"Se chorei ou se sorri, o importante é que em Poções eu vivi"

terça-feira, 21 de maio de 2013

Amizade à jato...

Sobre a Festa do Divino desse ano, inicio com uma história que me deu grande prazer em ter vivido.

Eu fui para São Paulo na quinta feira passada e tinha que voltar a tempo de participar da festa na sexta, não por completa, mas a tempo de ainda ver algum cavalo na rua. Mas, sabia que era impossível chegar.

Às três e meia da manhã, enquanto era preparada a Alvorada em Poções, eu estava chegando no adormecido estacionamento do Shopping Eldorado, num frio de 17 graus, para esperar o ônibus da empresa aérea com destino ao aeroporto de Viracopos, em Campinas.  

Salta de um carro um senhor usando chapeu e um agasalho, com uma mala, uma sacola e a mochila com alguns pertences. Vai até o segurança e pergunta se alí era o ponto do ônibus. Não satisfeito, veio em minha direção e me fez a mesma pergunta. Eu disse sim e perguntei para onde ele ia. Prontamente respondeu que era para Vitória da Conquista e depois para Caraíbas, pequena cidade do Sudoeste baiano entre Anagé e Tremedal.

Ele, alegremente, contava que não havia sido necessário fazer uma cirurgia que lhe fora indicada pelos médicos de Conquista. Estava naquela cidade, junto às suas filhas, há sessenta dias. O problema de perda de líquido nas juntas ele enfrentava naturalmente, mas que incomodava vez ou outra. Faria a sua segunda viagem de avião em toda a vida. Eu faria a segunda da semana. Já comecei a imaginar na chegada dele em Campinas e na conexão em Belo Horizonte. Quem comprou essa passagem, não imaginou a via sacra que é para uma pessoa de certa idade e com aquelas dificuldades físicas.

Dizem que a gente tem anjo da guarda. Eu era o anjo da guarda de Seu Valdelino. Resolvi adotá-lo naquela manhã. Chegamos em Campinas por volta das 5 e meia e fomos fazer o check-in. Peguei carona na fila dos idosos e conseguimos despachar as malas rapidamente – troca de favores – eu dava conhecimento e ele me permitia prioridade.

Sentamos para tomar café e queria tirar as merendas que as filhas haviam colocado na mochila, me lembrando dos embornais de antigamente. O farnel ficou guardado e troquei por pão na chapa e café com leite.

Embarcamos para BH e ele insistia para permanecermos juntos a fim de dar-lhe mais segurança. Passou batido pelo fone de ouvido e se sentou tranquilamente sem medo das turbulências de céu claro. Lá de trás, só via o virar da cabeça através do seu chapéu, ligado em tudo que acontecia de movimento no avião e fora dele, pela janelinha. Catou os pacotes de balas e disse que levaria para os seus netos.

Em BH, descemos e os seus pés já não cabiam mais nos sapatos. Reclamou e pediu para calçar as sandálias. Fomos caminhando todo o desembarque até a área do novo embarque para Conquista. Ficou aliviado e me disse que se não estivesse ali, não saberia o que teria acontecido, mas tinha a certeza que teria feito umas trinta perguntas. Naturalmente, pediu para que ligasse para sua espôsa para tranquilizá-la sobre a viagem. Disse para ela que havia arranjado um companheiro de viagem e que não se preocupasse que ele iria chegar bem.

Mais uma hora de conversas com aquele humilde senhor, que enxergava novidades, mas as encarava com naturalidade. Só ficou surpreso quando a mocinha do raio-x pediu para que ele mostrasse a pequena tesoura de cortar pêlos do nariz, que havia sido presente da sua filha. Acreditava que a mocinha havia usado a internet para descobrir. Deu um pinote quando paguei R$ 6,50 em um pequeno copo de café com leite. – Não é aqui que tem café e leite com fartura? É muito caro seu Luiz!

Hora do embarque para Conquista. Estava ele lá, na fila, passando na frente dos outros. Já estava aprendendo como fazer e entendendo os seus direitos.

Chegamos e desembarcamos. Seu Valdelino já cobrava do rapaz das malas e dizia - Cadê as nossas malas? Tá faltando mais uma, de rodinha!  - era a minha mala que ele já havia incorporado ao conjunto.

- Bem, seu Valdelino, nossa viagem termina aqui. Um dia, eu vou a Caraíbas para ver o senhor.

Ele ainda insistia em que deveríamos almoçar na pequena churrascaria que o filho dele tem próxima ao Ceasa de Conquista. Não sabia que eu estava atrasado para a Chegada das Bandeiras, não aceitei o gentil convite.

Nos abraçamos fortemente e nos despedimos. Eu já estava no taxi e num gesto de respeito, tirou o chapéu e acenou para mim.

Valdelino Patez, uma amizade à jato. Um companheiro de viagem.
 
- Até Caraíbas!!!

3 comentários:

  1. San,
    Ele também foi o seu anjo da guarda! Ambos foram enviados para fazer companhia um ao outro, ele para tentar acalmar sua ansiedade e você para deixá-lo mais confortável na viagem.

    Um abraço,
    Pinduca.


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  2. Marcos Souza22 maio, 2013

    Ha coisas que acontecem na nossa vida e que nao entedemos porque, esta foi uma delas, mas tenha certeza tem um sentido. Belo causo.

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  3. É Pinduca, enquanto eu achava que você tava vendendo os planos de manutenção, tava mesmo aprendendo a reconhecer os meus sentimentos. Também, aluguei os seus ouvidos com as histórias de Poções. Obrigado amigo.

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