidadão ficar de chapéu ou sentado? Nem pensar. Não saber cantar o hino nacional? Imperdoável. Qualquer gesto da população contra estes preceitos era de imediato observados por nós, estudantes.

O dia de marchar era esperado durante todo o ano, dia da nossa demonstração de civilidade. Hoje, essa simbologia acabou. Passamos a assistir, impotentes, a violência desenfreada, a impunidade, o descrédito da classe política e o império da lei do mais forte.

Mas acho que continuamos a marchar. Estamos marchando para o fim do mundo...

“Essas lembranças são dedicadas a Jônatas Fagundes Ferreira (Jota). Um grande amigo, exemplo de simplicidade, comandante do “fim da fila”, companheiro de tantas horas e meu insistente professor de corneta. Pessoa de humor contagiante entre os nossos amigos do Ginásio e os de convivências comuns.

Nos deixou precocemente. Restam as lembranças e as saudades!”




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domingo, 13 de dezembro de 2009

Feliz 1973

Revendo fotografias de 1973, fui buscar no tempo (aliás, no Google) o que aconteceu naquele ano:

- Morreram três Pablos – o Neruda, o Casals e o Picasso;

-A Grã Bretanha, Irlanda e Dinamarca passaram a integrar a Comunidade Européia;
- Armando Marques errou a contagem dos pênaltis na partida final entre Santos e Portuguesa, que acabaram campeões paulistas daquele ano.
- Ocorreram seis Ba-Vi´s – Vitória ganhou três e o Bahia apenas um. O Bahia foi o campeão;
- O piloto François Cevert morreu no treino do grande prêmio da F1 dos USA;
- O estudante Alexandre Vannucci Leme foi morto por policiais do DOI-CODI;
- Polícia Federal proibiu 46 revistas estrangeiras e 14 nacionais;
- O General Médici era o presidente da República e assinou o acordo para a construção do gasoduto entre Santa Cruz de la Sierra e a Refinaria de Paulínia-SP;
- ACM era o Governador da Bahia.
- Surgiu o grupo musical Secos e Molhados. Riachão lançou seu primeiro LP;
- Salvador Allende, socialista chileno, foi morto em 11 de setembro (!) pelas forças comandadas por Pinochet;
- A banda Led Zeppelin fez a mais lucrativa turnê da história – 3 milhões de dólares;
- A inflação no país era de 15%;
- As reportagens internacionais chegavam ao país via Varig;
- Raul Seixas lançou o LP Krig-Há Bandolo;
- Lula era secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo;
- O cantor Evaldo Braga morreu vítima de acidente de automóvel;
- O Maverick e a Brasília tiveram as suas fabricações iniciadas;
- Pedro Alves Cunha assumiu o segundo mandato como prefeito de Poções.

Feliz 1973? Foram tantas as notícias ruins. Passávamos por uma situação que chamavam de “anos de chumbo”. A imprensa era muito perseguida, havia censura para tudo que se escrevia.

Como na maioria das cidades do interior, o rádio trazia mais rapidamente as notícias. A televisão em Poções já era uma realidade, mas vivia constantemente fora do ar devido às retransmissões torre-a-torre. Uma ligação telefônica demorava dias para ser completada. Ninguém conhecia um micro-computador.

Poções, na verdade, era um mar de tranqüilidade para nós jovens, mesmo com a repressão às ideologias políticas dos militantes no país e pela ausência de recursos tecnológicos.

Passávamos as férias entre a sinuca do bar de Duca, o pão com manteiga de Arlindo, o banho de rio na Cachoeirinha e, à noite, improvisávamos uma seresta no Coreto ou no jardim da praça. Outra opção era fazer uma “festa” na casa de alguém - bastava uma radiola portátil, alimentada a pilha. Eram ambientes propícios para “fumar escondido” e beber cachaça, literalmente.

Nossa turma usava cabelo comprido até os ombros ou o famoso “black-power” no estilo Antonio Celso, penteado rigorosamente com aqueles pentes de arame chamados de pata-pata. Na moda, a camisa de “banlon” com gola cacharrel e o cinto largo, de couro, com uma fivela imensa na calça apertada e com a boca de sino.

Apesar dessa descrição de jovem avançado da época, vivíamos um tempo onde as famílias participavam de tradicionais festas como o Reveillon e o Carnaval, sendo muito comum fazerem a passagem de ano no clube social. Costumeiramente, as mesas eram compradas sempre pelas mesmas famílias por causa do relacionamento entre si e da possibilidade de juntar uma à outra. Só modificava essa posição das mesas quando na festa anterior houvesse rolado uma briga e, nesses casos, a própria direção do clube se encarregava de fazer a estratégica mudança, evitando o encontro dos desafetos.

Era muito bonita a confraternização à meia noite. Até o final da festa, todos já deveriam ter dado um aperto de mão ou abraço e o desejo de um feliz ano. Renovava-se a amizade, o respeito e o apreço pelo outro para mais um período.

Percebo que essa atitude perdura-se até hoje. Quando encontro pessoas daquela época, parece que elas têm o mesmo sentimento de que o tempo não passou.

Feliz 1973. Feliz 2010 a todos nós.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Nós e os doidos...

Lendo o livro “O Futuro da Humanidade”, me lembrei daqueles que chamavamos e achavamos que eram “doidos” em Poções. Durante as férias, enquanto não tínhamos nada para fazer, ficavamos no jardim conversando com eles e procurando saber e entender por que haviam chegado naquele ponto. As histórias de vida eram muitas e, como no livro, o mundo deles também totalmente diferente do nosso. A “humanidade” não soube e não procurou entende-los. Não foram resgatados por nós. Certos ou errados, viveram à margem da sociedade.

Restou saber em qual Poções eles viveram. Se as suas histórias não foram compreendidas, eles passaram a fazer parte da história da cidade, naturalmente.

Quem vai dizer que existia maldade em Isaulino? Usava uma calça sem cinto, apenas duas reatas amarradas com um barbante e, muitas vezes, suja de fezes. Descalço, pés rachados, camisa toda rasgada. Uma mão segurava a calça e a outra carregava o saco cheio de latas, puxando um dos pés para trás. O caneco era para pedir água ou café. Possuía olhos claros, falava pouco e baixo. Gesticulava na maioria das vezes como a pedir dinheiro e comida.

Menos maldade havia em Cumpadinho. Sol a pino, vestia um casaco de frio. Vivia sentado na calçada defronte a casa de Fernandão, esperando por um prato de comida que era dado por Dona Marianina ou por tia Stela. Cabelos brancos penteados, ele desaparecia nos finais de tarde.

De uma agressividade aparente, com um porrete na mão, Paulina usava para se defender de possíveis brincadeiras de quem ela atacava com seus discursos. Também carregava um saco e nele a sua vida. Falava sem parar, cabelo envolto em um velho lenço furado. Diziam que Paulina era uma pessoa normal e que depois ficou doida, de repente. Foi inspiração para um poema de José Onildo que se chama “A noiva da cidade”. Nunca consegui lembrar se Paulina era a mascate que comprava mercadorias em São Paulo para revender de porta em porta – tenho dúvida.


Se havia uma doida simpática ela se chamava Josina. Muitas vezes acompanhei suas conversas com a minha irmã Elisa. As duas tinham uma admiração especial e pegava carona nas histórias. Sofria de uma grande depressão pela perda do marido. Transferiu toda carga emocional para o filho Nuguinha.

Outro dia, em Morrinhos, encontrei com Ivan, que também era chamado de doido. De doido não tem nada. Talvez seja quem acha que ele não gira bem. Passou anos trabalhando em São Paulo. Tremenda lucidez, queimado pelo sol, diz que ganha a vida catando ferro velho. Na verdade, tem sua rocinha de feijão.

Sentado na porta do bar de Duca e todo maltrapilho, a gente encontrava Dió. Madrugada, quando o ônibus ainda entrava na cidade, era a única alma viva sob aquele frio de rachar. Caolho, diziam que era a marca de valentia. Defendeu-se de uma invasão na sua fazenda e levou um tiro no olho. Pouca conversa, adorava receber um cigarro e carregava uma lata para tomar café. Durante o dia ele sumia.

Quem dissesse “pára João” ao varredor de ruas mais simpático que Poções já teve, ia ver inerte a figura de João. E João só continuava a varrer se ouvisse o comando “varre João”. Se estivesse empurrando o carrinho de mão, acontecia a mesma coisa – ficava inerte com o carrinho no ar até que alguém dissesse o novo comando.
Maldade em João? Não, maldade nossa.

Toda quinta feira era o dia oficial da esmola, uma convenção que se perdeu no tempo. Lá na loja, na gaveta do dinheiro, já estavam separadas as notas e as moedas para as esmolas. Madalena era uma pedinte que andava descalça e apenas levantava a mão, sem dizer uma só palavra. O gesto era tradicional e só baixava o braço depois que recebesse a sua parte.

De nome exótico, aparência jovem, sempre penteado a moda Elvis, Véi de Zé Galo era o galã (nada a ver com o galo). A fama de tarado ficou e toda mulher tinha medo de encontrar com Véi na rua, principalmente no Beco dos Artistas. Contam da sua relação com um jumento e que fora “abotoado”. Ao passar pela Cônego Pithon, gritou socorro a Liligo Moraes e foi instruído de como se libertar. Seu concorrente de fama de tarado era Tonico. Esse aí, subia e descia a Rua da Itália umas trinta vezes por noite. A fama e a ameaça eram folclóricas, pois nunca se soube de registro oficial de algum “fato consumado”.

O certo é que os Isaulinos, Cumpadinhos, Paulinas, Josinas, Ivans, Diós, Madalenas, Véis de Zé Galo e Tonicos da vida vão continuar a viver marginalizados pelo mundo afora, sem a oportunidade de amenizarem a dor, recuperarem a auto-estima e transformar os sentimentos em esperança.

Assim é a humanidade.

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sábado, 28 de novembro de 2009

O Santo e o Estudante


Nos dias de prova, o certo é que minha mãe acendia uma vela para Santa Rita e eu colocava um “santinho” no bolso da camisa da farda. O santo era São Domingos Sávio.

Coitado, botava a culpa nele sempre que tirava notas baixas. Minha mãe insistia em dizer que eu não havia rezado direito para o santo. Desde pequeno, era costume rezar antes e durante as provas.
Deusdinea Luz - no encerramento do curso primário (ao fundo, a profa. Bohêmia Marinho)

Fui um aluno regular a médio – significava que não tinha muita variação – era mesmo na média, o suficiente para passar de ano. Sempre estudei em vésperas de provas. Isso era ruim, mas confiava no Santo porque acreditava que não me deixaria na mão.

Eu e São Domingos Sávio fomos sócios por um bom tempo. Freqüentamos as mesmas carteiras e nunca fomos reprovados. Passamos por Bohêmia Marinho, Maíta Curvelo, Professora Zirinha, Lêda Sampaio, Avani Mattos, Deusdinéa Luz, Getulina Carvalho, Stela Schettini, Glorinha Macêdo, Miriam Mascarenhas e Lia Paradela, todas no primário. Interessante, não havia homens ensinando no primário naquela época.

O que estudamos deu para fugir das palmatórias. Ajoelhar em milho já não existia mais. Pegamos uns castigos de escrever a mesma frase mil vezes, do tipo “Não devo desobedecer a minha professora”. Tanta escrita que o Santo, nessa hora, não fazia a parte dele. Dizia que era a minha vez de treinar a caligrafia.

O primário passou e fui cursar o ginásio. Na companhia do pessoal mais velho, não “colava” mais essa história de santo no bolso da camisa. A vela ainda ficava acesa, mas escondia o santo na carteira ou dentro do caderno.
Depois, no vestibular, o negócio era estudar ou estudar. Fui para o “cursinho” reforçar a minha base e deixei de culpar o pobre santo.

Com ou sem ele, o certo é que construí uma base educacional com interesse e dedicação. Melhor ainda porque os meus professores foram imbuídos na formação de cidadãos. As escolas não faziam diferenciações sociais e os princípios morais e éticos eram respeitados. Alunos e professores faziam as suas partes.

Eu agradeço a educação que recebi dos meus mestres professores poçõenses, inclusive aqueles do ginásio e que sempre cito nas colunas. Sem eles, não teria a capacidade de desenvolvimento mental, intelectual, social e profissional, principalmente.

Minha velha tia italiana, Miminna, de 99 anos, surda, mesmo sem nunca ter arredado o pé da sua cidade natal, diz que “o mundo mudou, porém os professores são os mesmos”. Uma verdade que deve ser sempre reavaliada e que mostra toda a importância e responsabilidade da classe.

Mas não posso deixar de revelar dois segredos:

Na dúvida entre a minha capacidade e a do santo, ainda tenho a mania de carregar um “santinho” no bolso. Fui conferir ali na carteira e tem o de Santa Edwiges, que me foi dado pela professora Heloísa Curvelo, há mais de 12 anos. Meio supersticioso, não sei bem a hora em que devo trocar um santo por outro mais novo. Enquanto isso, Edwiges já está toda desgastada, mas continua sendo a minha sócia e consultora nas questões de dinheiro.

O segundo segredo (foi minha irmã quem me alertou), é que continuo rezando a oração do Santo Anjo do Senhor como se fosse a de São Domingos Sávio:

“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine”.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os filmes de legendas vivas

O Cine Santo Antonio foi o cinema que marcou época em Poções. Fisicamente, limitava o final da parte larga da atual Av. Olímpio Rolim com o início da Rua Apertada, que era um funil até chegar na subida da Igreja. Além da exibição de filmes, vários artistas famosos se apresentaram no seu palco, a exemplo de Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Mauro Figueroa, Valdick Soriano, Nelson Gonçalves e tantos outros.

Era o tempo da transição do preto e branco para o colorido. Os cartazes dos filmes ficavam na praça. Quantos letristas tiveram a chance de desenvolver suas artes nos cartazes – quem não se lembra de Dida, Pinho, Bartola e Tena?

Além de obras de artes, os cartazes destacavam filmes famosos como O Dólar Furado (Giuliano Gemma), El Dorado (John Wayne – a gente lia Jovane), Ladrões de Bicicletas (de Vittorio di Sicca), Tarzan (de Edgar Rice Burroughs com Johnny Weissmüller), Maciste (Bartolomeo Pagano), Quo Vadis (Robert Taylor), Dio Come ti Amo (Gigliola Cinquetti) e tantos outros como Ursus, Hércules, Sansão e Dalila, O Mágico de Oz, sem contar os filmes da Paixão de Cristo exibidos na semana santa. Em um dos cantos do cartaz sempre estava escrito – Technicolor ou Cinemascope – o sinal do avanço tecnológico.

Normalmente, de segunda a sábado, as sessões eram à noite – a chamada soirée. Domingo e feriado tinha também a matinée, onde muita gente aproveitou para começar a namorar naquela parte de cima que era chamada de camarote.

Falar de cinema em Poções, não se deve esquecer dos grandes administradores Fidélis Sarno (Fidélis de Boa Nova), Nicola Leto, Vavá e Tena, insistentes na manutenção das salas. Fidélis fundou o Cine Jóia (onde hoje funciona o Bradesco). Em outro nível, dois cineastas poçõenses marcaram os seus nomes no cenário nacional. São eles: Tuna Espinheira e Geraldo Sarno.

Do outro lado, na platéia, figuras marcantes como Lino Carregador e Seu Dôca (Florisvaldo Cruz Ramos), viviam as cenas como se fossem reais. Mas acho que Luiz Schettini Barbosa, o Luiz Bosteiro, foi o mais importante deste segundo grupo. Apesar de não ser artista, nem fundador e cineasta, foi o responsável pelas maiores “artes” dentro do Santo Antônio. Um dia, a gente se encontrou na festa do Divino e ele contou algumas das muitas estórias engraçadas. Uma delas era sobre as legendas vivas.

Naquela época, antes do filme, era costume passar o jornal com as notícias da Luiz Severiano Ribeiro e os gols do Canal 100. A mesma fita era passada na matineé e na soirée. Luiz assistia as duas sessões e gravava as imagens na cabeça. À noite, casa cheia, ele soltava as legendas.

Na primeira cena, o avião do presidente Castelo Branco pousava. A porta do avião se abria e aparecia a imagem do presidente acenando para os que estavam em terra. Luiz aguardava a imagem do presidente e antes do aceno, gritava: “e aí Castelo, não vai falar com os pobres?” O presidente acenava e a galera no cinema era um riso só.

Na segunda cena, já no meio do filme, Hercules fugia da perseguição de soldados dentro de um túnel. Ele para, olha para trás e continua a correr. Luiz fez a cena assim: Antes da parada de Hércules, gritou bem alto “Hércules, Hércules...” depois que o artista para, ele voltou a gritar: “Não é nada não, pode ir, pode ir...” Mais uma vibração do público.

Parte da história do cinema em Poções pode ser contada com passagens engraçadas como estas de Luiz e, sem dúvida, dos comportamentos de Lino e Dôca. Registro a lembrança do extinto cine Glória como uma evolução da época e o fim de um tempo substituído pelo vídeo-cassete e, mais recente, o DVD. Quem sabe, um dia, Poções pode ter um Shopping Center e voltar os tempos do cinema, como já acontece em Vitória da Conquista.
Leia nos Comentários a história que Jorge Bufão conta
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Chamuscão


Vinicius Dantas me escreveu falando do Chamuscão e pergunta se lembro de histórias daquele local. Tanto ele como eu, vivemos ali, momentos inesquecíveis. Nossa diferença de idade deve ser de aproximados 30 anos e significa que o Chamuscão reinou e fez história na vida de muita gente.
Defronte ao posto de Miguel Labanca, onde hoje é o prédio comercial que abriga a Ótica Poções e a Farmácia de Amorim, ficava o Bar de Duca, a Visgueira. Ao lado, havia uma ponta de terreno e Jorge Dantas resolveu fazer a Churrascaria Chamuscão. Foi construída no ano de 1970.

Fazer churrasco não era a praia de Jorge. Também não era a praia do morador de Poções sair para almoçar ou jantar. Não demorou muito e virou um bar, graças a Deus. O lugar passou a ser o nosso reduto, uma espécie de quartel general da noite (dia) da cidade.

De construção simples, paredes de bambu natural, piso cimentado de xadrez vermelho, mesas e bancos feitos de pedaços de troncos de eucalipto. Tinha sanitários decentes. O sistema de som era controlado de dentro do bar, onde Jorge administrava os dois negócios de uma só vez, através de uma estratégica porta que permitia a ligação entre os ambientes.

A primeira formação de garçons que me lembro foi Tonhá e Obed França. Eram dedicados e atentos a todas as mesas, com liberdade para opinar nas conversas. Jorge os ajudava e era mestre em servir cerveja: se havia duas pessoas ele trazia copos altos e esvaziava a garrafa de uma vez. Se fossem cinco pessoas, trazia copos menores e enchia todos também de uma só vez.

Sábado à noite, pelo menos, havia uma atração e o Chamuscão virava boate, com luz negra, entrada paga e mesas reservadas antecipadamente. Bastava baixar as janelas e se transformava no “ambiente fatal”. Num destes sábados, Ricardo Benedicts lançou o primeiro dos seus discos. O Chamuscão ficou mais famoso ainda. Sempre freqüentado e apoiado pelos principais artistas, poetas e visitantes da cidade. Sem dúvida, pelos melhores bêbados, também. Aliás, eu sempre achei que os nossos bêbados sempre fizeram sucesso porque eles eram bêbados conhecidos e não alcoólatras anônimos.

Marcávamos nossos encontros naquele espaço. Lá, curávamos a ressaca do dia anterior. Lembro do carnaval que Tonhe Banana (Antônio Fagundes Filho) passou em Poções. Fizemos um bloco de pouco mais de 10 pessoas e transformamos o Opala vermelho, de teto preto, em um trio elétrico. Praticamente alugamos o Chamuscão naqueles dias de festas.

Mas, temos que entender que o Chamuscão não representou apenas um bar famoso da nossa cidade. Posicionou-se como um referencial por permitir abertamente a freqüência masculina e feminina (tão liberal que a última mesa da direita era sempre ocupada por Daniel Rosinha, o primeiro travesti oficial e declarado de Poções).

Nossa juventude amadureceu mais cedo, rompeu o tabu de anos, onde beber em bar só era permitido para homens e em espaços chamados de “reservado”. A possibilidade de dar continuidade aos papos nascidos no jardim da praça era ali, no Chamuscão. Podíamos freqüentar até altas horas, sem qualquer preconceito ou julgamento devido à seriedade e respeito sempre impostos pelos Silva Dantas. Além do mais, podíamos, ainda, beber e deixar a conta pendurada e pagar por semana.

Valeu Jorge. Valeu Vinicius pela lembrança. Cabe a nós, saudosistas, confeccionarmos uma placa e afixar na parede do atual prédio:

“Aqui, durante anos, enquanto Chamuscão, viveu e cresceu a juventude poçõense”.


Solicitei a Jorge algumas fotos do Chamuscão e recebo o email com um pequeno texto, o qual transcrevo. Interessante o relato dele, pois nos faz lembrar um pouco mais da história daquele lugar único.


"Lulu,
Naquela época, só Vitinho Borba e o Giovanni que tinham máquina fotográfica e quase ninguém tinha hábito em fotografar, então as fotos que tenho do Chamuscão são pouquíssimas. Estou te mandando algumas que consegui com Bruno Sola fotografando da casa de sua mãe, com o Sr. Luiz Sarno passando em frente da Visgueira (bar de Duca) com aquele passo de "EMA", outras com Rosinha de Alvaro Benígno e Catão. Essa foto que estou em frente onde foi construido o Chamuscão, foi o primeiro carnaval que fizemos com a ajuda de todos vocês que estudavam em Salvador, inclusive na escolha do nome "Sukata no Patropi" e com toda sua decoração sob o comando do nosso grande Pepone. E foi daí que surgiu a idéia de construir um espaço para os outros carnavais, com todo o sucesso que teve o inesquecível "CHAMUSCÃO". Eu sempre comparo o Chamuscão com os Beatles: Os Beatles" revolucionaram a juventude do mundo!!! como o Chamuscão fez a mesma coisa com a juventude de Poções..... naquela época é claro!!!.
Um forte abraço,
Na escuta,
Jorjão"
Em tempo:tem uma passagem sobre o Padre Honorato que quero contar a todos:
A partir da hora que o Chamuscão começou a fazer muito sucesso, foi criando uma certa antipatia naquelas pessoas conservadoras e que tinham "filhas." Aí, gerou muita polêmica a respeito dos frequentadores etc,etc... O Padre Honorato, por sua vez, entrou na guerra para difamar o Chamuscão. Atacava ao vivo e a cores naquele serviço de auto-falantes altamente "picante", aí descia a ripa em plena missa de todos os domingos: "O Chamuscâooooo é um ambiente de prevaricaçãoooo da juventude de Poçõesssssss". Como minha mãe frequentava a missa dos domingos, pedi para conversar com padre, para ele deixar de falar aquelas asneiras. Piorou, aí que ele sentou a ripa sem pena e piedade mais ainda. Usei uma estratégia e subornei o Padre, peguei uma garrafa de vinho surpresa, aquele velho espumante, coloquei num papel de presente e mandei o Tonhá levar o TORPEDO para Noratim, ainda bem que ele não devolveu.....Na próxima missa ele ripou mais leve, ganhei o padre......não dei por menos, aí investi tudo no vinho, mandei Tonhá levar um garrafão de "SANGUE DE BOI". Para alegria de todos, na próxima missa dominical o padre falou:"O CHAMUSCÃOOOOO É O AMBIENTE DE LAZER DA JUVENTUDE DE POÇÕESSSSSS" ganhei o padre......valeu o vinho!!!!!.
Um forte abraço, Jorjão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Camisa Amarela

Alguém sempre me pergunta como sei de tantas histórias de Poções. Naturalmente, elas vêm quando lembro das fisionomias das pessoas.

A igreja me ajudou muito. Tive a oportunidade de ser coroinha por um bom tempo. Sabia onde as pessoas sentavam, qual congregação pertencia, da freqüência na igreja e na fila da comunhão. Essa observação transcendia para as ruas. Conheci muita gente e assim me vem as histórias.

Dessa convivência, me lembro de algumas passagens do nosso imortal Padre Honorato Nascimento de Andrade ou Padre Norato, como era comumente chamado.

Na porta lá de casa, quando avistávamos o padre, colocávamos atrás de qualquer porta uma vassoura de cabeça para baixo com um pano enrolado. Era a simpatia usada para que o Padre não demorasse muito. Algumas vezes deu certo. Outras vezes, só foi embora depois do meu pai oferecer uma bebidinha para ele.

Não bastassem as visitas inesperadas, a mais constante era perto do meio dia para ser convidado para o almoço. Mas minha mãe tinha a manha e dizia: - Já estava fazendo um prato para mandar levar na casa do Monsenhor.

Pronto! questão resolvida, só que sobrava pra mim. Eu tinha que levar o prato na casa do padre.

Ele, apesar de teimoso, era um sujeito muito inteligente. A surdez o prejudicava. Desenvolveu a visão e julgava os fatos pelo que via. A mudança da missa em latim para a missa em português o obrigou a desenvolver mais os temas religiosos. Muitas vezes, a prática era sobre o comportamento particular da pessoa e, lógico, não tinha nada com a igreja. Acabava virando tema de discussão da semana.

A compreensão do que se falava era assim: - Padre, amanhã a missa será às sete? Prontamente respondia: - Não, não, às sete, às sete.

Na hora dos batizados, ele colocava a vela na mão de cada criança e perguntava: - Nome deste? Eu dizia o nome, mas não adiantava – ele não ouvia. Simplesmente falava, eu te batizo em nome do pai e do filho.

A mesma coisa era na hora dos casamentos. Ele nunca disse os nomes dos noivos para declará-los marido e mulher.

Usava aparelho de surdez e aumentava o volume da captação sempre que queria ouvir o que lhe interessava. Era uma microfonia só. Um zumbido que as pessoas ouviam de longe.

O aparelho era alimentado por baterias especiais e vendidas apenas no Centro Auditivo Telex, aqui em Salvador. Por causa dessas baterias, viajei muitas vezes. Ele pagava as passagens, o táxi e o lanche. Saia de Poções na sexta à noite, comprava as pilhas no sábado pela manhã e ficava o resto do fim de semana por conta.

Todas as pessoas que o Padre abordava na rua eram chamadas de Joaquim. Ele dizia: - Joaquim, seu fim vai ser morrer! E nessa onda, certa vez, Michele levou o amigo Joaquim Mendes para passar uns dias em Poções. Cruzou logo com o padre e anunciou para o amigo: - Vamos apostar como ele vai adivinhar o seu nome? Não deu outra e ouviu a frase famosa. Admirado, Joaquim perdeu a aposta.

Outra coisa boa era confessar para o padre surdo. Ele fazia as perguntas e a gente só respondia sim ou não. A sentença não deixava de ser a mesma – Salve Rainha uma vez, Ave-Maria e Pai-Nosso três vezes cada.

O padre comprou para a igreja um moderno sistema de alto-falantes. O amplificador parecia uma geladeira, tal o tamanho. Os microfones eram do estilo pedestal e direcionais. Ele mesmo fazia questão de regular o volume, os graves e os agudos. Entendeu que não tinha condições de fazer e passou a adotar marcas pré-definidas nos botões. Para testar o microfone, dava forte soprada e olhava para um de nós pra saber se estava no volume certo. Depois, confiou essa tarefa para Tonhe Gordo.

O tempo passou e a minha colaboração na igreja chegava ao fim. Comecei a espaçar a ajuda e só aparecia na missa de sábado à noite. Eu comprei uma vistosa camisa amarela, de “banlon”, modelo “cacharrel” (gola olímpica), mangas compridas e só usava nas noites de sábado, o padre assimilou o fato do uso da camisa ao meu afastamento da igreja. Passou a me chamar de “camisa amarela” toda vez que nos encontrávamos.

Foi fiel à batina e ao barrete. Poderia ter pregado melhor o “pacem terris” de João XXIII, onde dizia que a paz verdadeira está assentada em quatro pilares: justiça, verdade, caridade e liberdade.

Bom ou ruim, o padre teve o seu lugar por 48 anos à frente da paróquia de Poções.

O nosso poeta Afonso Manta, em texto publicado sobre o Padre, comentou: "Cabe apenas a Jesus o julgamento do nosso Noratin”.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

525

Bem na subida da igreja matriz, onde hoje é o Centro Comercial Francesca Fasano, funcionou a Companhia Telefônica de Poções, no final dos anos 60. Um grande salão, uma central telefônica e as baterias de alimentação do sistema. Três funcionários e capacidade para 50 telefones apenas.

A CTP foi fundada por um grupo de pessoas entre elas Corinto Sarno, Otávio Curvelo, Fernando Antônio Schettini, Pedro Cunha, José Palladino e outros que não me vêm na memória.

Apenas existiam alguns cabos telefônicos troncos. As outras ligações eram feitas de pares simples de fio telefônico desde a central até o local da instalação. Lembro-me do cidadão, o técnico chamado Arivaldo puxando os fios, poste a poste. Foram instalados telefones Ericson, modelos utilizados em extensões – sem os discos de números, fabricados de baquelite na cor preto.

A central era manual, permitia talvez 10 ligações por vez. Os assinantes levantavam o gancho e uma luz acendia no mostrador da central. A telefonista, (Gessy Almeida, foi a primeira) conectava um cabo verde, atendia e recebia o pedido de ligação. Conectava com o outro número através de um cabo vermelho e girava uma manivela para acionar a campainha do telefone na casa do receptor. Um sistema moderno para a época e que permitia o funcionamento mesmo se faltasse energia. O serviço funcionava 24 horas.

O telefone lá de casa foi instalado e o sistema ainda não funcionava. Eu ficava treinando a receber ligações e imitando como se estivesse falando com as pessoas. Assim ficamos por um bom tempo e ansiosos para que o telefone funcionasse.

Numa manhã de sábado, enfim, foi efetuado o primeiro teste. Eu estava sozinho em casa e ouvi aquela campainha estridente tocar. Era o 525 na sua primeira ligação. Sai correndo, procurando por alguém e gritando – o telefone ta tocando... o telefone ta tocando...

Importante registrar o fato por ser a introdução do telefone na nossa cidade. E se o fato é histórico, perdi a oportunidade de receber a primeira ligação no 525 e entrar para o Guiness Book.

Depois, com o passar do tempo, cheguei a ajudar várias vezes na operação da Central. O meu tio Corinto Sarno era o gestor financeiro do negócio e me responsabilizou de fazer a cobrança mensal usando uma bicicleta Caloi, de cor azul. Os formulários de cobrança eram feitos na Tipografia de Alcides Batatinha e todo mês saia entregando e recebendo a taxa mensal.

Na minha lembrança ficou o registro de alguns números de telefones. Quando a Tebasa encampou o serviço, os telefones de três dígitos foram substituídos por telefones de sete dígitos. Hoje, quem tem o telefone na sequencia 3431-1001, 1002, 1003... são os originários dos de três dígitos, os primeiros telefones de Poções.

Quem souber de números antigos de três dígitos e o nome do seu primeiro comprador, me mande para efetuar o registro da história do telefone em Poções. Meu amigo Telson trabalhou um bom tempo na CTP e pode ajudar a lembrar.

Alguns números: 501 - Edvaldo Coletor; 502 – Pedro Cunha; 503 - Padre Honorato; 504 – Omar Rocha e Silva; 505 - Usina da Coelba; 506 - Bar de Arnóbio Andrade; 507 - Correios; 508 – Casa do Promotor; 509 - Pedro da Barreira; 510 – Emílio Sarno; 511 – Farmácia Santana; 512 - Banco do Brasil - Sub Gerencia; 513 - Banco do Brasil - Carteira Agrícola; 525 – Amedeo Sangiovanni; 527 – Corinto Sarno; 530 – Bar de Duca; 543 – José Palladino; 548 – Arnulfo Ramos Silva (Lulu); 550 – Giovanni Sola; 551 – Fernando Antônio Schettini; 555 – Nelson Santana; 559 – Vicente Ventura; 563 – Marcolino Melo Ferreira.

Colaborou: Jorge Dantas (Bufão)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cada vez mais, Lulu "Chorão"

Recebi emails e comentários de pessoas dizendo que havia esquecido de colocar o meu apelido na crônica Apelide. Mas estava lá, antes da relação. Depois, eu coloquei na relação classificada. Outras pessoas perguntaram: porque Lulu Chorão?

Se o apelido é público, a explicação também é pública.

Nunca mexi nesse assunto pra valer, nem tive curiosidade de “trabalhar” a mente para descobrir as razões, mesmo porque continuo chorando até hoje e isso me faz muito bem.

Vem do tempo que estudava no Grupo Escolar Alexandre Porfírio, ali na Praça da Liberdade. Quando ia pra escola, já encontrava a primeira concentração de colegas sentada na escada da Prefeitura. Quando apontava, a turma começava o coro: “Vai chorar!!! Vai chorar!!!”. Minha sorte era ter o apoio moral e físico de amigos escudeiros como Kleber Campelo, Fernando Braga, Miguel Sola, Jota Fagundes e Sidnei do Sargento Severino. Eles tentavam amenizar o coro e ainda eram solidários comigo.

Muitas vezes, usei o choro para fugir de provas e perguntas difíceis. A manga comprida da fardinha caqui vivia sempre molhada de lágrimas, pois apoiava os braços sobre a carteira e a cabeça sobre eles e só levantava quando a situação já estava mais amena. Se os professores não entendiam o choro, imagine se eu deveria controlar ou procurar entender. Por conta, tirava boas notas e, na maioria das vezes, nem fazia as tarefas. Juro que não era choro de conveniência.

Um fato eu tenho que registrar: Sempre chorei quando o assunto estava relacionado com a minha mãe. Certa vez, defronte ao Alexandre Porfírio, ela passou em um carro dizendo que ia levar comida para as velhas (as velhas, eram umas senhoras cegas que moravam pros lados da rua de Boa Nova), eu não entendi e pensei que ela estivesse viajando pra Salvador. Não deu outra, a galera puxou o coro e o “Vai chorar!!!” predominou.

Recentemente, baixando músicas pela internet ouvi “Coração de Luto”, de Teixeirinha, que era muito tocada em Poções. Lembrava-me do quanto era triste e trágica aquela história. A angústia me fez lembrar do passado. Eu tinha um medo terrível de perder a minha mãe e ficar como aquele jovem da letra da música. É o subconsciente, que a gente pensa que não existe mais e, de repente, explica atitudes e fatos. Mas, se uma boa terapia busca explicação em coisas do passado, com essa, eu fiquei livre de algumas sessões.

Assim, chorando, eu fui enfrentar o Ginásio. Lá, eu chorava bem menos. Imagine se eu ia chorar na frente de Dr. Irundy.

Interessante: o tempo passou, mas agora eu sei porque e pra quem eu choro. Na chegada da Bandeira, eu choro do Poçõensinho à porta da Igreja. Choro dirigindo, choro ouvindo música, choro pelos meus parentes e amigos. Choro em ver as demonstrações de fé das pessoas. Choro em ver noiva entrando na igreja. Choro quando vejo histórias de pessoas que se superaram com esforço individual. E se for uma formatura, aí eu seco as lágrimas e me recomponho depois, na festa.

Na verdade, eu choro com o coração. É a conjunção muito forte de passado com o presente. Cada lágrima é uma história consolidada. A emoção é sempre à flor da pele.

Cada vez mais, sou Lulu Chorão!!!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fazendo fole...

Outro dia fui trabalhar e dei carona ao meu amigo e colega de trabalho Guilherme Junot. Ele é natural de Ilhéus e o nosso apoio por todo o interior da Bahia.

Leitor assíduo da coluna, todo domingo à noite me liga e diz: - Lulu, li sua coluna. Ilhéus é igualzinho, tem essas mesmas histórias!

Fica fácil conversar com ele porque as particularidades são próximas. Busco mais uma relação e vejo que somos da mesma Capitania, a dos Ilhéus, do donatário Jorge de Figueiredo Correia e pergunto:

- Você sabe o que é fazer fole? A gente não se agüenta na risada e ele responde:

- Você está na profissão errada, devia ser jornalista!

A conversa continua e emplaco: - “Fazer fole” é diferente de “bater o fole”, você não acha? Mais alguns momentos de gargalhadas e vamos lembrando das coisas comuns. Antes, eu peço que responda a diferença entre “fazer fole” e “bater fole”. Ele emenda que o ferro de gomar, além do fole, precisa do sopro de quem passa a roupa, cuidando para que as fuligens não caiam no tecido.

- Fazer fole é entregar alguém, fofocar, brincar com as pessoas, estou certo? disse ele.

Tão certo que Guilherme foi aprovado no seu conhecimento de termos comuns usados na capitania hereditária. A conversa agora começa a ficar séria. Nós passamos por tudo isso e não faz muito tempo. Fomos lembrando de coisas e comportamentos de outras épocas, das mudanças no curto espaço de tempo.

Durante a conversa, ia ligando as coisas que aconteciam em Poções. No beco apertado, havia a maior quantidade de alfaiates. O fole da tenda de Tani (Otoniel Monteiro Costa) ficava na porta e quando a gente passava, tinha sempre alguém batendo. Mais abaixo, na tenda de Arnóbio, Valter e Déo também tinha o fole em plena atividade. O mesmo acontecia na tenda de Alfredo, na subida para Morrinhos

Falamos da facilidade em que hoje compramos nas farmácias. Ligamos e pedimos, sem cerimônia, um pacote de camisinhas, modess e outros e quando recebemos conferimos os produtos na frente do entregador. Lembrei-me da farmácia de Fábio Rocha e a cena era comum: Um cidadão precisava comprar modess (absorvente feminino) para a esposa e não tinha coragem de entrar na farmácia e fazer o pedido. Os modess eram vendidos em caixas de papelão e ficavam arrumados no alto da prateleira. O cliente apenas cumprimentava Fábio e olhava em direção à prateleira e com o bico apontando para que ele entendesse. Lógico que não precisava falar nada e nem pagar. Habilmente, a despesa ia para a nota.

Nas farmácias de Dr. Ari, Fábio e Seu Olímpio, existiam os almanaques Fontoura e Sadol. Quem lia a histórias de Jeca Tatu acabava tomando Anquilostomina para combater o hospedeiro que causava o amarelão. E tome Capivarol, Emulsão Scoth, biotônico Fontoura, Cafiaspirina e tantos remédios – alguns deles ainda fabricados.

Fui contar essas histórias na casa da minha sogra e a juventude de lá não se lembra da enceradeira. Imagine alguém se lembrar do escovão, aquele que tinha uma placa de ferro para ajudar a pressionar as cerdas no chão. Bater o escovão depois de espalhar a cera por toda a casa, era um trabalho insano. A invenção da enceradeira poupou o trabalho de muita gente. Interessante que os cachorros manchados de vermelho também sumiram.

Não faz muito tempo, 45 anos, luz era um objeto carente. Bastava “quebrar” o motor e a cidade ficava dias sem energia. Era na base de pequenos geradores que funcionava o cinema e algumas casas. Geladeira só a gás. Os rádios eram na base do acumulador de energia. A cidade tinha o seu movimento a noite limitado até as 22 horas, quando tudo escurecia. São Jorge estava lá, na lua, e se enxergava melhor a constelação do Cruzeiro do Sul.

A energia elétrica é a responsável pelas comodidades dos dias atuais. Será que conseguiríamos trocar o chuveiro elétrico pela lata d´água? Viver sem computador depois das dez da noite? Trocar a lâmpada pelo candeeiro a gás? Estudar com luz de velas?

Pois é, tomar Coca-Cola em Poções era negócio de luxo, só existia em Conquista. O máximo que circulava na cidade era gasosa de limão e guaraná Fratelli Vita. Crush e Grapette eram coisas moderníssimas e comercializadas em engradados de madeira.

Andorinha e Campineiro eram as marcas dos distribuidores de doces naqueles caminhões pretos, Mercedes-Benz, ano 56, cara redonda. Com sorte, ler um jornal só com dois dias de atraso. Quando uma pessoa morria fora de Poções, a notícia vinha via rádio ou telefonavam para Conquista e de lá partia um mensageiro e, muita vezes, o falecido já estava enterrado.

E Zé Carlos Leto ainda me escreve dizendo que tempos bons eram esses daí e viaja nesse tempo de saudades...

Nossa sorte Zé, é que nunca jogamos pedra na cruz, a não ser no pé do cruzeiro da Lapinha e não foi nenhum pecado.

E se não foi pecado, será que foi progresso mesmo chegarmos até aqui?

Depois eu conto o dia em que o telefone tocou em Poções pela primeira vez. E essa garotada vive reclamando do celular e do acesso à internet.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ApelidE


(ATUALIZADA EM 05.04.2014)

“Apelide” era como a gente pronunciava a palavra apelido em Poções.

Com essa expressão, comecei a conversar com meu amigo Gildásio Possidônio de Lima Filho, um baiano da Caroba de Irará, terra de Dida da Seleção e do grande artista Tom Zé, no bar do Lula, na Cesta do Povo do Ogunjá.

Era sábado, nem um dos dois tinha pressa, nem fome. Compramos dois reais de camarão seco e ficamos tomando cerveja até a hora de almoçar o resto da feijoada, quase fria, servida no balcão “a la self-service”.

Fomos contando histórias e lembrando do cotidiano das cidades do interior, quando esbarrei na pergunta:

- Com essa “palavrona” no meio do seu nome, você não tinha um apelido?

- Tinha e tenho até hoje. Sou Dau de Julita, respondeu.

- Uma justa e bela homenagem pra quem já carrega o nome do pai, emendei.

Comum nos interiores as denominações de propriedade das pessoas. Contei que lá em casa, meu pai se chamava Amedeo e era mais conhecido pelo apelido de Chico que pelo próprio nome. Variava com Chico da Loja, Chico Sarno e tantos outros. Uma confusão nas correspondências e, muitas vezes, achavam que se tratava de duas pessoas. Com isso, além de Lulu Chorão, fiquei conhecido como Lulu de Chico.

Gildásio contou algumas passagens de Irará e se lembrou que ainda teria que visitar a sua mãe Julita naquele dia. Disse que a conversa ia rolar com outros velhos amigos já que Dida e Tonzé não estariam na cidade (pura pretensão de interiorano, eu conheço). Ia se encontrar com um tal de filho de Nega que Mata Vaca, o fulano da Farmácia e outros com apelidos estranhos.

Lá pelas 5 da tarde, a gente se despediu. Voltei pra casa lembrando dos apelidos dos conterrâneos poçõenses e passei a anotar alguns deles em um pequeno pedaço de papel. Foram tantos, que comecei a colocar em ordem alfabética na tela do computador e vi que dava até para classificar.

Passei a semana nesse exercício. Ativei todas as baterias dos neurônios. Na minha cabeça, rodavam as ruas de Poções, as casas comerciais, as festas, as pessoas circulando e, o melhor, lembrava de histórias e mais histórias. Achei apelidos do tempo de criança. Fiz uma verdadeira viagem no tempo. O pessoal daqui de casa dizia que eu estava ficando maluco quando lembrava de alguém no meio do nada e anotava no papel.

Gente que conheci, que convivi. Gente que já se foi. Gente que não vejo há muito tempo. Já são mais de 340 “apelides” (apenas masculinos). Dos sérios aos engraçados, eles fizeram parte também da vida dos seus donos e ficaram registrados na nossa cidade e são tratados aqui com toda a dignidade e respeito. Eles fazem parte da história.

Minha única preocupação, agora, é saber que esqueci de alguns. Paciência! Vocês vão viajar nas suas histórias, lembrar de mais gente e me enviar para aumentar a relação dos apelidos do nosso povo.

Agradeço ao meu amigo Dau de Julita pelo papo que resultou essa crônica. Aliás, confesso que foi uma das que mais me causaram emoção e prazer em pensar e escrever.

Nota do blog: Nasceu em 11.07.2012 Pedro, filho de Gildásio/Cláudia, neto de Julita - vamos aguardar para saber o apelido do menino, mas que sejam muito bem vindos - o menino e o apelido.

Apelidos – baseados em nomes de animais
Artur Rato Branco, Anísio Caçote, Aurino Gambá, Bidinha Cabra, Cesário Rabicó, Coelho (Fernandinho), Coelho (Acascp), Davi Cara de Jegue, Diva Mão de Onça, Edson Jacaré, Fernando Boião, Franga Preta, Gavião do Deserto, Gilberto Galo Cego, Ivan Pavão, Jorge Galinha, Leão Guarda, Lobão, Lobinho, Luiz Morcego, Luiz Surucucu, Mama na Loba, Marco Antônio Cara de Onça, Marcos Lagartixa, Marquinhos Cocá, Marquinhos Peruzinho, Nilton Porquinho, Oga Bode, Piolho, Ratinha, Renan Vaca Gorda, Tonhe Gabirú.

Profissões
Adelson do Portal, Adevaldo Radialista, Agenor da Cachaça, Alcides Retratista, Alfredo Alfaiate, Almir Serra Pau, Antonio Ourives, André da Ótica, Arnóbio da Cachaça, Bal Alfaiate, Barberim, Beto da Loja (Beto Penicilina), Celso Relojoeiro, Chico da Loja, Daje do DNER, Del da Alfaiataria, Dezin do Leite, Didi da lage, Dió Moto-Taxi, Duca do Bar, Enéas do Gás, Fafá Mata Égua, Fidélis do Arroz, Gil do Box, Hélio Manteiguinha, Homero Pintor, Hormindo do Rádio, João do Leite, João do Queijo, Joaquim Carregador, Jonas do Reforço, Lande da caçamba, Locutor Fabiano Ferreira, Louro Saboeiro, Márcio do Celular, Marcos Agente de Saúde, Marcos do Moto-taxi, Miguel Açougueiro, Mimi do Óleo, Nelson Pintor, Néo Ferreiro, Niltão do Fórum, Oscar do Posto, Pedro da Farmácia, Professor Carlos, Professor Kleber, Professor Rosalvo, Orlando Som, Pulú do Cachorro Quente, Quinca da Farmácia, Reginaldo do Posto, Rogério da Caixa, Rui Queijinho, Sargento Izaías, Sargento Jaílson, Sérgio Mota (Sérgio Motos), Terêncio do Bicho, Tonhe da ABB, Tonhe do Feijão, Ulisses do Rádio, Valter Gabriela, Vavá Açougueiro, Vavá da Coelba, Vieira da carne do sol, Zé da Loja, Zé Dentista, Zé do Pão, Zé Sapateiro, Zil da Relojoaria, Zu Latoeiro, Zu Ferreiro, Zuca Fiscal.

Em nome do pai, da mãe, ....
Arnaldin de Zu Latoeiro, Batatinha (João), Bida de Pasqual, Carlos de Daniel, Di de Marcolino, Didí de Eurípedes, Duardo de Pasqual, George de Jorge de Duca, Geraldo de Doninha, Gilmar de Abel, Hélio de Afonso, Jó de Marcolino, Joaquim de Rádio, João de Catão, Jorge de Duca, Jorge de Ucha, Lulu de Chico, Kau de Edite, Marquinhos de Tidinha, Neumir de Marcolino, Neumir de Miga, Paulin de Doca, Paulo de Aníbal, Paulo de Fábio, Pedro de Anália, Pedro de Diná, Raul de Paulo de Fábio, Santo de Zizio, Tim de Eurípedes, Tim de Louro, Toinzin de Carlito, Tonhe de Doca, Vilma de Kel, Zé de Alfredo, Zé de Dahil, Zé de Doca, Zé de Lausinha, Zé de Paladino (Patel), Zé de Vadim, Zé de Zú, Zostinho.

Pela geografia
Boa Nova, Carlinhos Carioca, Candango, Fidélis de Boa Nova, Pedro da Barreira, Serra Preta, Vani do Açude, Zé Califórnia, Zil do açude.

Pela aparência
Abílio Roxo, Ari - o Príncipe, Bruno Gaso, Capacete (Tonhão), Cara de Jaca, Careca, Carlinhos Regaçado, Castelo Branco (Banco do Brasil), Cesar Pedra, Daniel Rosinha, Decalcado, Deixa que eu chuto, Dó Baixinho, Fernando Melancia, Gaso, Geraldo Cafona, Guimar Vampiro, Gutão, Hélio Virote, Homem da Cruz, Isac Pé de Rodo, Ito Pezão, Jânio Barriga, Jipe, João Bonitin, João Pé Real, João Só (Aziz), Jorge Boneco, Jorge Uriudo, Latão, Mortalha, Nêgo Lino, Nêgo Rege, Nêgo Rosi, Nêgo Vando, Néo Bicudo, Néo Paciência, Nildo Cabeludo, Orlando Tonel, Osvaldo Catingueiro, Paulo Barão, Pé de Banha, Pé de Barro, Rui Barriga, Toinho Cabeção, Tonhe Feio, Tonhe Gordo, Turniado, Ulisses Gogó, Valdemar Branco, Valdemar Preto, Vicente Cheiroso, Vicente Lampião, Zé Creca, Zé Foen, Zé Perninha, Zé Pescoço, Zezin Bocão, Zoma Barriga, Zuza Pezão.

Pornográficos
Abel Cagão, Edilson Cuião, Jorge Bufão, Léo Bostinha, Luiz Bosteiro, Osvaldo pega-na-bosta, Quenga, Siri Caçola, Zé Bufinha.

No aumentativo e no diminutivo
Almizinho, Baninho Guarda, Bizinho, Cebolinha, Cumpadinho, Darinho, Fiinho, Gimirim, Gugu, Gutinha, Letão, Letin, Licinho, Lofinho, Lourinho, Maninho, Muzinho, Napinho, Nelsão, Nobertin, Nozinho, Nuguinha, Pedro Sibim, Quequinha, Rael, Riquinho, Rominho, Sonson, Tina, Tininha, Vecinho, Zequinha, Zezel.

Ecológicos
Dêga, Firmino Cravo Branco, Goiaba, João Mercório, Lago, Mário Goiabão, Mero, Rocha.

Italianos
Bajolão, Beleleu, Bruno Beçola, Caúva, Fidelão, Gueguel, Luizito, Lulu Chorão, Marão, Miguelute, Penute (Pinuccio), Pepone, Pipinho, Satobão, Solista.

Músicos
Alcides Bordado, Berecó, Bubuca, Chicão, Cidinho, Pitôco, Sandoval Caúca, Senhorzinho, Tião, Tonhe Faca Doida, Vilmar Coxinha, Xirico, Zé do Sargento, Zé Tenaz.

Na estrada
Alfredo Zefa Doida, Papel, Terão, Tonga, Tota.

Dos Fagundes
Bartola, Bil, Adilson Cabeção, Cebola, Deduca, Dega, Déo, Dudui, Dúi, Jota, Léo Fera, Nenzin (Nilton), Quito, Ti Nadinho, Tonhe Banana, Vei Neném, Viví.

Velha Guarda
Badinho, Batatinha (Alcides), Carlito de Uchinha, Dé, Dindo, Dôca, Fernando, Bigode, Frazin, Liligo, Liquinho, Lô, Lulu (Prefeito), Malagueta, Maneca, Miga, Nelito, Nenga, Nenzinho, Nino, Pedro Boca de Sebo, Tani, Ton de Nino, Ula, Vavá, Zizio Ferrugem.

Malucos
Dió Doido, Ruduleiro Morotó, Tunico, Véi de Zé Galo.

Bons de bola
Aví, Borrela, Bubute, Cal Barú, Capela, Cumpade Laro, Cumpade Nozin, Dái, Dão (Laudelino), Espirro, Ganapa, Jorge Bode, Lejo, Lejado, Mela, Miel, Mirinda, Nêgo Déo, Nêgo Gerson, Pata, Patel, Ponga, Tena, Ti, Tonhe Ximbica, Toninho Galego, Zozó.

Longe do nome verdadeiro
Agonia, Bada, Belisco, Biringo, Budu, Catão, Dena, Deputado, Diva, Fazendeiro, Fura Fura, Já Modeu, La Fontaine, Minuca, Mituca, Mufula, Nino Aprígio, Pancho, Pão, Tinga, Tléis (Alênio), Xarope, Xerife, Zé Catemba.

Outros
Cadê o pão Matheus? César Lubião, Chico Picolé, Fafá, Garapa, Lié, Luizão, Ni, Osvaldo Cientista, Paulo Bibimirim, Pepeu, Praxeda, Rafael Birro Doido, Roni, Rudiá, Tonico, Tonhá.

Colaboraram: José Paladino (Zé de Paladino), Jorge Dantas (Jorge Bufão), Luiz Carlos Schettini Barbosa (Luiz Bosteiro), Michele Sangiovanni (Miguelute) e Jorge Schettini Torres (de Ucha).
Lista do TRE candidatos a vereadores de 2012.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O muro do açude

O rio São José é represado no açude e o excesso de água desce pelo vale onde tem as pontes, rumo a baixada da Cachoeirinha.

Quem vê aquele canal, certamente se lembra das enchentes. Não imagina quantos problemas já trouxe para Poções. Hoje, o canal está feito. As enchentes acabaram.

Numa certa tarde, o céu ficou escuro e caiu uma tromba d´água nas cabeceiras do açude e no canal que passa defronte ao Isaias Alves. A água ficou retida nas duas praças e invadiu a Deocleciano Teixeira.

Era muita água. O povo correu para a parte alta da Rua da Itália e aguardava mais inundação. Dali, da porta da Tipografia de Alcides Batatinha, diziam: “o muro do açude caiu, o muro do açude caiu”. Era esperar pelo dilúvio, pois o açude São José inundaria a cidade.

Uma cena que me lembro como se fosse hoje. Desesperados, com as crianças, estava Carlos Rizério e Dona Célia. Eles moravam na Praça do Coreto e se livravam da inundação, mas bastante assustados com a notícia.

Em meio ao desespero, muitos comentavam o assunto e percebiam que a água não chegava. O que era desespero passava a ser alívio.

Na Praça da Igrejinha, onde hoje é “O Gaiolão”, havia um terreno baldio murado, bem ao lado do açougue de Seu Miguel. O muro era utilizado para propaganda política (uma delas era do Plínio Salgado).

Tanta chuva que o muro não resistiu à força dela. Bastou alguém gritar que “o muro do açougue caiu” para entender que “o muro do açude caiu”.

Enfim, o dia em que um erro de comunicação transformou o muro em um dilúvio.